Dólar Despenca a R$ 4,94: Mercado em Rali Pós-Virada Eleitoral e Otimismo Fiscal

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Nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026, o mercado financeiro brasileiro consolidou um “rali eleitoral” robusto, impulsionado pelo surpreendente desfecho do primeiro turno das eleições presidenciais. O dólar comercial despencou para R$ 4,94, registrando uma queda de 1,1% no dia, aprofundando o movimento de desvalorização iniciado na véspera. A Bolsa de Valores, por sua vez, embora tenha passado por uma correção natural após ganhos expressivos, manteve o tom de otimismo que se instalou com a dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e a perspectiva de um Congresso Nacional com ampla maioria de direita. A euforia nos mercados teve início na segunda-feira, após a apuração dos votos do domingo, 4 de outubro. Naquele dia, a Bolsa de Valores de São Paulo disparou impressionantes 7,7%, enquanto o dólar comercial recuou 4%, retornando ao patamar de R$ 5. O fluxo de capital estrangeiro foi monumental: o EWZ, maior fundo negociado em Bolsa (ETF) do mundo a acompanhar ações brasileiras, registrou um volume de negociações superior a US$ 8 bilhões, o maior em um único dia desde sua criação em julho de 2000. Paralelamente, um fundo de índice (ETF) de ações brasileiras listado no Japão experimentou uma alta de 12% na segunda-feira, subindo mais 3,4% na madrugada desta terça. A principal força motriz por trás desse otimismo reside na percepção dos investidores sobre o novo cenário político. Flávio Bolsonaro, contrariando as projeções das pesquisas eleitorais, obteve 47% dos votos no primeiro turno, superando os 45% do presidente Lula. Além disso, a nova composição do Congresso, com uma maioria conservadora significativa, especialmente no Senado, é vista como um fator que pode facilitar a aprovação de reformas e medidas de ajuste fiscal. Gestores de fundos e analistas de mercado interpretam a liderança de Flávio como um indicativo de maior propensão a implementar um ajuste fiscal via corte de gastos, apesar de seu programa de governo carecer de detalhes específicos sobre tais medidas e do histórico de seu pai, Jair Bolsonaro, que recorreu a manobras como a retirada de precatórios das metas de contas públicas, postergando o problema para a administração seguinte. A continuidade da queda do dólar nesta terça-feira, que o levou a R$ 4,94, alinha-se a um movimento global de desvalorização da moeda americana. O DXY, índice que compara o dólar a uma cesta de outras seis divisas fortes, registrava queda de 0,3% no mesmo período. Para o banco suíço UBS BB, a cotação do câmbio deve se manter em torno de R$ 5 no curto prazo. Contudo, os analistas da instituição vislumbram um cenário ainda mais favorável: “caso o segundo turno reforce o resultado de domingo, e desde que o petróleo continue favorável, o câmbio poderia caminhar para R$ 4,50 ou R$ 4,60 nos três a seis meses seguintes”, projeta o banco, indicando uma perspectiva de valorização ainda maior para o real. Enquanto o dólar seguia em baixa, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, que chegou a abrir em alta de 1%, passou a operar na estabilidade e, por volta das 14h45, recuava 0,15%, atingindo 206.604 pontos. Essa correção, segundo Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, é “natural após 9% de valorização entre sexta-feira e ontem”, referindo-se aos ganhos acumulados entre 3 e 5 de outubro. Setores específicos sentiram o impacto da valorização do real. A Petrobras registrava queda de 2%, e a Vale desvalorizava 1,3%. No bloco financeiro, que havia disparado na véspera, o Banco do Brasil operava em baixa de 5,5% e o BTG Pactual recuava 2,5%. Pedro Paulo Silveira, analista de trading da Valor Investimentos, complementa que a desvalorização do dólar, embora benéfica para a economia como um todo, contribui para as perdas de empresas exportadoras listadas no Ibovespa. “Com o dólar caindo, as empresas exportadoras do Ibovespa acabam tendo desvalorização também”, explicou Silveira, citando a Embraer, que perdia 0,5%, e a Weg, com recuo de 0,35%, como exemplos desse fenômeno. A dinâmica ressalta a complexidade do mercado, onde o bom humor geral pode coexistir com pressões setoriais. A questão fiscal permanece um ponto central na análise dos mercados. Durante o governo Lula, a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) apresentou um aumento significativo, passando de 71,7% em 2023 para 82,5% em agosto passado. Uma relação dívida/PIB elevada exige um “prêmio” maior dos investidores para refinanciar a dívida pública do país, impactando negativamente o desempenho dos demais ativos brasileiros. A coordenadora de economia da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, buscou tranquilizar o mercado, afirmando que a “autocontenção de gastos virá com diálogo entre Poderes”, sinalizando uma postura de responsabilidade fiscal. Nos bastidores da campanha de Flávio, auxiliares defendem uma estratégia que inclua a subida de tom contra a corrupção e o Supremo Tribunal Federal (STF), além de um maior comprometimento fiscal, abandonando discursos passados que desqualificavam a importância do superávit primário. A adesão de figuras políticas como o ex-governador de Goiás, Caiado, que declarou apoio ao candidato do PL no segundo turno, reforça a percepção de um alinhamento político que pode pavimentar o caminho para a governabilidade e a implementação de uma agenda econômica mais liberal. Apesar do otimismo inicial, a volatilidade é a palavra de ordem para os próximos dias. Pedro Paulo Silveira, da Valor Investimentos, reitera que o cenário permanecerá instável até o segundo turno das eleições. Os analistas de mercado estão agora ajustando suas apostas, cientes de que a corrida presidencial ainda não está definida e que qualquer reviravolta pode reconfigurar as expectativas. A capacidade do próximo governo de entregar um ajuste fiscal crível e de manter a estabilidade econômica será crucial para sustentar o “rali eleitoral” e atrair investimentos de longo prazo. O Brasil, portanto, navega em águas de otimismo cauteloso. A queda do dólar e o desempenho da Bolsa refletem uma aposta do mercado em um novo ciclo político e econômico, mas a incerteza inerente a um segundo turno eleitoral e a necessidade de reformas estruturais mantêm os investidores em alerta. A performance dos ativos brasileiros nos próximos meses dependerá não apenas do resultado das urnas, mas da clareza e da firmeza das políticas econômicas que serão propostas e implementadas pela futura administração.

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