Reforma Tributária: O Risco Oculto de Inflação em 2027 e a Batalha pelos Preços

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**BRASÍLIA, 13 de Outubro de 2026** – A tão aguardada reforma tributária, atualmente em fase de testes e com implementação federal prevista para 2027, acende um alerta vermelho para a inflação do próximo ano. Especialistas e consultorias veem um risco considerável de que a transição dos impostos, se mal gerenciada pelas empresas, possa adicionar uma pressão extra ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), impactando diretamente o bolso do consumidor brasileiro. A incerteza sobre a formação de preços e o repasse de benefícios tributários emerge como um dos maiores desafios para a estabilidade econômica em 2027. A preocupação não é trivial. Uma estimativa da ROIT, empresa especializada em infraestrutura e tecnologia tributária, aponta que falhas na revisão dos preços durante a mudança do sistema poderiam acrescentar 0,15 ponto percentual ao IPCA de 2027. Este cálculo se baseia em um problema complexo e muitas vezes invisível para o consumidor final: a recuperação de créditos tributários. Atualmente, muitas empresas pagam impostos sobre suas compras de produtos e serviços que não conseguem recuperar, transformando esses tributos em custos embutidos nos preços de venda. Com a reforma, a expectativa é que mais compras gerem créditos, permitindo que as empresas descontem esses valores do imposto devido. O cerne da questão reside no que acontece se o custo tributário de uma empresa cair, mas o preço final do produto ou serviço continuar a incluir o tributo antigo. Nesse cenário, a economia gerada pela reforma ficaria retida com o fornecedor, e não seria repassada ao consumidor. Esse fenômeno pode se repetir em diversas etapas da cadeia produtiva, antes mesmo de o item chegar à prateleira. Caroline Souza, vice-presidente de Operações da ROIT, enfatiza a dificuldade de mensurar esses tributos ocultos e a importância da negociação entre empresas para que a eficiência tributária se traduza em melhores preços ao longo da cadeia. A análise da ROIT, que abrangeu dados de 65 grupos empresariais e 295 mil fornecedores, movimentando R$ 608,8 bilhões em compras anuais, identificou R$ 16,35 bilhões em tributos incorporados aos custos que poderiam ser diretamente afetados pela ampliação dos créditos. É a partir dessa base que a consultoria projeta a pressão potencial de 0,15 ponto sobre o IPCA. Contudo, a metodologia exata de como esse valor se converte em impacto sobre a cesta de consumo medida pelo índice não foi detalhada. A complexidade aumenta com o cronograma da reforma. Em 2027, PIS e Cofins serão extintos e substituídos pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Os impostos estaduais (ICMS) e municipais (ISS) permanecerão inalterados nesta etapa, com sua substituição gradual pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) começando apenas em 2029 e se estendendo até 2033. Isso significa que, para precificar seus produtos e serviços em 2027, as empresas precisarão recalcular suas estruturas de custo, removendo os tributos federais atuais, inserindo a CBS e identificando quais despesas passarão a gerar créditos. Um fator complicador crucial é que a alíquota da CBS ainda não foi definida, tornando a tarefa de fechar essa conta com antecedência um verdadeiro desafio. Caroline Souza alerta para o risco de simplesmente adicionar o novo imposto ao preço antigo, sem uma revisão minuciosa. “Ainda existem tributos ocultos, mas que a gente tem que mensurar nessa troca de tributos para não restar tributo antigo na nova precificação”, explica. Simulações realizadas pela ROIT demonstram que, mesmo com uma mesma alíquota hipotética para a CBS, o impacto pode variar drasticamente entre empresas, aumentando o desembolso em alguns casos e reduzindo em outros. O resultado final depende intrinsecamente de como cada empresa é tributada hoje e de sua capacidade de recuperar custos. Essas simulações servem como exemplos de formação de preços, e não como previsões de reajuste para setores inteiros. A pesquisa da ROIT também revela a dimensão da dúvida empresarial: 44% dos respondentes apontaram a falta de clareza na formação dos preços e no repasse dos novos créditos como seu principal gargalo operacional. Embora o relatório não detalhe o tamanho ou a seleção da amostra, impedindo a generalização para todas as empresas brasileiras, o percentual sublinha a apreensão generalizada no setor produtivo. Apesar dos riscos, a reforma tributária também abre a porta para a redução de preços. Se uma empresa conseguir recuperar impostos que antes eram custos e repassar essa economia, o preço final terá espaço para diminuir. Carolina Verginelli, sócia de Consultoria Tributária da Deloitte, confirma que alguns clientes já identificaram, em suas simulações, a possibilidade de reduzir preços sem sacrificar a margem de lucro, e até mesmo de usar essa queda para conquistar novos compradores e aumentar a participação de mercado. No entanto, há cenários em que a carga tributária efetivamente subirá. Verginelli cita o exemplo de prestadoras de serviços que hoje recolhem PIS/Cofins a uma alíquota de 3,65% e têm a folha de pagamento como principal despesa. Como salários não geram créditos da CBS, essas empresas podem não conseguir compensar a nova cobrança. Nesses casos, a escolha será entre repassar parte da diferença ao cliente ou aceitar uma margem menor. “Ela vai ter que aumentar preço. Não porque quer aumentar a margem, mas porque realmente o tributo aumentou”, esclarece a consultora. Essa combinação de efeitos – potencial de queda e de alta – torna a previsão da inflação de 2027 extremamente desafiadora. O Money Times, por exemplo, consultou diversos bancos e economistas sobre o impacto da reforma no IPCA, mas ainda não encontrou uma estimativa consolidada. Além da alíquota da CBS ainda pendente, o cálculo exige saber quanto cada empresa economizará ou pagará a mais e, crucialmente, como reagirá nas negociações de preços. “Vai depender muito de como os setores da economia vão recalcular os seus preços”, resume Verginelli, considerando precipitado apontar agora quais setores pressionarão mais a inflação. A experiência internacional oferece um vislumbre das complexidades. A Índia, após adotar o imposto sobre bens e serviços (GST) em 2017, registrou um efeito de alta sobre a inflação geral, impulsionado pelos preços dos alimentos. Embora o estudo indiano não permita atribuir cada reajuste à decisão de uma empresa específica nem projetar um resultado equivalente para o Brasil, ele serve como um alerta. O governo indiano, vale ressaltar, criou uma regra específica para o repasse de benefícios tributários, exigindo que a redução de alíquotas ou o aproveitamento de novos créditos chegassem ao comprador por meio de um preço proporcionalmente menor, e instituiu uma autoridade para verificar esse repasse. No Brasil, até o momento, não há indícios de que o governo seguirá esse caminho de interferir nas negociações comerciais durante a transição. “Se não existir uma pressão da cadeia, a gente potencialmente vai carregando aumentos até chegar ao consumidor final”, adverte Verginelli. A consultora pondera as vantagens e dificuldades de uma regra como a indiana, questionando a grande interferência do Estado na economia. Para ela, uma alternativa seria o governo acompanhar a evolução dos preços e investigar movimentos muito discrepantes. Contudo, esse acompanhamento não resolveria a incerteza antes da virada do ano. Sem a alíquota definitiva da CBS e sem os novos preços praticados pelas empresas, ainda não é possível saber quanto da reforma aparecerá no IPCA de 2027 – e quanto poderá chegar ao consumidor como redução de preços. A situação é agravada pelo cenário político. Às vésperas de um ciclo eleitoral, a possibilidade de rever a reforma tributária entrou nas conversas de algumas empresas, impulsionada por falas de políticos, segundo a vice-presidente de Operações da ROIT. O receio é que a expectativa de um adiamento leve empresários a postergar a revisão de contratos e os cálculos necessários para formar os preços de 2027. “Existem empresas de menor porte contando muito com o adiamento da reforma tributária ou até mesmo com a reforma da reforma tributária por conta dos discursos de eleição”, afirma Souza. “Esse negócio de ‘não vai passar’ faz com que as empresas deixem de se preparar.” Caroline Souza avalia que ajustes em regras específicas são possíveis, mas uma mudança ampla no sistema não depende apenas da vontade do próximo presidente. A estrutura da reforma está na Constituição, exigindo um processo legislativo complexo para ser alterada. Para a consultora, esperar uma eventual decisão política aumenta o risco de chegar a janeiro sem saber quais tributos retirar dos preços atuais, quais créditos passarão a ser aproveitados e quanto cobrar dos clientes. Essa falta de preparo pode dificultar justamente o repasse das reduções de custo que ajudariam a evitar pressão adicional sobre a inflação, transformando a reforma, que deveria simplificar e baratear, em um fator de incerteza e potencial alta de preços.

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