Filipe Luís sob Fogo Cruzado: A Crise Tática no Monaco e o Eco do Passado Rubro-Negro

Em 28 de outubro de 2026, o cenário do futebol europeu volta seus olhos para o Principado de Mônaco, onde o ex-técnico do Flamengo, Filipe Luís, enfrenta os primeiros e intensos questionamentos em seu comando à frente do AS Monaco. A pressão se intensificou após o empate por 1 a 1 com o Lille no último domingo, 25 de outubro, marcando a terceira rodada consecutiva sem vitória no Campeonato Francês e expondo uma gestão de ataque que gera incômodo interno e debate público. A situação atual contrasta drasticamente com o início promissor de sua passagem, levantando discussões sobre suas escolhas táticas e a gestão de um elenco valioso.
A sequência de resultados negativos na Ligue 1 – um empate com o Toulouse (2 a 2), uma derrota para o Lorient (1 a 0) e o recente empate com o Lille – acendeu o alerta no clube monegasco. O ponto central das críticas, conforme apurado pelo respeitado jornal francês L’Équipe, recai sobre a forma como Filipe Luís tem administrado seu setor ofensivo. Há uma percepção crescente de que talentos significativos e investimentos vultosos estão sendo subutilizados, enquanto a equipe luta para converter seu potencial em vitórias consistentes.
O caso mais emblemático envolve jogadores como Folarin Balogun, Matthis Abline e Mika Biereth. Balogun, atacante de 25 anos que defendeu os Estados Unidos na Copa do Mundo de 2026 e teve uma transferência frustrada para o Everton em agosto, soma apenas 71 minutos na Ligue 1. Abline, contratado do Nantes por expressivos €30 milhões, iniciou somente três das sete partidas disputadas. Biereth, de 23 anos, viu ainda menos ação, com meros 57 minutos em campo pelo campeonato. A ausência desses atletas no onze inicial ou mesmo a sua pouca participação nos jogos tem sido um dos principais focos de insatisfação.
A profundidade do banco de reservas do Monaco contra o Lille, que somava cerca de €75 milhões em valor estimado (equivalente a R$ 446 milhões), sublinha a magnitude do dilema. Ter um capital humano tão valioso com minutos limitados em campo levanta questões sobre o retorno do investimento e a moral do elenco. Enquanto isso, o jovem alemão Paris Brunner, que se firmou como titular, tem sido a principal referência ofensiva, com quatro gols nas sete primeiras rodadas. Contudo, a dependência excessiva de um único jogador, por mais promissor que seja, não tem sido suficiente para sustentar a equipe em todos os desafios.
O confronto contra o Lille, comandado por Davide Ancelotti, amigo de longa data de Filipe Luís, foi um microcosmo dessa problemática. Biereth sequer foi relacionado por opção técnica. Abline, que começou no banco, foi acionado apenas no intervalo, com o Monaco já em desvantagem no placar. Balogun, por sua vez, teve apenas os cinco minutos finais para tentar reverter o cenário. A partida também foi marcada pela lesão de Ansu Fati, que sentiu a parte posterior da coxa aos 14 minutos, adicionando mais uma preocupação ao setor ofensivo.
O Lille abriu o placar aos 24 minutos, com Ethan Mbappé finalizando após passe de Soriba Diaoune. A reviravolta veio na etapa final, quando um defensor do Lille recebeu cartão vermelho aos 66 minutos por uma entrada dura em Brunner. Com a vantagem numérica, o Monaco pressionou e conseguiu o empate aos 74 minutos, com Edan Diop, que havia entrado no intervalo, cruzando e enganando o goleiro Berke Özer. Apesar do empate, a atuação e as escolhas de Filipe Luís continuaram sob escrutínio.
Após a partida, Filipe Luís defendeu suas decisões, argumentando que a concorrência no ataque é forte e negando qualquer arbitrariedade em suas escolhas. Essa postura firme, que prioriza o coletivo acima de individualidades, não é novidade para quem acompanhou sua trajetória no Brasil. Em 2025, durante sua passagem pelo Flamengo, ele deixou o atacante Pedro fora de um jogo crucial contra o São Paulo e criticou publicamente a atitude do camisa 9. Em entrevista à AFP neste mês, Filipe Luís reiterou sua convicção: “Ninguém é mais importante do que a equipe. Um princípio claro havia sido quebrado. Tomei uma decisão complicada”, afirmou, sem arrependimentos.
A comparação com sua gestão no Rubro-Negro é inevitável, especialmente para um portal de notícias com foco no futebol brasileiro. Filipe Luís deixou o Flamengo em março de 2026, horas após uma goleada por 8 a 0 sobre o Madureira pelo Campeonato Carioca. Sua saída, que à época parecia um ponto final em uma fase, voltou ao debate após a eliminação do Fla para o Estudiantes na Libertadores, com muitos questionando se a manutenção de sua filosofia e pulso firme poderia ter alterado o destino da equipe.
Apesar da turbulência recente na Ligue 1, o Monaco ainda se mantém na parte de cima da tabela, com 15 pontos, a mesma pontuação do Lille. Além disso, na Conference League, a equipe demonstra um desempenho impecável, com 100% de aproveitamento e uma vitória convincente por 3 a 0 sobre o Freiburg na quinta-feira, 22 de outubro. Essa dualidade de resultados – pressão no campeonato nacional e sucesso continental – adiciona complexidade à análise do trabalho do treinador, sugerindo que a equipe pode ter se adaptado melhor a diferentes contextos táticos ou que a gestão de elenco para múltiplas competições ainda está em ajuste.
O Futuro Imediato e o Olhar Atento sobre as Escolhas
A pressão atual contrasta fortemente com o início de trabalho de Filipe Luís na França, quando ele se tornou o primeiro técnico do Monaco a passar invicto pelos oito jogos iniciais, levando o time à liderança do Campeonato Francês. A expectativa era de uma ascensão meteórica, mas a realidade do futebol de alto nível impõe desafios constantes e a necessidade de adaptação. A capacidade de Filipe Luís de gerir as expectativas, o vestiário e, principalmente, de encontrar a melhor forma de utilizar seu valioso elenco ofensivo será crucial para o restante da temporada.
O próximo compromisso do Monaco será no domingo, 1º de novembro, contra o Paris FC, no Stade Jean-Bouin, pela 9ª rodada do Campeonato Francês. A bola rola às 13h15 (de Brasília), e todas as atenções estarão voltadas para a escalação do ataque, sobretudo diante da dúvida sobre a condição física de Ansu Fati. As escolhas de Filipe Luís neste jogo serão um termômetro importante para avaliar se o técnico manterá sua postura inabalável ou se buscará novas soluções para integrar seus talentos ofensivos e reverter a sequência de resultados adversos na liga nacional. O desafio é grande, e o ex-lateral-esquerdo, agora no comando técnico, precisa provar que sua filosofia pode levar o Monaco ao sucesso duradouro, tanto quanto gerou debates em seu passado rubro-negro.