Faraó dos Bitcoins Confessa Manipulação de Mercado e Se Declara “Baleia” em Depoimento Chocante

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Em um desdobramento crucial para um dos maiores escândalos financeiros do Brasil, Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como o “Faraó dos Bitcoins”, e sua esposa, Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, prestaram depoimentos inéditos à Justiça, revelando detalhes da complexa operação que, segundo as autoridades, movimentou mais de R$ 38 bilhões e lesou cerca de 77 mil vítimas. As declarações, obtidas e divulgadas pelo Fantástico, da TV Globo, ocorrem enquanto o processo judicial que apura crimes contra o sistema financeiro entra em sua fase final, com o casal e outros 15 acusados enfrentando a possibilidade de mais de 40 anos de prisão. Glaidson, preso desde 2021, admitiu ser uma “baleia” no mercado de criptomoedas, termo que designa investidores com poder suficiente para influenciar os preços dos ativos digitais, e confessou abertamente a manipulação do mercado.

A confissão de Glaidson Acácio dos Santos lança luz sobre as táticas obscuras empregadas no universo das moedas digitais. Em juízo, o “Faraó” detalhou como orquestrava movimentos para derrubar ou alavancar o valor de criptoativos. “Como ‘baleia’, eu consigo manipular outras criptomoedas. E entro em contato com outras ‘baleias’ e vamos falar o seguinte: ‘Ó, você aposta na queda, alavanca 10 vezes que nós vamos derreter o preço. Vamos despencar o preço de uma determinada criptomoeda (…) No mercado, uns riem, outros vendem lenços”, explicou Glaidson, descrevendo um cenário de conluio e especulação predatória. Essa prática, que explora a volatilidade do mercado de criptoativos, permitia à GAS Consultoria, empresa liderada pelo casal, prometer lucros exorbitantes, muito acima dos praticados pelo mercado tradicional, atraindo uma legião de investidores.

O Esquema Bilionário da GAS Consultoria

A GAS Consultoria, sediada em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, operava sob a fachada de investimentos em criptomoedas, mas funcionava, na verdade, como um sofisticado esquema de pirâmide financeira. A promessa de retornos garantidos e elevados atraiu uma clientela diversificada, que incluía desde empresas e figuras públicas, como artistas e jogadores de futebol, até pessoas de menor poder aquisitivo que, na esperança de uma vida melhor, contraíam empréstimos para aplicar suas economias. O “Faraó” detalhou o método de captação: “Eram contratos individuais’. Como diz aquele velho ditado, não sei se o senhor já ouviu: ‘De grão em grão, a galinha enche o papo’ (…) ‘Os meus funcionários iam, através de helicóptero, ia até São Paulo, levavam o recurso em espécie dos clientes, e as pessoas lá de São Paulo transferiam pra minha carteira da GAS'”. Essa logística complexa e a promessa de lucros rápidos foram os pilares para a construção de um império financeiro ilícito.

A dimensão do golpe é estarrecedora. Atualmente, 77 mil credores buscam na Justiça o ressarcimento de quase R$ 3 bilhões do valor aportado na GAS Consultoria. Além das acusações de crimes contra o sistema financeiro, Glaidson Acácio dos Santos também é investigado por supostamente ter ordenado a morte de rivais em Cabo Frio, adicionando uma camada de violência e criminalidade ao já complexo caso.

O Papel de Mirelis Zerpa e a Fuga para os EUA

Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, esposa de Glaidson, não foi presa junto com ele em 2021. Após a operação policial, ela fugiu do país, estabelecendo-se em Chicago, nos Estados Unidos. Três anos depois, em 2024, foi detida pela imigração norte-americana e deportada para o Brasil, onde agora enfrenta a Justiça Federal. Em seu depoimento, Mirelis negou as acusações de dividir a liderança do esquema com o marido, conforme imputado pelo Ministério Público Federal. Ela defendeu que sua função era estritamente técnica: “Meu trabalho sempre foi estudar criptomoedas, multiplicar o dinheiro em criptomoedas e fazer trading de criptomoedas. Ele (o marido) era quem sempre se comunicava com os clientes. Eu realmente li todo o processo. E, com todo respeito, para mim foi como ler um livro de ficção científica”, declarou, tentando desvincular-se da gestão direta dos clientes e da estrutura administrativa da empresa.

Contudo, as ações de Mirelis após a prisão de Glaidson levantam sérias questões. O Ministério Público Federal identificou que, logo após a detenção do marido, alguém na cidade de Kissimmee, na Flórida – onde Mirelis se estabeleceu inicialmente nos EUA – sacou 4,5 mil bitcoins de contas, um valor que, à época, equivalia a R$ 1 bilhão. Apenas duas semanas depois, Mirelis lançou nas redes sociais uma nova plataforma de investimentos, a GMX, cujo nome, segundo a acusação, seria uma alusão a “G” de Glaidson, “M” de Mirelis e “X” representando a promessa de 10% de lucro. Embora um advogado tenha alegado que o valor sacado foi usado para pagar investidores, Mirelis, em depoimento, afirmou ter sacado apenas criptomoedas pessoais, e não ativos da GAS, para custear suas despesas. A defesa de Mirelis reitera que ela não integrava a estrutura administrativa da empresa e que os valores sacados após a prisão de Glaidson foram destinados à devolução a clientes.

O Mistério da Cold Wallet e a Promessa de Pagamento

Um dos maiores mistérios que ainda pairam sobre o caso é o paradeiro e o valor exato contido na carteira de criptoativos do “Faraó”. Glaidson Acácio dos Santos afirmou que possui dinheiro suficiente para quitar a dívida de R$ 3 bilhões com os 77 mil credores. Essa carteira, conhecida como “cold wallet” – um dispositivo externo sem conexão com a internet, similar a um pendrive, acessível apenas por senhas que só o proprietário conhece – está sob custódia em um dos cofres da Polícia Federal. No entanto, Glaidson se recusou a declarar o valor exato que possui no mecanismo, alegando que a revelação poderia representar um perigo à sua integridade física. “A senha, agora de cabeça, eu não sei. Mas tá lá. Tá tudo lá”, disse o Faraó em seu depoimento, mantendo o suspense sobre a real capacidade de ressarcimento das vítimas.

A defesa de Glaidson Acácio, por sua vez, sustenta a inocência do cliente, afirmando que a interrupção dos pagamentos da GAS foi consequência de uma ordem judicial, e contesta a lista e os valores cobrados pelos credores na Justiça. Com o julgamento na reta final, a sociedade brasileira aguarda ansiosamente por respostas e pela responsabilização dos envolvidos neste que se tornou um marco na história dos golpes financeiros no país, evidenciando os riscos e a complexidade do mercado de criptomoedas quando explorado para fins ilícitos. A capacidade de Glaidson de honrar sua promessa de pagamento e a extensão da participação de Mirelis no esquema são pontos cruciais que a Justiça ainda precisa desvendar.

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