Em um cenário econômico brasileiro marcado por incertezas e debates acalorados, a economista Zeina Latif, aos 58 anos, emerge como uma figura de rara serenidade e rigor analítico. Recebida em sua residência em um dos bairros mais nobres de São Paulo, em 07 de novembro de 2026, Latif concedeu uma entrevista profunda que transcende os números, abordando sua trajetória profissional, os desafios do envelhecimento no mercado de trabalho e, crucialmente, a importância inegociável da autonomia financeira feminina como “pedra fundamental” para o desenvolvimento individual e coletivo. Sua casa, um reflexo de sua personalidade – arte, livros e objetos escolhidos com elegância sóbria, sem ostentação – serve de pano de fundo para uma conversa que revela a complexidade de uma mente que passou a vida interpretando as oscilações de um país volátil, sempre com uma calma notável.
Uma Trajetória de Rigor e Respeito no Coração da Economia Brasileira
A carreira de Zeina Latif é um testemunho de resiliência e intelecto. Doutora em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), onde permaneceu por cerca de 15 anos entre graduação, mestrado e doutorado, ela construiu uma reputação invejável que a posiciona de forma singular: respeitada tanto nos exigentes círculos acadêmicos, onde atua como professora associada do Insper, quanto no dinâmico e muitas vezes impiedoso mercado financeiro. Sua jornada profissional a levou por instituições de peso como XP, ING, ABN Amro e HSBC, culminando na co-fundação da Gibraltar Consulting ao lado de seu marido, o também economista Marcos Lisboa. Em 2022, ela ainda atravessou a fronteira para a gestão pública, assumindo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, demonstrando sua versatilidade e compromisso com o país. Essa trajetória, iniciada em 1986, a consolidou como uma das economistas mais influentes do Brasil a partir dos anos 2000, notável por sua capacidade de interpretar e comunicar cenários complexos com clareza e profundidade.
Desvendando o “Clube do Bolinha”: Os Custos Invisíveis da Ascensão Feminina
Durante grande parte de sua carreira, Zeina Latif foi uma mulher em ambientes predominantemente masculinos. Curiosamente, ela relata que, inicialmente, essa condição não era uma questão central. Sua geração, focada em conquistar espaço e trabalhar arduamente, muitas vezes minimizava o preconceito e as diferenças salariais que viriam a ser percebidas mais tarde. “Eu tinha uma situação: precisava me inserir no mercado de trabalho e ia fazer o meu melhor”, afirma. Contudo, com a ascensão profissional, a economista começou a enxergar com maior nitidez os custos adicionais dessa escolha. Enquanto homens faziam networking em happy hours, ela retornava para casa para cuidar do filho. Reuniões cruciais aconteciam sem seu convite. O “clube do Bolinha”, como ela define, tornava-se progressivamente mais fechado à medida que a hierarquia aumentava. Sua análise, desprovida de ressentimento, distingue o preconceito explícito de um fenômeno mais sutil: o estranhamento diante de quem não pertence ao grupo dominante, uma barreira que, embora menos óbvia, tem consequências profissionais significativas, limitando o networking feminino.
Autonomia Financeira Feminina: Uma Pedra Fundamental para a Diversidade e o Progresso
A discussão sobre a autonomia financeira feminina é um dos pilares da visão de Zeina Latif. Citando uma pesquisa recente da McKinsey que aponta avanços, mas também a persistência de desafios, ela enfatiza que o controle sobre o próprio dinheiro é uma “pedra fundamental” não apenas para o ganho individual de cada mulher, mas para um benefício coletivo inegável. Em um mundo crescentemente complexo, a diversidade de pensamento se torna um ativo valioso. Mulheres no universo financeiro, por exemplo, podem trazer outras preocupações e interesses, como investimentos em empresas com práticas ambientais ou sociais específicas, diversificando o mercado e criando produtos para públicos distintos. Além disso, a participação feminina no empreendedorismo e na gestão de recursos financeiros tem um papel transformador, convertendo anseios sociais em mudanças de políticas públicas, à medida que mais mulheres lidam com crédito e investimento e demandam condições mais favoráveis para empreender.
Envelhecimento e Diversidade Geracional: A Experiência na XP e o Futuro do Trabalho
A experiência de Zeina Latif como economista-chefe na XP, após os 50 anos, em um ambiente com idade média abaixo dos 30, ilustra outro ponto crucial de sua reflexão: a diversidade de idade. Ela reconhece o “estranhamento” inicial, a possibilidade de questionamentos sobre sua presença em um contexto tão jovem. No entanto, sua confiança em seu trabalho e a naturalidade com que aborda o envelhecimento da população brasileira são lições importantes. “O país está envelhecendo, e precisamos começar a olhar para isso com naturalidade. Vamos ver cada vez mais pessoas mais velhas em diferentes atividades”, pontua. Para Latif, a diversidade não se restringe a gênero ou raça; ela abrange também a idade, e a mistura de experiências diferentes é essencial para navegar em um mundo complexo. Sua presença na XP não apenas validou sua expertise, mas também serviu de inspiração para mulheres mais jovens, que a procuravam, vendo nela a prova de que é possível construir uma carreira sólida e impactante.
Os Desafios Persistentes da Economia Brasileira: Uma Visão Crítica
Após décadas acompanhando de perto a economia brasileira, Zeina Latif expressa sua maior preocupação com o avanço lento e os frequentes retrocessos do país. Ela lamenta a dificuldade em consolidar conquistas pós-estabilização, como o ajuste fiscal para permitir juros menores, a melhoria da qualidade das políticas públicas, o uso eficiente dos recursos, a reforma da Previdência e o aumento da produtividade. A produtividade brasileira, segundo ela, permanece alarmantemente baixa, com problemas estruturais na educação, no ambiente de negócios e nas regras do jogo. É frustrante, para a economista, ter que rediscutir questões que já deveriam ter sido superadas, como a necessidade de uma taxa Selic tão elevada ou a preocupação constante com a dinâmica da dívida pública. Essa instabilidade macroeconômica, que afeta diretamente empresas e empreendedores, é um sintoma da dificuldade do Brasil em aprender com seus erros e preservar as reformas realizadas, um ciclo vicioso que Zeina Latif, com sua voz serena e rigorosa, continua a alertar.