Às vésperas de 3 de novembro de 2026, os Estados Unidos se preparam para as cruciais eleições de meio de mandato, conhecidas como “midterms”, que renovarão quase todo o Congresso e definirão o futuro da agenda do presidente Donald Trump. Com uma taxa de desaprovação de 66% e projeções indicando uma possível perda de controle republicano na Câmara e no Senado, o pleito se torna um referendo sobre a gestão de Trump e um divisor de águas para os próximos dois anos de seu mandato. A votação, que já começou antecipadamente em alguns estados e por correio, é vista como um termômetro da insatisfação popular e um teste decisivo para a força política do atual presidente.
O Que São as Midterms e Por Que São Tão Cruciais?
As eleições de meio de mandato recebem esse nome por ocorrerem exatamente na metade do mandato presidencial. Diferentemente do Brasil, o Congresso dos Estados Unidos é renovado parcialmente a cada dois anos. Em novembro de 2026, enquanto Trump estará na metade de seu mandato presidencial, os deputados eleitos em 2024 e os senadores eleitos em 2020 estarão próximos do fim de seus mandatos. Os parlamentares eleitos agora tomarão posse em janeiro de 2027, e, embora o presidente não esteja nas urnas – seu mandato termina em janeiro de 2029 e a próxima eleição presidencial será apenas em 2028 –, o resultado destas midterms é de importância capital para a governabilidade.
A disputa abrange todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, o equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, e 35 das 100 cadeiras do Senado. Além disso, haverá eleições para governador em 36 estados americanos. Atualmente, o Partido Republicano, o mesmo de Donald Trump, detém a maioria em ambas as Casas do Congresso, mas por uma margem apertada. Essa maioria permitiu a Trump avançar com pautas importantes, mas também expôs divisões internas e limitou sua força em temas mais sensíveis. Uma derrota na Câmara, no Senado ou em ambas as Casas poderia paralisar a aprovação de projetos presidenciais e abrir caminho para a oposição barrar ações do governo, transformando os últimos dois anos de Trump em um período de intensa batalha política.
Desaprovação Recorde e o Cenário Político
O presidente Donald Trump chega a estas midterms com um índice de desaprovação alarmante. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira, 19 de outubro de 2026, apontou que 66% dos americanos desaprovam seu governo. Este índice está entre os mais altos registrados em seus dois mandatos. Em contraste, apenas 31% aprovam a gestão de Trump, o menor índice para o republicano na série histórica da Reuters/Ipsos, e abaixo até mesmo do registrado por seu antecessor, Joe Biden. A insatisfação dos eleitores, segundo o levantamento, está diretamente ligada à forma como Trump tem conduzido a economia e ao alto custo de vida nos Estados Unidos, temas que ressoam profundamente no cotidiano das famílias americanas.
Diante desse cenário, as projeções indicam que o Partido Democrata tem uma chance real de conquistar o controle tanto da Câmara quanto do Senado. A perda da maioria legislativa representaria um golpe significativo para Trump, que tem investido pesado e feito promessas para tentar manter o controle. Na terça-feira, 20 de outubro de 2026, o presidente anunciou um aporte de US$ 400 milhões para candidatos republicanos, um esforço financeiro que sublinha a gravidade da situação para seu partido.
O Sistema Eleitoral Americano em Detalhes
O sistema eleitoral dos Estados Unidos possui particularidades que o distinguem do modelo brasileiro. No Congresso, a distribuição de cadeiras entre o Senado e a Câmara dos Representantes segue regras distintas. O Senado, com 100 cadeiras, garante duas vagas para cada um dos 50 estados, independentemente de sua população. Isso significa que estados menos populosos têm o mesmo peso que os mais populosos na Casa Alta. Já na Câmara dos Representantes, as 435 cadeiras são distribuídas proporcionalmente à população de cada estado. Cada deputado representa um distrito eleitoral, uma área geográfica que pode abranger cidades inteiras ou apenas partes delas, desenhadas para ter um número similar de habitantes. Assim, estados mais populosos, como Nova York, têm mais representantes.
Antes das midterms, os partidos realizam eleições primárias para selecionar os candidatos que disputarão cada cargo. Na maioria dos estados e distritos, a disputa final se concentra entre um republicano e um democrata, vencedores de suas respectivas primárias. Candidatos independentes também podem participar, mas geralmente enfrentam maior dificuldade em obter visibilidade e votos.
A Disputa Financeira e Temas Quentes da Campanha
Esta eleição de meio de mandato está a caminho de se tornar a mais cara da história dos EUA, com gastos que já superam a marca de US$ 15 bilhões. O volume de recursos investidos reflete a intensidade da disputa e o que está em jogo para ambos os partidos. Além do financiamento de campanha, outros temas têm dominado o debate eleitoral. O voto pelo correio, por exemplo, tornou-se um dos principais pontos de discussão, com diferentes visões sobre sua segurança e acessibilidade. A “guerra dos mapas eleitorais”, que se refere à disputa entre republicanos e democratas sobre o desenho dos distritos eleitorais (gerrymandering), também é um tema central, pois a configuração dessas áreas pode influenciar diretamente o resultado das eleições.
A apuração dos votos nos EUA, com suas particularidades estaduais e a complexidade do sistema, é um processo que pode se estender. Embora a votação ocorra em 3 de novembro, o resultado final pode levar dias para ser consolidado, especialmente em disputas acirradas e com grande volume de votos antecipados e por correio. A expectativa é alta, e o desfecho destas midterms não apenas moldará o restante do mandato de Donald Trump, mas também poderá reconfigurar o cenário político americano para a próxima eleição presidencial em 2028.