MP-SP Pede Condenação de Renato Cariani por Tráfico e Lavagem; Pena Pode Chegar a 51 Anos

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Em 28 de outubro de 2026, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) formalizou o pedido de condenação do influenciador e empresário Renato Cariani por crimes de associação para o tráfico de drogas, tráfico de insumos químicos e lavagem de dinheiro, com a possibilidade de uma pena que pode variar de 16 a impressionantes 51 anos de prisão em regime fechado. A solicitação, que marca um ponto crucial no processo judicial, ocorre no âmbito de uma investigação aprofundada sobre o desvio de produtos químicos da empresa Anidrol, de propriedade de Cariani, para a produção em larga escala de crack e cocaína na Grande São Paulo. O caso, que ganhou notoriedade com a deflagração da Operação Hinsberg em dezembro de 2023, expõe a complexa teia entre o mundo fitness e o submundo do narcotráfico.

A promotoria, por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), detalhou que a empresa Anidrol Produtos para Laboratórios, sediada em Diadema, teria simulado a venda de insumos químicos por 59 vezes. Esses materiais, essenciais para o refino de entorpecentes, eram sistematicamente desviados para organizações criminosas. A gravidade das acusações se intensifica com a revelação de que Cariani, que atualmente responde ao processo em liberdade, é suspeito de ser uma peça central em um esquema que teria abastecido o narcotráfico com toneladas de matéria-prima para a fabricação de drogas.

As investigações, que se estenderam por anos, trouxeram à tona evidências contundentes. Mensagens obtidas a partir do celular de Renato Cariani revelaram uma proximidade preocupante com Anadré Dziuba, um policial civil supostamente vinculado à área de controle e fiscalização de produtos químicos. Os diálogos indicam que Cariani não apenas recebia informações privilegiadas sobre diligências policiais, mas também opinava sobre situações específicas e até sugeria empresas para fiscalização. Para o Gaeco, essa interação evidencia que o influenciador atuava para proteger a associação criminosa e, possivelmente, prejudicar concorrentes no mercado de produtos químicos.

Um dos pontos mais incriminadores das mensagens é a clara indicação de que Cariani tinha “absoluta ciência do emprego dos insumos químicos no preparo de droga”. Em uma das conversas, datada de 11 de abril de 2019, ao ser consultado pelo policial sobre o controle de uma determinada substância, Cariani respondeu que ela era “utilizada para aumentar o rendimento da cocaína”. Além disso, as mensagens apontam que ele estava ciente do “controle pífio das retiradas da própria empresa”, o que facilitava o desvio dos materiais.

A complexidade do esquema se aprofunda com a participação de outros réus. Além de Renato Cariani, o Ministério Público também pediu a condenação de Fábio Spindola Mota e Rodrigo Gomes Pereira pelos mesmos crimes. Fábio Spindola Mota é apontado como um dos responsáveis por realizar depósitos em espécie na conta da Anidrol, sob a falsa justificativa de serem da farmacêutica AstraZeneca. Ele também teria criado um e-mail falso em nome de um suposto funcionário da AstraZeneca para simular negociações de compra de produtos. Spínola é descrito como o elo crucial entre a empresa de Cariani e os compradores de crack e cocaína, sendo o intermediador que direcionava e negociava a entrega dos produtos químicos para o tráfico.

A origem da investigação remonta a 2019, quando a própria AstraZeneca procurou o Ministério Público para denunciar que a Anidrol havia emitido notas fiscais em 2017 referentes a movimentações de produtos químicos que a farmacêutica não reconhecia. Essa denúncia inicial foi o estopim para a Operação Hinsberg, que desmantelou o esquema de desvio. A Polícia Federal, na época da operação em dezembro de 2023, já havia apontado que a empresa de Cariani fraudava a venda de insumos a empresas farmacêuticas, com o material sendo desviado para o refino de cocaína.

O cálculo da pena, conforme explicado pelo advogado criminalista Anderson Almeida, considera o acolhimento integral do pedido acusatório, com condenação por associação para o tráfico, por 59 crimes de tráfico de insumos e por 59 crimes de lavagem de dinheiro. A aplicação da continuidade delitiva nas duas últimas séries, com aumento de dois terços da pena (Súmula 659 do STJ), e o concurso material entre os três grupos de crimes, sem outras causas de aumento ou diminuição, resultam na projeção de 16 anos e 4 meses a 51 anos e 8 meses de reclusão para cada réu. Almeida ressaltou que a pena máxima estimada não se confunde com o limite legal de cumprimento de pena, que é de 40 anos, previsto no artigo 75 do Código Penal.

Apesar da gravidade das acusações e dos pedidos de condenação para Cariani, Fábio Spindola Mota e Rodrigo Gomes Pereira, o Gaeco também solicitou à Justiça a absolvição de duas ex-investigadas: Roseli Dorth, sócia de Cariani na Anidrol, e Andréia Domingues Ferreira. Essa distinção no pedido do MP-SP sugere uma análise individualizada das responsabilidades de cada envolvido no esquema.

A defesa de Renato Cariani, representada pelo advogado Aldo Romani Netto, afirmou receber o pedido de condenação com “naturalidade”, destacando que o órgão acusador apenas manteve a tese defendida desde o início da ação penal. Em nota, Romani Netto declarou que o processo agora se encontra na fase de alegações finais defensivas, onde a defesa irá “responder a cada uma das teses apresentadas pelo Ministério Público e demonstrar, com base na prova produzida ao longo da instrução, que elas são improcedentes”. A defesa expressou confiança em um julgamento justo e isento, pautado pela análise da prova, e manifestou convicção de que o resultado final será a absolvição de Renato Cariani.

Renato Cariani, de 50 anos, é uma figura proeminente no universo fitness brasileiro. Casado com Tatiane Martines Cariani, ele acumula mais de 11 milhões de seguidores no Instagram e 8 milhões no YouTube, onde seus vídeos sobre dieta, treino e fisiculturismo somam mais de 1 bilhão de visualizações. Em suas redes sociais, ele se apresenta como professor de química, professor de educação física, atleta profissional, empresário e youtuber, sendo amplamente reconhecido como um dos maiores apoiadores do fisiculturismo no país. A imagem pública de sucesso e dedicação ao esporte contrasta drasticamente com as graves acusações de envolvimento com o narcotráfico e lavagem de dinheiro que agora pesam contra ele, colocando em xeque a reputação construída ao longo de anos.

O pedido de condenação do MP-SP representa um momento decisivo no caso Renato Cariani. Com a fase de alegações finais defensivas em andamento, o Poder Judiciário terá a responsabilidade de analisar todas as provas e argumentos apresentados para proferir uma sentença. A repercussão do caso transcende o âmbito jurídico, impactando a credibilidade de figuras públicas e levantando questões sobre a fiscalização de empresas que lidam com produtos químicos controlados, essenciais para diversas indústrias, mas que, nas mãos erradas, podem alimentar o crime organizado. A sociedade aguarda com atenção o desfecho de um dos mais complexos e midiáticos processos envolvendo uma personalidade do cenário digital brasileiro.

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