Paraguai Reativa Aviação Militar a Jato Após 23 Anos com Jatos de Taiwan e Reforça Parceria Estratégica

Capa

Assunção, 30 de outubro de 2026 – Após mais de duas décadas sem operar aeronaves militares de combate a jato, o Paraguai planeja reativar sua capacidade de aviação militar a jato a partir de 2027 com a incorporação de 15 aeronaves AIDC AT-3 Tzu-Chung, desenvolvidas em Taiwan. A iniciativa, que ainda aguarda formalização pública dos governos, visa complementar a recente modernização da Força Aérea Paraguaia (FAP) com seis turboélices A-29 Super Tucano brasileiros, reforçando a cooperação estratégica entre Assunção e Taipei e marcando uma nova etapa na defesa aérea do país.

O Retorno dos Jatos: Um Salto na Capacidade Aérea Paraguaia

Desde 2003, quando seus últimos AT-26 Xavante, de fabricação brasileira, foram desativados, o Paraguai permaneceu sem operar jatos militares. Agora, 23 anos depois, a FAP busca preencher essa lacuna com a aquisição dos AT-3, que servirão primariamente para treinamento avançado e ataque leve. Fontes da Força Aérea Paraguaia, citadas pelo portal especializado argentino Pucará Defensa em 22 de outubro de 2026, indicam que um entendimento foi alcançado para a transferência dessas aeronaves, que estão sendo retiradas do sistema de instrução taiwanês.

A expectativa é que as primeiras entregas de aviões desmontados ocorram em meados de 2027, com os quatro primeiros exemplares em voo até o final daquele ano e a montagem completa das quinze aeronaves concluída até 2028. No entanto, a disponibilidade operacional de toda a frota exigirá um esforço contínuo em treinamento de pilotos, manutenção, certificações e suporte técnico, conforme ressaltado pelo veículo alemão aeroTELEGRAPH em 26 de outubro. A Janes já havia registrado a intenção da FAP de incorporar o modelo em 2027, com base em declarações de um oficial de alta patente no início de outubro.

Os jatos estão previstos para o 1º Esquadrão de Caça do Grupo Aerotático, unidade que teve suas operações com aviões a reação interrompidas com a desativação dos Embraer AT-26 Xavante. A retomada representa, sobretudo, a recuperação da experiência em treinamento e emprego de aeronaves a reação, e não a aquisição de uma força de caças supersônicos contemporâneos. Essa distinção é crucial para entender o escopo da modernização paraguaia.

O AIDC AT-3 Tzu-Chung: Um Treinador com Capacidade de Ataque Leve

Desenvolvido pela Aerospace Industrial Development Corporation (AIDC) de Taiwan, o AT-3 é um treinador avançado subsônico de dois lugares e dois motores a reação. Seu primeiro voo ocorreu em 16 de setembro de 1980, e a produção começou em março de 1982. Concebido para a formação de pilotos, o modelo possui uma capacidade secundária de ataque leve, utilizando dois motores da família TFE731 e alcançando velocidade próxima de 900 km/h. A arquitetura de treinamento a jato permite aos pilotos desenvolverem uma experiência de voo distinta daquela oferecida pelos turboélices, além de prever o emprego de cargas externas, como bombas e foguetes, em determinadas configurações.

Contudo, a configuração efetiva dos aviões a serem entregues ao Paraguai, incluindo armamentos, sensores ou sistemas específicos, ainda não foi detalhada pelas autoridades. Taiwan está substituindo seus AT-3 pelo treinador mais recente AIDC T-5 Brave Eagle, e a agência taiwanesa Central News Agency (CNA) informou em 24 de agosto de 2026 que o AT-3 concluiu sua última etapa de treinamento regular no final de julho. Questionada sobre a transferência ao Paraguai, a Força Aérea taiwanesa afirmou que a cooperação com países parceiros segue a política diplomática geral, mas não confirmou os termos da operação.

Apesar de exemplares do AT-3 terem passado por revisão de meia-vida e modernizações entre 2001 e 2006, o número de horas ou ciclos de voo restantes em cada aeronave para o Paraguai não pode ser calculado sem documentação adicional. A FAP enfrentará o desafio de definir equipamentos de comunicação, manutenção dos motores, estoques de peças, formação de tripulações e infraestrutura adequada, elementos que impactam diretamente o custo de sustentar uma frota de aeronaves mais antigas.

Modernização Abrangente e a Conexão Brasileira

A possível chegada dos AT-3 se insere em um contexto mais amplo de modernização militar paraguaia. Em 5 de outubro de 2026, o governo paraguaio confirmou a chegada da sexta e última aeronave A-29 Super Tucano adquirida para a FAP, em uma cerimônia na Primeira Brigada Aérea, em Luque, com a presença do presidente Santiago Peña. A entrega foi registrada pela Agência de Informação Paraguaia e pela Janes, consolidando um esforço paraguaio de vigilância do espaço aéreo, interdição de voos ilícitos e enfrentamento do crime organizado transnacional.

A aquisição dos Super Tucano, que envolveu financiamento brasileiro por meio de uma operação de crédito com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) formalizada em novembro de 2024, demonstra uma participação concreta da indústria brasileira na modernização da Defesa do país vizinho. Além das aeronaves, o comando da FAP destacou na cerimônia de outubro a utilização de dois radares móveis modernizados, um centro de comando e controle e um radar de longo alcance em processo de fabricação, evidenciando que a modernização vai além da simples aquisição de aviões, abrangendo vigilância, identificação e coordenação de respostas.

O A-29 Super Tucano, um turboélice mais recente, é adequado para missões de treinamento, vigilância, patrulhamento, ataque leve e interdição. O AT-3, como treinador avançado a jato, oferece velocidade superior e potencial para ampliar a preparação de pilotos em aeronaves a reação. As funções de ambas as frotas podem ser complementares, desde que existam recursos para sua operação e manutenção. No entanto, é fundamental ressaltar que a maior velocidade do AT-3 não assegura, por si só, interceptação eficaz de qualquer alvo, dependendo de um sistema complexo que inclui alerta antecipado, radares, comunicação, identificação, regras de engajamento, equipamentos instalados e treinamento.

A FAP também chegou a estudar os caças F-5E/F Tiger II, retirados de serviço por Taiwan, mas fontes citadas pelo Pucará apontaram os altos custos operacionais e a vida útil remanescente como obstáculos. Isso reforça a diferença entre o objetivo de recuperar a capacidade de operar jatos e o de construir uma força supersônica com meios e manutenção mais exigentes. Os AT-3 podem ampliar o treinamento e oferecer certas possibilidades de reação, mas não representam equivalência operacional com caças modernos de defesa aérea. A possível nova estrutura aérea em Mariscal Estigarribia, na região do Chaco, capaz de abrigar parte dos futuros AT-3 e meios como o AT-27 Tucano e o A-29 Super Tucano, permanece um projeto em desenvolvimento, sem documentação suficiente para afirmar sua inauguração ou prontidão operacional.

A retomada da aviação militar a jato pelo Paraguai, com a aquisição dos AT-3 de Taiwan e o suporte contínuo do Brasil na modernização de sua frota turboélice, sinaliza um movimento estratégico para fortalecer sua defesa e capacidade de resposta a ameaças regionais. Contudo, o sucesso dessa empreitada dependerá não apenas da chegada das aeronaves, mas da capacidade do país de sustentar a operação, manutenção e treinamento necessários para integrar efetivamente esses novos ativos em sua estrutura de defesa aérea.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *