‘Overman’: A Sátira Brasileira Que Desafia Heróis e Espelha a Alma Nacional Chega Aos Cinemas

O aguardado filme “Overman”, adaptação da icônica criação da cartunista Laerte, estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, trazendo Caco Ciocler no papel do anti-herói que é uma mistura de “Deadpool com Macunaíma”. A produção, dirigida por Tomás Portella, mergulha nas complexidades de um super-herói endividado e desiludido, oferecendo uma sátira mordaz da figura heroica tradicional e um espelho das contradições da identidade brasileira. O lançamento marca um momento significativo para o cinema nacional, que se aventura em uma narrativa que questiona o heroísmo, a masculinidade e a própria realidade do homem comum, tudo isso sob a perspectiva de um personagem que mal consegue dar conta da própria vida.
A premissa de “Overman” é tão simples quanto profunda: um homem com superpoderes que, em vez de salvar o mundo, luta para pagar as contas, superar a ressaca e sobreviver em uma pensão precária. Caco Ciocler, que veste a máscara do protagonista, descreveu a experiência como um “salto sem paraquedas”, evidenciando o desafio de construir um personagem que transita entre o humor e uma jornada emocional complexa. A chegada do filme às telas é o culminar de um processo criativo intenso, que exigiu experimentação, improvisação e uma coragem notável por parte de todo o elenco e equipe para dar vida a uma figura tão peculiar.
Criado por Laerte em 1998, Overman é a antítese do super-herói americano. Longe de ser um modelo de virtude ou eficiência, ele é um reflexo das imperfeições humanas, magnificadas por um figurino apertado e uma autoconfiança que raramente encontra respaldo na realidade. A trama do filme ganha fôlego quando o Governador, interpretado por Otavio Muller, oferece a Overman uma chance de mudar de vida, convidando-o para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. No entanto, o novo emprego traz uma concorrente à altura: Pâmela, a Mulher Cachorro, vivida por Karina Ramil, cuja competência e admiração pública superam as do protagonista, para seu desgosto.
A direção de Tomás Portella, conhecido por “Aumenta que é Rock’n’Roll”, conseguiu transformar o personagem bidimensional das tirinhas em uma figura de carne e osso, sem perder o humor satírico que é a marca registrada de Laerte. O grande desafio era fazer com que essa criatura funcionasse em um longa-metragem, dando corpo às suas contradições sem domesticá-las. A equipe precisou descobrir até onde seria possível levar o exagero, tanto na interpretação quanto na narrativa, para que a essência do Overman fosse preservada e amplificada na tela grande.
Caco Ciocler não tinha todas as respostas ao iniciar as filmagens. Parte da composição do personagem surgiu das dificuldades práticas de interpretar um herói mascarado. O figurino, que chegou pouco antes das gravações, impôs limitações físicas, exigindo que o elenco descobrisse como voar, balançar e, crucialmente, expressar emoções com boa parte do rosto coberta. Essas limitações materiais, longe de serem obstáculos intransponíveis, acabaram por moldar a personalidade do Overman, conferindo-lhe uma autenticidade inesperada.
“A gente não tem um orçamento de milhões e milhões. Teve que se virar com coisas concretas que definiram, inclusive, a personalidade desse cara”, revela o ator. A máscara, em particular, representou um dilema: como transmitir sentimentos quando o principal instrumento de expressão de um ator está quase todo escondido? A resposta de Portella foi audaciosa: “Gente, o filme se chama Overman. O over tem que estar presente”. A partir daí, o elenco apostou na projeção da voz, em movimentos amplos e em um comportamento deliberadamente exagerado, confiando que a tela traduziria essa intensidade.
A confiança no diretor foi um pilar fundamental para que o elenco se permitisse errar. Portella incentivava os atores a experimentar sem a pressão de acertar de primeira, entendendo que “o erro é a matéria-prima de todo desenvolvimento científico, humorístico, social”. Quando uma improvisação funcionava, ela era incorporada ao filme, gerando momentos de surpresa e admiração, como relatado pela produtora Iafa Britz, que acompanhava o processo. A lógica no set era similar à imagem que Portella usa para explicar a atuação, contada por seu tio argentino: fingir que está dormindo até que, em algum momento, adormece de verdade. “É um pouco isso que eles fazem. Até que uma hora eles viram super-heróis”, diz o diretor.
No entanto, essa liberdade para experimentar não significava desvirtuar o personagem. Para Portella, adaptar Laerte exigia preservar a essência desconcertante de Overman: sua incapacidade de se ajustar às regras do mundo, combinada a uma autoconfiança que nem sempre encontra eco na realidade. “Ele é uma sátira do super-herói, mas também uma sátira do povo brasileiro, de características do homem brasileiro, dessa insegurança misturada com uma autoestima”, explica Caco Ciocler. A mistura, como resume o diretor, é de “Deadpool com Macunaíma”: a paródia do herói americano de um lado, e do outro, um personagem que encarna contradições muito familiares, querendo ser extraordinário, mas tropeçando nas próprias limitações.
A graça, ressalta Portella, já estava nas tirinhas. Overman se veste como um super-herói americano e sonha com esse modelo de heroísmo, mas vive no Brasil, onde “os problemas são outros”. A adaptação não inventou essa tensão, mas buscou uma maneira de fazê-la funcionar em uma história de longa-metragem. Para Caco, o trabalho foi “tridimensionalizar uma coisa que é bidimensional”, preenchendo os espaços deixados pela tira sem perder seu raciocínio particular. O humor de Laerte, muitas vezes sutil e que exige uma revisita para ser plenamente compreendido, serviu de base para a interpretação, buscando a estranheza que o mantinha fascinado.
A adaptação também exigiu uma atualização do personagem para o presente. O vício em fliperamas, por exemplo, transformou-se em uma relação com videopôquer e caça-níqueis, e a personagem Pauline, antes modelo, tornou-se influencer. Mais importante ainda, algumas situações precisaram ser repensadas por motivos que transcendem a passagem do tempo. Nas tirinhas, Overman saía às sextas-feiras em busca de sexo casual. Essa piada, reconhece Portella, não poderia ser reproduzida da mesma maneira, pois “ele estava abusando das pessoas”. A solução foi preservar a sexualidade excessiva do personagem, mas sempre em um “lugar de consenso”, garantindo que o filme questionasse comportamentos, em vez de reproduzi-los.
Esse cuidado se estendeu à figura masculina central da história. Para Portella, a equipe sentiu a obrigação de enfrentar as contradições do personagem e o que elas representam dentro de cada um. “Não podemos abrir mão de fazer uma obra que envolva uma atitude mais corajosa, porque senão não teria nem coragem de olhar para a cara da Laerte depois de mostrar o filme”, afirma. A crise de identidade de Overman, que tenta conciliar uma imagem grandiosa de si mesmo com uma realidade que insiste em desmenti-la, é a fonte inesgotável de suas trapalhadas e, em grande parte, da comédia.
Rodado em 2025, o filme pareceu ganhar atualidade a cada nova etapa de montagem, segundo Iafa Britz. O longo processo de adaptação e as sucessivas revisitas ao material original produziram uma impressão curiosa: em vez de se afastar do presente, “Overman” parecia se aproximar dele. “Tem alguma coisa ali no filme que realmente tem esse lugar de uma boa sátira político-existencial”, conclui a produtora. A estreia de “Overman” é, portanto, mais do que o lançamento de um filme de super-herói; é a chegada de uma obra que, com humor e profundidade, convida o público a refletir sobre quem somos, o que aspiramos ser e as complexas realidades que nos definem.