Dionne Warwick, aos 85, Anuncia Aposentadoria e Lança Último Álbum, Expressando Desapontamento com os EUA e Esperança na Juventude

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A lendária cantora Dionne Warwick, aos 85 anos, prepara-se para encerrar uma carreira de mais de seis décadas no show business, anunciando sua aposentadoria iminente. Em entrevista concedida ao Estadão por videoconferência, a dama da música americana revelou que seu desejo é “relaxar e descansar um pouco”, priorizando o sono e o fim das viagens constantes que marcaram sua vida profissional. Este anúncio coincide com os ajustes finais de seu derradeiro álbum de estúdio, “DWuets”, que tem previsão de lançamento até o fim de outubro de 2026, e com o início de uma turnê de despedida que a trará ao Brasil a partir desta sexta-feira, 16 de outubro. Em meio a esses marcos, Warwick não hesita em expressar sua “decepção” com o cenário atual dos Estados Unidos, embora mantenha uma visão esperançosa sobre o papel da juventude no futuro do país. Apesar da iminente saída de cena, a artista demonstra um ritmo de trabalho intenso. “DWuets”, como o título sugere, é uma coletânea de duetos e um projeto que carrega um significado duplo: as iniciais não se referem apenas a Dionne Warwick, mas também à renomada compositora Diane Warren, indicada 17 vezes ao Oscar por sua vasta contribuição à indústria cinematográfica. Warren é a mente por trás de todas as composições do novo trabalho. Duas faixas já foram reveladas ao público, apresentando Warwick ao lado de John Legend e Cynthia Erivo. O disco também contará com a participação de talentos mais jovens, como Kehlani e Saweetie. Ainda mantendo um certo mistério sobre a lista completa de convidados, Dionne Warwick revelou, com entusiasmo, que realizará um dueto há muito esperado com o Earth, Wind & Fire. “É o meu grupo favorito de todos os tempos. Estamos tentando isso há uns 25, 30 anos, e finalmente vamos nos reunir no estúdio”, compartilhou, evidenciando a concretização de um sonho antigo. A afinidade por colaborações vocais é uma marca registrada de sua trajetória, pontuada por sucessos com nomes como Johnny Mathis, The Spinners, Luther Vandross, Barry Manilow e Jeffrey Osborne. Sua voz também brilhou em projetos icônicos, como o hit “That’s What Friends Are For”, ao lado de Elton John, Stevie Wonder e Gladys Knight, e sua participação no projeto “We Are The World”. Ao longo dos anos, dividiu harmonias com lendas como Frank Sinatra, Glen Campbell e sua prima, Whitney Houston. Para Warwick, a chave para um dueto convincente reside na entrega mútua: “Uma vez que elas sabem que eu realmente quero estar com elas e elas querem estar comigo, fica muito fácil para nós fazermos isso”, explica. Paralelamente ao lançamento do álbum, a artista está empenhada em levar sua história para as telonas. Após o documentário “Dionne Warwick: Don’t Make Me Over” (2021), ela agora mira Hollywood com um filme biográfico. A atriz Teyana Taylor, recentemente aclamada por sua atuação em “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, foi a escolhida para interpretá-la. Warwick atua como consultora no projeto, que ainda está em estágios iniciais e promete liberdades criativas. “Estamos tendo reuniões com agentes e o roteiro está sendo elaborado. Pelo que eu já li, é muito bom. O público vai ter acesso a algumas partes da minha vida que, obviamente, nunca aconteceram. Mas é essa espécie de licença poética que faz o roteiro ser o que é”, adianta. A relação com Teyana Taylor, que é sua fã, evoluiu para uma grande amizade. “Eu não poderia pensar em uma pessoa melhor do que ela para fazer isso. Chega a ser assustador o quanto somos parecidas. E, provavelmente, ela sabe mais sobre mim do que eu mesma!”, confessa a cantora. Apesar dos planos de aposentadoria, Dionne Warwick continua em sua longa turnê de despedida, motivada pelo desejo do público em vê-la nos palcos. O Brasil, país com o qual mantém uma relação especial, será uma das paradas. A partir de 16 de outubro, ela se apresentará em São Paulo, seguindo depois para Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba. Sobre o repertório, ela garante: “Irei cantar as músicas que se espera que eu cante. Mas vou ver se há algo que os fãs brasileiros nunca ouviram antes e apresentar uma música nova. Fora isso, vou simplesmente levar Dionne a vocês. E isso basta, não é?”, brinca, prometendo a essência de sua arte. A conexão da artista de Nova Jersey com o Brasil é notória e profunda. Foi grande amiga de Gal Costa, participou inúmeras vezes do “Domingão do Faustão” e gravou com músicos brasileiros no álbum “Aquarela do Brasil” (1994). Este projeto, inclusive, foi realizado contra a vontade de seu empresário à época, Clive Davis, que faleceu em junho deste ano. Davis, ao lado de Burt Bacharach e Hal David (compositores de muitos de seus maiores sucessos), foi um dos três homens mais importantes em sua carreira. “Clive perguntava: ‘por que você vai fazer um disco brasileiro?’ [imitando um tom zangado]. E eu respondia: ‘porque eu amo o Brasil e o Brasil ama Dionne’ (risos)”, recorda, lamentando a perda do amigo. “Vou sentir muita falta dele. Nós conversávamos quase todos os dias. Ele deixava claro que eu era muito especial para ele.” Ao refletir sobre as transformações nos Estados Unidos desde o início de sua carreira nos anos 60, Dionne Warwick não esconde sua preocupação. “Estou um pouco decepcionada com o meu país, com algumas das loucuras que acontecem por aqui, a quantidade de violência. Ninguém parece acreditar mais – e acho que este é o elemento que está faltando”, critica, apontando para uma crise de confiança e valores na sociedade americana. Questionada sobre conselhos para os jovens, a cantora, com seu habitual pragmatismo, afirmou que não costuma oferecê-los, pois raramente são seguidos. O repórter, em resposta, retrucou: “Vindos de você, deveriam seguir!”, arrancando risadas da artista. Ela também declinou de responder o que, aos 85 anos, compreende sobre a vida e sobre si que não compreendia na juventude, alegando não haver tempo suficiente para tal profundidade. Apesar das críticas, a senhora Warwick conclui a entrevista com uma mensagem de esperança, direcionada à nova geração. “Os jovens de hoje em breve serão os líderes do nosso país. Acredito que esses bebês, como eu os chamo, têm uma ideia de como querem viver. Se não quiserem viver em um mundo caótico, encontrarão uma maneira de fazer isso acontecer. Quando eu estava crescendo, também descobri que havia maneiras de fazer com que as coisas que você queria que acontecessem realmente acontecessem. E acredito que eles vão tornar os EUA um lugar melhor”, finaliza, depositando sua fé na capacidade da juventude de moldar um futuro mais promissor.

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