Às vésperas de 3 de novembro de 2026, os Estados Unidos se preparam para as cruciais eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, um pleito que definirá o futuro político do presidente Donald Trump e a governabilidade do país. Com a renovação de todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado e 36 governos estaduais, a votação é um referendo direto sobre a administração republicana, que enfrenta uma desaprovação recorde de 66%, conforme pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 19 de outubro. O resultado destas eleições, que já contam com votação antecipada e prometem ser as mais caras da história, será determinante para a capacidade de Trump de avançar sua agenda nos próximos dois anos de seu mandato.
A Encruzilhada de Trump: Desaprovação Recorde e a Luta pelo Congresso
O cenário político que antecede as midterms de 2026 é particularmente desafiador para o presidente Donald Trump. Uma pesquisa Reuters/Ipsos, divulgada na segunda-feira, 19 de outubro, revelou que 66% dos americanos desaprovam seu governo, um dos índices mais altos registrados em seus dois mandatos. Em contrapartida, apenas 31% aprovam a gestão, o menor patamar para Trump e abaixo do registrado por seu antecessor, Joe Biden. A insatisfação popular, segundo o levantamento, está intrinsecamente ligada à condução da economia e ao elevado custo de vida no país.
Atualmente, o Partido Republicano detém uma maioria apertada tanto na Câmara quanto no Senado, conquistada nas eleições de 2024. Essa margem, embora suficiente para Trump impulsionar pautas importantes, também expôs divisões internas e limitou sua força em temas mais sensíveis. A manutenção ou perda dessa maioria é, portanto, crucial. Uma derrota em uma ou ambas as Casas legislativas poderia não apenas dificultar a aprovação de projetos presidenciais, mas também abrir caminho para que os parlamentares barrem ações do governo, transformando os dois últimos anos de Trump em um período de intensa negociação e potencial paralisia legislativa. Diante desse quadro, o presidente tem investido pesadamente na campanha, anunciando na terça-feira, 20 de outubro, um aporte de US$ 400 milhões para candidatos republicanos, em um esforço para blindar sua base de apoio no Congresso.
O Que São as Midterms: Um Guia para o Sistema Eleitoral Americano
Diferentemente do Brasil, onde o Congresso é renovado integralmente a cada quatro anos, o sistema legislativo dos Estados Unidos opera com renovações parciais a cada dois anos. As midterms, ou eleições de meio de mandato, recebem esse nome por ocorrerem exatamente na metade do mandato presidencial. As últimas eleições gerais foram em 2024, e Trump tomou posse em janeiro de 2025. Em novembro de 2026, ele estará na metade de seu período presidencial, enquanto os deputados eleitos em 2024 e os senadores eleitos em 2020 estarão próximos do fim de seus mandatos. Os parlamentares eleitos nas midterms de 2026 tomarão posse em janeiro de 2027, e o mandato presidencial de Trump se estenderá até janeiro de 2029, com a próxima eleição presidencial marcada para 2028.
Neste pleito, estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, cujos mandatos são de dois anos. No Senado, que possui 100 cadeiras com mandatos de seis anos, cerca de um terço será renovado, totalizando 35 vagas em disputa. Além das disputas federais, os eleitores americanos também irão às urnas para eleger governadores em 36 estados, cargos que, embora estaduais, têm impacto significativo na política nacional e na implementação de políticas públicas.
A Complexidade do Voto e os Custos Recordes
O sistema eleitoral americano apresenta particularidades notáveis. No Senado, cada um dos 50 estados tem direito a duas cadeiras, independentemente de sua população, garantindo representatividade igualitária. Já na Câmara dos Representantes, as 435 cadeiras são distribuídas proporcionalmente à população de cada estado, com cada deputado representando um distrito eleitoral específico. Esses distritos são desenhados para ter um número similar de habitantes, o que significa que estados mais populosos possuem mais representantes na Câmara. Antes das eleições gerais, os partidos realizam primárias para selecionar seus candidatos, resultando na maioria das disputas em um confronto direto entre um republicano e um democrata. Candidatos independentes também podem concorrer, mas geralmente com menor visibilidade e apoio.
A apuração dos votos nos EUA é um processo que pode se estender por dias, devido à diversidade de métodos de votação e às leis estaduais. A votação antecipada já começou em alguns estados, e uma parcela significativa dos eleitores já exerceu seu direito cívico pelo correio. O voto por correspondência, que ganhou destaque em pleitos anteriores, continua sendo um dos temas centrais da campanha, com debates acalorados sobre sua segurança e integridade. Outro ponto de tensão é a “guerra dos mapas eleitorais”, onde republicanos e democratas disputam o redesenho dos distritos eleitorais (gerrymandering) para favorecer seus respectivos partidos, uma prática que pode influenciar significativamente o resultado das eleições.
Em termos financeiros, as eleições de 2026 prometem ser as mais caras da história dos Estados Unidos, com gastos que superam a marca de US$ 15 bilhões. Esse montante reflete não apenas a intensidade da disputa, mas também a crescente polarização política e a importância estratégica de cada cadeira em jogo. A capacidade de arrecadação e investimento em campanha é um fator determinante, e a injeção de US$ 400 milhões por parte de Trump para seus correligionários demonstra a dimensão do esforço republicano para manter o controle do Congresso.
As projeções atuais indicam que o Partido Democrata pode conquistar o controle tanto da Câmara quanto do Senado, o que representaria um revés significativo para Donald Trump. A perda da maioria legislativa transformaria o restante de seu mandato em um período de intensa oposição, com a possibilidade de bloqueios a suas políticas e até mesmo investigações mais aprofundadas. Por outro lado, a manutenção da maioria republicana consolidaria sua base de poder e permitiria a continuidade de sua agenda, embora as divisões internas do partido ainda possam representar um desafio. O dia 3 de novembro de 2026 não será apenas uma data eleitoral, mas um divisor de águas para a política americana e para o legado de Donald Trump.