Faraó dos Bitcoins Confessa Manipulação de Mercado e Se Declara “Baleia” em Depoimento Chocante

A confissão de Glaidson Acácio dos Santos lança luz sobre as táticas obscuras empregadas no universo das moedas digitais. Em juízo, o “Faraó” detalhou como orquestrava movimentos para derrubar ou alavancar o valor de criptoativos. “Como ‘baleia’, eu consigo manipular outras criptomoedas. E entro em contato com outras ‘baleias’ e vamos falar o seguinte: ‘Ó, você aposta na queda, alavanca 10 vezes que nós vamos derreter o preço. Vamos despencar o preço de uma determinada criptomoeda (…) No mercado, uns riem, outros vendem lenços”, explicou Glaidson, descrevendo um cenário de conluio e especulação predatória. Essa prática, que explora a volatilidade do mercado de criptoativos, permitia à GAS Consultoria, empresa liderada pelo casal, prometer lucros exorbitantes, muito acima dos praticados pelo mercado tradicional, atraindo uma legião de investidores.
O Esquema Bilionário da GAS Consultoria
A GAS Consultoria, sediada em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, operava sob a fachada de investimentos em criptomoedas, mas funcionava, na verdade, como um sofisticado esquema de pirâmide financeira. A promessa de retornos garantidos e elevados atraiu uma clientela diversificada, que incluía desde empresas e figuras públicas, como artistas e jogadores de futebol, até pessoas de menor poder aquisitivo que, na esperança de uma vida melhor, contraíam empréstimos para aplicar suas economias. O “Faraó” detalhou o método de captação: “Eram contratos individuais’. Como diz aquele velho ditado, não sei se o senhor já ouviu: ‘De grão em grão, a galinha enche o papo’ (…) ‘Os meus funcionários iam, através de helicóptero, ia até São Paulo, levavam o recurso em espécie dos clientes, e as pessoas lá de São Paulo transferiam pra minha carteira da GAS'”. Essa logística complexa e a promessa de lucros rápidos foram os pilares para a construção de um império financeiro ilícito.
A dimensão do golpe é estarrecedora. Atualmente, 77 mil credores buscam na Justiça o ressarcimento de quase R$ 3 bilhões do valor aportado na GAS Consultoria. Além das acusações de crimes contra o sistema financeiro, Glaidson Acácio dos Santos também é investigado por supostamente ter ordenado a morte de rivais em Cabo Frio, adicionando uma camada de violência e criminalidade ao já complexo caso.
O Papel de Mirelis Zerpa e a Fuga para os EUA
Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, esposa de Glaidson, não foi presa junto com ele em 2021. Após a operação policial, ela fugiu do país, estabelecendo-se em Chicago, nos Estados Unidos. Três anos depois, em 2024, foi detida pela imigração norte-americana e deportada para o Brasil, onde agora enfrenta a Justiça Federal. Em seu depoimento, Mirelis negou as acusações de dividir a liderança do esquema com o marido, conforme imputado pelo Ministério Público Federal. Ela defendeu que sua função era estritamente técnica: “Meu trabalho sempre foi estudar criptomoedas, multiplicar o dinheiro em criptomoedas e fazer trading de criptomoedas. Ele (o marido) era quem sempre se comunicava com os clientes. Eu realmente li todo o processo. E, com todo respeito, para mim foi como ler um livro de ficção científica”, declarou, tentando desvincular-se da gestão direta dos clientes e da estrutura administrativa da empresa.
Contudo, as ações de Mirelis após a prisão de Glaidson levantam sérias questões. O Ministério Público Federal identificou que, logo após a detenção do marido, alguém na cidade de Kissimmee, na Flórida – onde Mirelis se estabeleceu inicialmente nos EUA – sacou 4,5 mil bitcoins de contas, um valor que, à época, equivalia a R$ 1 bilhão. Apenas duas semanas depois, Mirelis lançou nas redes sociais uma nova plataforma de investimentos, a GMX, cujo nome, segundo a acusação, seria uma alusão a “G” de Glaidson, “M” de Mirelis e “X” representando a promessa de 10% de lucro. Embora um advogado tenha alegado que o valor sacado foi usado para pagar investidores, Mirelis, em depoimento, afirmou ter sacado apenas criptomoedas pessoais, e não ativos da GAS, para custear suas despesas. A defesa de Mirelis reitera que ela não integrava a estrutura administrativa da empresa e que os valores sacados após a prisão de Glaidson foram destinados à devolução a clientes.
O Mistério da Cold Wallet e a Promessa de Pagamento
Um dos maiores mistérios que ainda pairam sobre o caso é o paradeiro e o valor exato contido na carteira de criptoativos do “Faraó”. Glaidson Acácio dos Santos afirmou que possui dinheiro suficiente para quitar a dívida de R$ 3 bilhões com os 77 mil credores. Essa carteira, conhecida como “cold wallet” – um dispositivo externo sem conexão com a internet, similar a um pendrive, acessível apenas por senhas que só o proprietário conhece – está sob custódia em um dos cofres da Polícia Federal. No entanto, Glaidson se recusou a declarar o valor exato que possui no mecanismo, alegando que a revelação poderia representar um perigo à sua integridade física. “A senha, agora de cabeça, eu não sei. Mas tá lá. Tá tudo lá”, disse o Faraó em seu depoimento, mantendo o suspense sobre a real capacidade de ressarcimento das vítimas.
A defesa de Glaidson Acácio, por sua vez, sustenta a inocência do cliente, afirmando que a interrupção dos pagamentos da GAS foi consequência de uma ordem judicial, e contesta a lista e os valores cobrados pelos credores na Justiça. Com o julgamento na reta final, a sociedade brasileira aguarda ansiosamente por respostas e pela responsabilização dos envolvidos neste que se tornou um marco na história dos golpes financeiros no país, evidenciando os riscos e a complexidade do mercado de criptomoedas quando explorado para fins ilícitos. A capacidade de Glaidson de honrar sua promessa de pagamento e a extensão da participação de Mirelis no esquema são pontos cruciais que a Justiça ainda precisa desvendar.