Na noite desta quinta-feira, 29 de outubro de 2026, o cenário diplomático entre Brasil e Estados Unidos atingiu um ponto de alta tensão. A aprovação do agrément para Daniel Perez, indicado como o novo embaixador norte-americano em Brasília, encontra-se paralisada no Palácio do Planalto. A decisão, que deveria ser uma formalidade pós-eleitoral, transformou-se em um complexo nó geopolítico, diretamente influenciado pela recente fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos e pelas contínuas declarações do presidente Donald Trump, que segue questionando, sem provas, a legitimidade do processo eleitoral brasileiro que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva. Este impasse não só atrasa a nomeação de Perez, mas também ameaça escalar para uma retaliação diplomática, com o Brasil ponderando exigir a reabilitação do visto de múltiplas entradas da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, ou aplicar a mesma restrição ao diplomata americano.
O Agrement de Perez: De Expectativa a Ponto de Contenção
A indicação de Daniel Perez para a embaixada dos Estados Unidos no Brasil era vista como um passo natural para a retomada das relações bilaterais após o período eleitoral. Com a reeleição de Lula confirmada, a expectativa era que o governo brasileiro agilizasse a avaliação dos agréments – os avais diplomáticos necessários para que um embaixador assuma seu posto – que haviam sido suspensos durante a campanha. Nos bastidores do Itamaraty, antes dos eventos recentes, a previsão era de que a autorização para Perez seria concedida até dezembro. No entanto, a situação mudou drasticamente. Fontes dentro do Palácio do Planalto revelam que a autorização para Perez está sendo deliberadamente retida, transformando um trâmite burocrático em uma ferramenta de pressão diplomática. A justificativa central para essa postura é a série de eventos que têm abalado as relações entre os dois países, colocando em xeque a tradicional cordialidade diplomática.
A Sombra de Flávio Bolsonaro e as Declarações de Trump
A principal razão para a estagnação do agrément de Perez reside na fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. O senador, cuja saída do país gerou grande repercussão, é agora o epicentro de uma crise que se estende para além das fronteiras brasileiras. Um jornal americano chegou a noticiar que Bolsonaro estaria buscando residência permanente nos EUA, uma informação que a Casa Branca se recusou a comentar, adicionando mais mistério e tensão ao caso. A situação de Bolsonaro é tão sensível que o governo brasileiro estuda adotar uma postura de reciprocidade não apenas com os Estados Unidos, mas também com o governo argentino, que teria facilitado a passagem do senador em sua rota de fuga.
Paralelamente, as declarações do presidente Donald Trump continuam a reverberar em Brasília. Após o pleito que reelegeu Lula, Trump afirmou, sem apresentar qualquer prova, que a eleição brasileira “pareceu fraudada e muito ruim”, embora tenha ressalvado que “gosta de Lula”. Essa postura, de questionar a integridade de um processo democrático auditado e reconhecido por uma vasta gama de observadores internacionais, chefes de Estado e partidos políticos brasileiros, é vista como um desrespeito à soberania do Brasil. Um interlocutor direto do presidente Lula argumenta que conceder o agrément a Perez enquanto Trump mantém essa retórica seria um sinal de fraqueza e incoerência diplomática, especialmente diante da gravidade da situação envolvendo Flávio Bolsonaro. A combinação desses dois fatores – a presença de Bolsonaro em solo americano e as declarações de Trump – criou um ambiente de desconfiança e exigência por parte do governo brasileiro.
O Visto de Maria Luiza Viotti: Uma Medida de Reciprocidade
A complexidade da situação se aprofunda com o caso da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti. Em agosto, o governo norte-americano rebaixou o visto da diplomata da categoria de múltiplas entradas para uma única entrada. Essa medida, altamente incomum para um chefe de missão diplomática, significa que, caso Viotti precise deixar os EUA, ela será obrigada a solicitar um novo visto para retornar ao território americano, dificultando significativamente seu trânsito e suas funções. O argumento apresentado pelos Estados Unidos para essa restrição foi a suposta demora do governo brasileiro em analisar o agrément de Daniel Perez.
Agora, com o agravamento da crise, assessores do presidente Lula avaliam que o Brasil tem a oportunidade e a necessidade de adotar uma postura de reciprocidade. A ideia é exigir que o visto de múltiplas entradas de Maria Luiza Viotti seja imediatamente reabilitado. Caso contrário, o consulado brasileiro nos Estados Unidos poderia aplicar a mesma restrição a Daniel Perez, concedendo-lhe um visto de entrada única. Embora essa medida não impeça o exercício da função diplomática, ela criaria um precedente significativo e dificultaria o trânsito do embaixador americano entre os dois países, enviando uma mensagem clara sobre a insatisfação brasileira com a conduta de Washington.
Implicações para as Relações Bilaterais
A avaliação de agréments pelo Itamaraty é, por natureza, um processo sigiloso, e a pasta não divulga o andamento dessas análises. No entanto, a atual paralisação de Perez e a ameaça de reciprocidade sobre o visto de Viotti expõem uma deterioração preocupante nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. A diplomacia é um jogo de xadrez complexo, onde cada movimento tem consequências e a reciprocidade é uma ferramenta poderosa. A decisão de reter o agrément de Perez e a possibilidade de restringir seu visto são indicativos de que o governo brasileiro está disposto a usar todos os recursos diplomáticos disponíveis para proteger seus interesses e sua soberania.
A situação de Flávio Bolsonaro nos EUA, as declarações do presidente Trump sobre as eleições brasileiras e a resposta do Brasil em relação ao agrément de Perez e ao visto de Viotti, formam um emaranhado de questões que exigirão habilidade e firmeza de ambos os lados. O desfecho dessa crise não apenas definirá o futuro da representação diplomática entre as duas maiores economias das Américas, mas também poderá redefinir o tom e a natureza de suas relações nos próximos anos. A comunidade internacional observa atentamente, enquanto Brasília e Washington se preparam para um embate diplomático de proporções consideráveis.