Pós-Eleição 2026: Brasil em Encruzilhada Geopolítica com EUA sob Disputa Lula-Flávio e Desafios do Tarifaço

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Com o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 tendo ocorrido ontem, 25 de outubro, o Brasil se encontra em um momento decisivo para definir sua política externa, especialmente a complexa relação com os Estados Unidos. A disputa acirrada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que no primeiro turno obteve 45% e 47% dos votos, respectivamente, colocou em evidência propostas radicalmente distintas para Washington e para o enfrentamento do iminente “tarifaço” comercial. Enquanto o país aguarda a definição de seu próximo líder, a nação já se prepara para os desafios urgentes de navegar as tensões geopolíticas entre as superpotências China e EUA, negociar tarifas comerciais e garantir o acesso a minerais críticos, moldando o futuro econômico e estratégico do Brasil.

Duas Visões para a Relação Brasil-EUA

As propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para a relação bilateral com os Estados Unidos delineiam caminhos opostos. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, defende uma política externa pautada na soberania nacional, no multilateralismo e na diversificação das parcerias comerciais. Seu plano de governo, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ressalta a importância de o Brasil manter autonomia em suas decisões políticas e econômicas, sem subordinação a outras nações. Essa postura se intensificou, inclusive, após a pressão exercida por Donald Trump sobre o Judiciário brasileiro para retirar acusações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, que cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado.

A agenda de Lula para as relações internacionais inclui o fortalecimento do Mercosul e da integração sul-americana, com investimentos em infraestrutura de transporte, cooperação na Amazônia e a criação de um mercado comum de energia. O petista também visa a ampliação das relações com África, Ásia, Oriente Médio e Europa, buscando novos acordos comerciais e a abertura de mercados. Além disso, propõe reformas no Conselho de Segurança da ONU, na Organização Mundial do Comércio (OMC), no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial, com o objetivo de ampliar a participação dos países em desenvolvimento. Aprofundar a atuação nos BRICS e a cooperação entre países do Sul Global são outras prioridades, ao lado do combate à fome, do enfrentamento da emergência climática, da construção de regras internacionais para tecnologias digitais e inteligência artificial, e do reforço dos compromissos com os direitos humanos e a assistência consular a brasileiros no exterior.

Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, prioriza a aproximação com Washington, a abertura de mercados e a atração de investimentos estrangeiros. Seu programa de governo defende uma diplomacia orientada por critérios técnicos e pelo interesse econômico do Brasil, sem escolher parceiros por afinidade ideológica. Flávio busca reforçar as relações com Argentina, Estados Unidos e Israel, ao mesmo tempo em que negocia com parceiros como China, União Europeia e mercados asiáticos. Uma das metas é retomar o processo de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), adaptando as normas brasileiras aos padrões da entidade e promovendo a redução gradual do IOF sobre operações de câmbio.

O plano de Flávio Bolsonaro também prevê a integração do Brasil às cadeias globais de produção, com foco em setores estratégicos como agroindústria, minerais críticos, saúde e economia digital. O apoio do BNDES e da Apex-Brasil à expansão de pequenas e médias empresas no exterior, bem como medidas para facilitar o acesso do setor produtivo a máquinas, tecnologias e insumos importados, são pontos centrais. Na área de energia, a meta é posicionar o Brasil entre os principais destinos de investimentos em transição energética até 2030, com ênfase em biocombustíveis, energia solar, eólica e hidrogênio verde. A atuação internacional é associada à segurança e defesa nacional, com investimentos nas Forças Armadas e o uso de drones e inteligência artificial no combate ao crime organizado.

O Papel de Eduardo Bolsonaro e a Questão do Crime Organizado

A interlocução de Flávio Bolsonaro com o governo americano é facilitada por seu irmão, Eduardo Bolsonaro, que reside nos Estados Unidos desde o início de 2025. Eduardo foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por incitar a intervenção americana nos processos judiciais contra seu pai naquele ano. Embora não confirmadas pelos irmãos, fontes próximas à campanha de Flávio indicaram à agência Reuters que possíveis funções internacionais para Eduardo foram discutidas caso Flávio fosse eleito. Desde o lançamento de sua campanha, Flávio tem buscado uma aproximação com Donald Trump e com lideranças de direita de outros países, como o argentino Javier Milei e o colombiano Abelardo de la Espriella.

Uma das frentes de convergência entre Flávio e Trump é o combate ao crime organizado. Durante uma visita a Washington em maio, o senador solicitou que o governo americano classificasse as principais facções criminosas brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). Washington aceitou a proposta, que, no entanto, foi rejeitada por Lula, que a considerou uma intervenção na soberania nacional. O presidente defende uma política nacional de enfrentamento ao crime organizado, com cooperação internacional, mas sem a classificação externa que, em sua visão, poderia abrir precedentes perigosos.

Tarifas, Minerais Críticos e a Tensão EUA-China

Um dos pontos mais sensíveis da relação Brasil-EUA é a negociação de tarifas comerciais e o acesso a minerais críticos e terras raras brasileiros. Os Estados Unidos buscam ampliar seu acesso a esses recursos para reduzir a dependência da China em seu fornecimento, um movimento estratégico em meio à crescente rivalidade geopolítica. Brasil e Estados Unidos já discutem em um grupo de trabalho para negociar tarifas e estabelecer uma estrutura para o comércio bilateral, mas as divergências persistem.

Lula defende medidas de proteção às empresas brasileiras afetadas pelas tarifas americanas, como as previstas no “Plano Brasil Soberano”, além de manter a autonomia nas negociações. Sua proposta visa dar “fôlego às empresas brasileiras, preservando o emprego e a renda do povo brasileiro”. Flávio Bolsonaro, por sua vez, aposta na aproximação diplomática e comercial com Washington, mas seu programa, nas informações disponíveis, não detalha uma estratégia específica para a retirada das tarifas impostas pelos EUA. Ambos os candidatos, contudo, reconhecem a necessidade de ampliar mercados e atrair investimentos internacionais, embora por vias distintas.

O próximo presidente também terá a complexa tarefa de administrar as tensões entre China e Estados Unidos, os dois maiores parceiros comerciais do Brasil. Essa relação delicada deve influenciar decisões cruciais sobre exploração mineral, industrialização e cooperação regional. Enquanto Lula prioriza a autonomia diplomática e o multilateralismo, buscando fortalecer relações com diversos blocos econômicos, Flávio defende uma diplomacia orientada por interesses econômicos, com maior aproximação com os Estados Unidos e estímulos à abertura comercial. O resultado das urnas de ontem, 25 de outubro, definirá qual dessas visões guiará o Brasil em um cenário geopolítico cada vez mais desafiador e interconectado.

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