Emerson Fittipaldi, bicampeão mundial de Fórmula 1 e ícone do automobilismo brasileiro, ofereceu uma perspectiva única sobre a evolução do esporte e a ascensão de uma nova geração de talentos, como o recém-coroado campeão mundial de 2026, Kimi Antonelli. A uma semana do Grande Prêmio do Brasil em Interlagos, e após a histórica conquista de Antonelli na Cidade do México, Fittipaldi, aos 79 anos, refletiu sobre a audácia juvenil, a segurança nas pistas, as comparações com Ayrton Senna, e os marcos de sua própria trajetória lendária, incluindo a fundação da escuderia Copersucar e os convites da Ferrari.
A Fórmula 1 testemunhou um momento mágico na Cidade do México, onde Kimi Antonelli, da Mercedes, garantiu o terceiro lugar e, com isso, o título mundial de 2026. Aos 20 anos, Antonelli se tornou o mais jovem piloto a erguer o troféu, um feito que ecoa a precocidade de Emerson Fittipaldi, que conquistou seu primeiro campeonato aos 25 anos em 1972. Além de ser o primeiro italiano campeão desde Alberto Ascari em 1953, a glória de Antonelli, com sua impetuosidade e semelhança física com Ayrton Senna, gerou uma onda de celebrações nas redes sociais, como se o ídolo brasileiro tivesse sido revivido. No entanto, a trajetória de Fittipaldi, o pioneiro da juventude vitoriosa, oferece um paralelo ainda mais direto. Com uma carreira que se estendeu por décadas, incluindo passagens notáveis pela Indy e a ousada criação da Copersucar, Fittipaldi é a figura mais adequada para analisar e compreender a Fórmula 1 contemporânea, enquanto finaliza sua autobiografia.
Questionado sobre a audácia que a juventude confere aos pilotos, Fittipaldi, que manteve o recorde de campeão mais jovem por mais de três décadas, reconhece a mudança de paradigma. Ele observa que o jovem piloto de hoje, como Kimi Antonelli, é comparável a atletas de alto rendimento de outras modalidades, como tênis ou golfe, pois inicia sua prática esportiva ainda na infância. Fittipaldi, que conhece Kimi e sua família há muito tempo, atesta que o jovem cresceu imerso no ambiente das pistas. A audácia, segundo ele, é inegável, e é amplificada pela segurança atual, que oferece um nível de proteção muito superior ao de sua época. Os carros e autódromos modernos operam dentro de uma verdadeira “cápsula de segurança”. Contudo, Fittipaldi ressalta que, no automobilismo atual, o jovem arrisca sabendo que não pode cometer erros, pois o custo financeiro e o impacto de um acidente são imensos.
Antonelli, Senna e a Singularidade dos Estilos de Pilotagem
Apesar das comparações de Antonelli com Ayrton Senna, Fittipaldi é cético quanto à possibilidade de equiparar estilos. Para ele, cada piloto é único. Embora Kimi seja um fã de Ayrton e possua um talento inegável, seu modo de condução difere significativamente. Senna, segundo Fittipaldi, guiava frequentemente “além do limite”, enquanto Kimi demonstra uma constância e precisão notáveis dentro dos limites do carro. O próprio Fittipaldi, em sua juventude, buscava emular a precisão de ídolos como Juan Manuel Fangio e Chico Landi, que tangenciavam as curvas com exatidão contínua em todas as voltas. Essa observação sublinha a individualidade intrínseca que define os grandes nomes do esporte.
A era de Fittipaldi na Fórmula 1 era marcada por um perigo constante, com uma média de dois pilotos perdendo a vida por temporada. Diante de tal realidade, a mentalidade dos competidores era um fator crucial. Fittipaldi descreve a necessidade de entrar no paddock imaginando que estavam ali por diversão e pelo amor ao esporte, sem espaço para o medo da falta de segurança. Ele reconhece o trabalho fundamental de pilotos como o britânico Jackie Stewart na luta por mais segurança nas pistas. A brutalidade da época é ilustrada por uma experiência pessoal: em seu quarto Grande Prêmio, em Monza, em 1970, Fittipaldi tomou café da manhã com o austríaco Jochen Rindt, que o convidou para pilotar em sua equipe de Fórmula 2 no ano seguinte. Três horas depois, Rindt faleceu em um acidente, e Colin Chapman o promoveu a piloto número 1 da Lotus. Foi um baque enorme para Fittipaldi e sua família. Entre sua estreia na Fórmula 1 e sua aposentadoria na Indy, ele perdeu 37 companheiros de pista entre treinos e corridas, um testemunho sombrio da realidade daquele tempo.
Colin Chapman e a Lotus: Gênio, Inovação e um Caixão Dourado
A convivência com Colin Chapman, o fundador da Lotus, foi um período de imenso aprendizado para Fittipaldi. Ele expressa gratidão por ter assinado com Chapman e trabalhado cinco anos na Lotus, descrevendo-o como um verdadeiro mentor e um gênio intuitivo no ajuste do carro. Numa era anterior à eletrônica e à telemetria, Chapman tinha a capacidade de “pôr a mão na cabeça, refletir e saber exatamente o que modificar no acerto”. Os carros da Lotus eram notavelmente leves e engenhosos, embora mais frágeis. Fittipaldi recorda uma conversa em que Chapman, ao ser perguntado sobre a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis com Jim Clark em 1965, disse: “Emerson, você precisa correr lá um dia”. Essa frase marcou sua memória para sempre, prenunciando sua própria glória na Indy.
A icônica Lotus preta, patrocinada pela marca de cigarros John Player Special, que Fittipaldi pilotou, ainda evoca saudade. Ele narra um episódio curioso: no final de 1971, ao ver o carro no centro de Londres, ele estava pintado inteiramente de preto, com filetes dourados. Nunca antes havia existido um carro preto na história da Fórmula 1. Ao ver o carro, Fittipaldi brincou com Colin, dizendo que “só faltavam as quatro alças para carregar”, devido à semelhança com um caixão. Uma brincadeira, claro, mas aquele design se tornaria um dos mais icônicos e bonitos da história do automobilismo mundial.
A Copersucar: Um Sonho Brasileiro Incompreendido
No auge de sua carreira, Emerson Fittipaldi tomou a audaciosa decisão de fundar a equipe brasileira Copersucar-Fittipaldi, ao lado de seu irmão Wilson. Questionado se se arrepende da decisão, ele é enfático: “De forma alguma”. O conselho que daria ao Emerson jovem dos anos 1970 seria exatamente para focar no esporte que ama e não se arrepender do projeto da Copersucar. Ele descreve o empreendimento como um “projeto espetacular para o Brasil”, embora tenha sido “incompreendido na época” e lhe custado cinco anos de carreira como piloto. No entanto, o aprendizado e a contribuição como brasileiro foram imensos. Ter uma escuderia com a identidade de um país é um marco na Fórmula 1, como se observa na paixão dos italianos pela Ferrari, e a Copersucar representou esse sonho para o Brasil.
A Ferrari, aliás, tentou atrair Fittipaldi em dois momentos cruciais. O primeiro foi em 1971, durante um almoço com Enzo Ferrari em Maranello. O “Commendatore” queria que Fittipaldi corresse tanto na Fórmula 1 quanto em protótipos, mas o brasileiro preferiu focar nos monopostos e renovar com a Lotus. O segundo convite ocorreu em 1976, na noite do grave acidente de Niki Lauda em Nürburgring. Fittipaldi estava no hospital, acompanhando o quadro de Lauda, que estava em estado crítico e recebendo a extrema-unção. O chefe de equipe da Ferrari o chamou, informando sobre uma ligação: era o próprio Enzo Ferrari convidando-o para assumir o lugar de Lauda. Chocado com a situação, Fittipaldi recusou imediatamente.
A reação de Fittipaldi ao ver o retorno de Lauda poucas semanas depois do acidente foi de admiração profunda. Ele descreve o feito como “um milagre e uma demonstração histórica de força mental”. Apenas 42 dias após quase morrer, Lauda estava de volta no GP de Monza. Fittipaldi esteve ao lado dele enquanto Lauda colocava a balaclava sobre a pele ainda em carne viva. Lauda terminou aquela corrida em quarto lugar e, posteriormente, voltou a ser campeão mundial, tornando-se um exemplo de coragem para qualquer esporte.
A Fórmula 1 Atual: Marketing, Tecnologia e o Futuro
A Fórmula 1 passou por grandes transformações tecnológicas e de gestão. Fittipaldi avalia a atual fase sob a administração da americana Liberty Media de forma muito positiva. Ele elogia o “trabalho de marketing excepcional” da Liberty Media, que conseguiu expandir a Fórmula 1 para além dos “petrolheads” — os fãs tradicionais do automobilismo —, alcançando um público global gigantesco. O CEO Stefano Domenicali, segundo Fittipaldi, faz uma gestão fantástica. Do ponto de vista técnico, Fittipaldi defende para o futuro uma redução da pressão aerodinâmica dos carros. Com menos aerodinâmica, o piloto consegue andar mais próximo do carro da frente sem desgastar excessivamente os pneus dianteiros, o que, em sua visão, valoriza o talento individual na pista.
O desafio técnico de um piloto atual é, sem dúvida, diferente do que era na época de Fittipaldi. Ele explica que, em seu tempo, exigia-se mais pilotagem mecânica e sensibilidade para passar informações aos engenheiros. Hoje, a quantidade de dados e analytics fornecidos durante a pilotagem é enorme. Os pilotos precisam alterar comandos como o balanço de freio, a distribuição de torque e o gerenciamento de energia, tornando a pilotagem uma tarefa que exige uma interface complexa com a tecnologia embarcada. A Fórmula 1, portanto, continua a ser um esporte que exige o máximo de seus atletas, adaptando-se e evoluindo com os tempos, mas sempre com a audácia e o talento como pilares.