Eleições 2026: PT aposta em veteranos e novas faces para a Câmara dos Deputados em pleito decisivo

Neste domingo, 4 de outubro de 2026, o Partido dos Trabalhadores (PT) enfrenta um desafio crucial nas urnas, buscando consolidar sua influência na Câmara dos Deputados. Em um pleito que se desenha como um termômetro para a força política da legenda, a estratégia petista é clara: combinar o recall eleitoral de figuras históricas e por vezes controversas com a energia e o apelo de jovens lideranças. A disputa por cadeiras no Congresso Nacional, que ocorre hoje nos maiores colégios eleitorais do país, marca o retorno de nomes emblemáticos como José Dirceu, João Paulo Cunha e Delúbio Soares, ao lado de apostas renovadas como Marcelo Freixo, em uma tentativa de maximizar votos e garantir uma bancada robusta para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A composição da lista de candidatos reflete a complexidade do momento político do PT. De um lado, a aposta em veteranos que, apesar de condenações e escândalos passados, ainda carregam um capital político considerável e uma profunda conexão com a base partidária. De outro, a busca por renovação e por rostos que possam atrair um eleitorado mais jovem e desiludido com a política tradicional. Essa dualidade estratégica é fundamental para o partido que busca reafirmar sua hegemonia e garantir governabilidade para os próximos anos. A eleição de hoje não é apenas sobre números, mas sobre a narrativa e a capacidade do PT de se reinventar enquanto mantém suas raízes.
O Retorno dos Veteranos: Estratégia de Peso e Controvérsia
Um dos nomes mais aguardados e polêmicos a retornar às urnas é o ex-deputado federal José Dirceu, que disputa uma cadeira pela Câmara dos Deputados no estado de São Paulo. Dirceu, figura central nos primeiros anos do governo Lula como chefe da Casa Civil, teve seu mandato cassado em 2005 em meio às revelações do escândalo do Mensalão. Sua trajetória política é marcada por altos e baixos, incluindo exílio durante a ditadura militar, período em que estudou em Cuba, e a posterior fundação do PT no início dos anos 1980. Condenado a quase oito anos de prisão pelo Mensalão em 2013, cumpriu pena em regime fechado e domiciliar. Em 2015, foi novamente preso durante a Operação Lava Jato, sendo condenado a mais de 30 anos por envolvimento em desvios na Petrobras. Contudo, em 2024, uma decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou todos os atos processuais contra Dirceu referentes à Lava Jato, abrindo caminho para seu retorno à vida eleitoral. Sua candidatura é um símbolo da resiliência e, para alguns, da impunidade, mas para o PT, representa a mobilização de uma base fiel e a tentativa de reabilitar um de seus fundadores mais influentes.
Ao lado de Dirceu, outros nomes históricos do PT também buscam uma vaga na Câmara. João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados entre 2003 e 2005, também condenado pelo Mensalão, volta à disputa. Beneficiado pelo perdão da pena concedido pelo STF em 2016, com base em um indulto de Natal da ex-presidente Dilma Rousseff, Cunha manteve sua influência partidária como advogado e conta com o apoio público de Lula para o pleito de hoje. Sua presença nas urnas é um lembrete da era de ouro do PT e da complexidade das decisões judiciais que moldaram o cenário político brasileiro.
Outro veterano que retorna é Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT e pivô do escândalo do Mensalão ao lado de Marcos Valério. Condenado a seis anos e oito meses, Delúbio cumpriu parte da pena em regime semiaberto e domiciliar, sendo beneficiado pelo perdão da pena do STF em 2016. Ele concorre a deputado federal pelo estado de Goiás, buscando uma reabilitação política que, para muitos, é controversa, mas que para o partido representa a capacidade de mobilizar eleitores em um estado estratégico.
As Novas Apostas e os “Puxadores de Votos”
Em contraste com os veteranos, o PT também investe pesado em figuras com forte apelo popular e capacidade de “puxar votos”. Marcelo Freixo, que retornou ao partido em 2023 após 20 anos, é a principal aposta no Rio de Janeiro. Com um histórico eleitoral impressionante – foi o segundo candidato mais votado em 2018 pelo PSOL, com mais de 342 mil votos, e obteve 2,3 milhões de votos como candidato ao governo do Rio pelo PSB em 2022 –, Freixo é visto como um dos principais nomes da esquerda no debate sobre segurança pública, tema de grande preocupação para o eleitorado. Sua atuação como presidente da “CPI das Milícias” na Alerj em 2008 e sua recente passagem pela presidência da Embratur durante o atual mandato de Lula reforçam seu capital político e sua capacidade de atrair eleitores para a chapa petista no estado.
No cenário paulista, Rui Falcão, jornalista e advogado, fundador do PT e ex-presidente nacional do partido por dois mandatos, busca a reeleição. Em 2022, foi o petista mais votado para a Câmara em São Paulo, com mais de 193 mil votos. Sua experiência como secretário de Governo na prefeitura de São Paulo durante a gestão de Marta Suplicy e seu longo histórico partidário o posicionam como uma figura de peso para a bancada federal.
Lindbergh Farias, atual vice-líder do governo na Câmara dos Deputados, disputa a reeleição pelo Rio de Janeiro. Sua trajetória política começou em 1992, como presidente da UNE e um dos líderes do movimento “caras-pintadas” pelo impeachment de Fernando Collor. Sua presença é estratégica para a manutenção da base governista e sua relação com a senadora Gleisi Hoffmann, candidata ao Senado pelo Paraná, adiciona um elemento de conexão entre as campanhas.
A Renovação e o Desafio Geracional
Apesar da aposta em nomes conhecidos, o PT também enfrenta a dificuldade de renovação de seus quadros e busca em jovens políticos a oxigenação necessária. Zeca Dirceu, filho de José Dirceu, tenta seu quinto mandato como deputado federal pelo Paraná. Com experiência prévia como prefeito de Cruzeiro do Oeste (PR) por dois mandatos, Zeca tem se posicionado em disputas internas e externas, como pré-candidato a prefeito de Curitiba e ao Senado, demonstrando a busca por maior protagonismo dentro do partido.
No Paraná, o deputado estadual Renato Freitas concorre à Câmara dos Deputados. Conhecido por seu histórico de denúncias no Conselho de Ética da Alep e por sua postura combativa, Freitas alega perseguição política. Sua atuação, que incluiu a revelação do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) envolvendo o ex-presidente da Casa Ademar Traiano (PSD), e um incidente de briga de rua, o colocam como uma figura polarizadora, mas com capacidade de mobilizar um eleitorado específico.
Em Minas Gerais, Pedro Rousseff, sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff, é uma das jovens apostas. Eleito o vereador mais votado da história do PT em Belo Horizonte em 2024, com 17,5 mil votos, Pedro participou da coordenação da campanha de Lula no estado em 2022. Seu despertar político, segundo ele, ocorreu durante o “injusto processo de impeachment” de sua tia, o que o conecta a uma narrativa de defesa da democracia e do legado petista.
Em São Paulo, Luna Zarattini, vereadora reeleita em 2024 com cerca de 100 mil votos, é outra jovem aposta para a Câmara dos Deputados. Apresentando-se como um novo rosto da esquerda, Luna representa a tentativa do PT de atrair um eleitorado urbano e progressista, buscando superar a dificuldade de renovação dos quadros partidários nos estados. Sua candidatura é um esforço para mostrar que o partido não vive apenas de seu passado, mas também investe no futuro.
A eleição de hoje é um teste decisivo para o Partido dos Trabalhadores. A combinação de figuras históricas com novos talentos visa não apenas garantir um número expressivo de cadeiras na Câmara dos Deputados, mas também reafirmar a relevância do PT no cenário político nacional e sua capacidade de adaptação e mobilização. O resultado das urnas definirá a força legislativa do governo Lula e o futuro da maior força de esquerda do país.