Em um movimento estratégico que reverberou nos corredores do poder em Brasília, a Associação de Mulheres Diplomatas Brasileiras (AMDB) enviou, nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, uma carta formal ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para seu quarto mandato no domingo anterior. O documento pleiteia a indicação de uma mulher para a chefia do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, um posto de crucial importância para a política externa brasileira. Neste cenário de intensas articulações pós-eleitorais, a ex-ministra do Planejamento, Simone Tebet (PSB), emerge como a principal favorita, reunindo um consenso notável entre diplomatas por sua experiência política e laços com o agronegócio, enquanto outros nomes como Fernando Haddad e a recondução de Mauro Vieira também são considerados para a condução da diplomacia nacional.
A iniciativa da AMDB não é apenas um gesto simbólico, mas um claro indicativo da crescente demanda por maior representatividade de gênero em posições de alto escalão na diplomacia brasileira. A carta, embora não mencione nomes específicos, catalisou a discussão em torno de Simone Tebet, cujo perfil se alinha com as expectativas de uma parte significativa do corpo diplomático. A possibilidade de uma mulher assumir o comando do Itamaraty, uma pasta historicamente dominada por homens, é vista como um avanço significativo e um sinal de modernização da política externa do país. A escolha de Tebet, nesse contexto, transcenderia a mera indicação política, tornando-se um marco para a inclusão e diversidade no cenário internacional brasileiro.
A ascensão de Simone Tebet ao posto de principal cotada para a chancelaria não se baseia apenas na questão de gênero. Integrantes do Ministério das Relações Exteriores argumentam que ela reúne atributos considerados estratégicos para o comando da pasta em um momento de redefinição da política externa brasileira. Sua origem em Mato Grosso do Sul, um dos principais estados produtores do país, e sua trajetória política consolidada no setor, a credenciam como um nome capaz de estreitar os laços do Itamaraty com o agronegócio. Este setor, motor da economia brasileira, tem uma influência considerável nas relações comerciais e diplomáticas do país, e a capacidade de Tebet de dialogar e representar seus interesses seria um ativo inestimável na formulação de acordos e na defesa de pautas internacionais. A diplomacia do agronegócio, que busca abrir mercados e resolver barreiras comerciais, encontraria em Tebet uma interlocutora privilegiada, com profundo conhecimento das demandas e potencialidades do setor.
Outro fator que pesa a favor da ex-ministra é o fato de ela não pertencer à carreira diplomática. Na avaliação de parte dos integrantes do ministério, a escolha de um nome com experiência política, e não necessariamente de um diplomata de carreira, poderia facilitar as articulações em defesa dos interesses da pasta no Congresso Nacional e junto a outros ministérios. A habilidade de transitar entre o Executivo e o Legislativo, negociar e construir consensos, é vista como um diferencial para um chanceler que precisa não apenas representar o Brasil no exterior, mas também garantir o apoio interno para as diretrizes da política externa. Essa perspectiva sugere uma busca por um perfil mais pragmático e articulador, capaz de desburocratizar e agilizar processos, em contraste com a visão mais tradicional da diplomacia de carreira.
Além de Simone Tebet, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad também é mencionado em conversas entre diplomatas como uma alternativa de perfil político para assumir o comando do Itamaraty. Haddad, com sua experiência em gestão econômica e sua proximidade com o presidente, representaria outra via para trazer uma visão política ao ministério. Sua capacidade de articulação e seu conhecimento de temas econômicos globais poderiam ser valiosos na condução da diplomacia comercial e financeira do Brasil. Durante o período eleitoral, Haddad manteve uma agenda pública ativa, como a participação em missa na Catedral da Sé em 27 de setembro, acompanhado de sua esposa, Ana Estela, um mês antes da eleição que definiria seu futuro político e o de outros nomes.
A definição do próximo chanceler, avaliam integrantes da carreira diplomática, também dependerá de quem ocupará a Casa Civil, o coração da coordenação política do governo. Entre os nomes cotados para o cargo estão Camilo Santana e Rui Costa, ambos com vasta experiência em gestão e articulação política. A escolha para a Casa Civil pode influenciar diretamente o perfil do chanceler, uma vez que ambos os ministérios trabalham em estreita colaboração na formulação e execução das políticas governamentais, incluindo a externa. Um chanceler alinhado com o chefe da Casa Civil poderia garantir maior fluidez e coesão na agenda do governo.
Apesar de as discussões sobre possíveis nomes políticos mobilizarem parte dos diplomatas, a avaliação predominante é que essa alternativa tem poucas chances de se concretizar. Um dos cenários considerados mais prováveis é a recondução de Mauro Vieira ao comando do Itamaraty. Vieira, um diplomata de carreira com vasta experiência e profundo conhecimento da máquina do ministério, representaria a continuidade e a estabilidade em um momento de transição. Sua recondução seria um sinal de que o presidente Lula optaria por manter a linha de trabalho já estabelecida, valorizando a expertise técnica e a tradição diplomática. Essa opção, embora menos disruptiva, garantiria a manutenção de quadros experientes e a previsibilidade nas relações internacionais do Brasil.
As articulações também envolvem possíveis nomes para a Secretaria-Geral das Relações Exteriores, o segundo posto mais importante da estrutura do ministério, abaixo apenas do chanceler. Este cargo é crucial para a gestão interna do Itamaraty e para a coordenação das embaixadas e consulados brasileiros ao redor do mundo. Entre os cotados estão os embaixadores Gisela Padovan, atual chefe da Secretaria de América Latina e Caribe, e Mauricio Lyrio, responsável pela Secretaria de Clima, Energia e Meio Ambiente. Ambos são diplomatas de carreira com experiência em áreas estratégicas, e suas indicações sinalizariam as prioridades do governo em relação à região e às pautas ambientais, respectivamente. A escolha para a Secretaria-Geral é um termômetro das direções que o Itamaraty pretende seguir.
É importante contextualizar que tanto Tebet quanto Haddad disputaram cargos nas eleições deste ano em São Paulo, o que adiciona uma camada de complexidade às suas possíveis indicações ministeriais. Fernando Haddad concorreu ao governo estadual, mas foi derrotado por Tarcísio de Freitas (Republicanos) ainda no primeiro turno, que recebeu 62,65% dos votos, ante 36,42% de Haddad. Simone Tebet, por sua vez, concorreu a uma vaga no Senado por São Paulo e terminou em terceiro lugar, atrás de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). Embora seus desempenhos eleitorais em São Paulo não tenham sido vitoriosos, a relevância de seus nomes no cenário político nacional e suas experiências prévias os mantêm na linha de frente para posições estratégicas no novo governo. A política de nomeações ministeriais muitas vezes transcende o sucesso eleitoral direto, focando na capacidade de gestão, articulação e alinhamento com a visão presidencial. A decisão final de Lula sobre a chancelaria será um dos primeiros e mais importantes sinais da direção que o Brasil tomará em sua política externa nos próximos anos, equilibrando a busca por representatividade, a necessidade de experiência política e a valorização da diplomacia de carreira.