A Trajetória Controversa de Flávio Bolsonaro: Defesas, Condecorações e Vínculos com Acusados de Crimes Graves

Desde o início de sua carreira política na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) até seu atual mandato no Senado Federal, Flávio Bolsonaro (PL) tem mantido um padrão de conduta marcado por defesas judiciais de policiais acusados de crimes graves, condecorações a figuras posteriormente ligadas a milícias e votos controversos em temas de segurança pública. Este histórico, que se estende de 2003 a 2026, revela uma trajetória política e legal que levanta questionamentos sobre sua postura em relação à violência policial e ao crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro, e inclui episódios como a defesa de um PM acusado de matar uma criança e homenagens a líderes do “Escritório do Crime”, um consórcio de pistoleiros.
O Padrão Legislativo e as Contradições
Em 2009, quando ainda era deputado estadual pelo PP, Flávio Bolsonaro foi o único parlamentar na Alerj a votar contra um projeto de lei que visava suspender o porte e a posse de armas de fogo de policiais acusados de violência doméstica contra mulheres. A proposta, baseada na Lei Maria da Penha, buscava autorizar o Estado a reter preventivamente os armamentos institucionais de agentes de segurança denunciados por agressão. Na tribuna, Bolsonaro justificou sua oposição alegando que militares raramente teriam assegurados os direitos à ampla defesa e presunção de inocência, e que muitos policiais poderiam ser vítimas de acusações infundadas, perdendo seu instrumento de trabalho. A lei, de autoria da então deputada Inês Pandeló (PT), foi aprovada e sancionada, tornando-se a Lei Estadual 5.402 de 2009.
Essa postura de 2009, que priorizava a manutenção do armamento de policiais sob investigação por violência doméstica, contrasta significativamente com a plataforma de sua campanha eleitoral em 2026. Atualmente, como candidato, Flávio Bolsonaro promete endurecer o Código Penal para agressores e implantar o monitoramento eletrônico de autores de violência doméstica, indicando uma aparente mudança de posicionamento em relação à proteção das vítimas e à responsabilização dos agressores.
Atuação como Advogado: Defesa de Policiais Acusados de Homicídio
Além de sua atuação legislativa, Flávio Bolsonaro também exerceu a advocacia em defesa de policiais militares acusados de assassinatos no Rio de Janeiro. Em 2024, ele assinou um recurso perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ) como defensor do cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli. O PM foi denunciado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) pela morte da menina Ana Clara Machado, de apenas 5 anos de idade, ocorrida em 2 de fevereiro de 2021, em Niterói. A criança foi atingida por um disparo de fuzil durante um patrulhamento policial, enquanto brincava na porta de casa. A acusação aponta que o PM atirou em direção à área residencial “com vontade livre e consciente, assumindo o risco de matar”, e continuou disparando mesmo após alertas de moradores. A perícia técnica refutou a versão de confronto prévio, encontrando estojos de munição compatíveis com o fuzil de Delaroli e nenhuma marca de tiros na viatura. O recurso de Flávio Bolsonaro, que buscava anular a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) de enviar o policial a júri popular, foi rejeitado pelos ministros do STJ. O senador mantém inscrição suplementar na OAB-DF desde 2021, quando abriu um escritório em Brasília.
Na mesma condição profissional, Flávio integrou a defesa técnica de outros quatro policiais militares do Grupamento de Intervenção Tática (GIT), denunciados por emboscada e homicídio de quatro pessoas no Morro do Vidigal, em janeiro de 2020. Segundo a acusação do Ministério Público, os agentes invadiram um imóvel e aguardaram horas para disparar contra as vítimas de cima para baixo, sem chance de reação. A defesa, também subscrita pelo parlamentar, tentou retirar o julgamento da competência do tribunal do júri.
Honrarias e Vínculos com Figuras do Crime Organizado
A trajetória de Flávio Bolsonaro na Alerj foi igualmente marcada por condecorações formais concedidas a lideranças paramilitares. Em 2003, ele concedeu moção de louvor e congratulações ao então tenente da PM Adriano Magalhães da Nóbrega. Dois anos depois, em 9 de setembro de 2005, o parlamentar dirigiu-se pessoalmente ao Batalhão Especial Prisional (BEP) da PM, em Benfica, para entregar a Medalha Tiradentes, a honraria máxima do Legislativo fluminense, a Nóbrega, que já estava preso preventivamente há mais de um ano pelo assassinato do guardador de carros Leandro dos Santos Silva.
Adriano da Nóbrega foi posteriormente expulso da corporação e identificado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil como líder da milícia de Rio das Pedras e chefe do Escritório do Crime, um consórcio de pistoleiros de aluguel especializado em execuções sumárias. Ele permaneceu foragido até fevereiro de 2020, quando foi morto durante uma operação policial na Bahia. Em depoimento ao Ministério Público em 2020, Flávio Bolsonaro admitiu que Nóbrega foi seu instrutor particular de tiro. A relação se estendeu ao seu gabinete parlamentar na Alerj, onde a mãe de Nóbrega, Raimunda Veras Magalhães, e a ex-esposa, Danielle Mendonça da Costa, foram nomeadas como assessoras comissionadas. Essas nomeações foram articuladas pelo ex-policial Fabrício Queiroz, que também foi homenageado com moção de louvor por Flávio em 2003 por “excepcional comportamento” e, posteriormente, apontado pelas investigações como o operador central do esquema de desvio de salários, conhecido como “rachadinhas”, no Legislativo. Em sabatinas eleitorais em 2026, Flávio declarou que considerava Nóbrega um “policial exemplar” na ocasião da homenagem prisional e alegou que não poderia responder pelo futuro do homenageado.
Outra figura condecorada por Flávio Bolsonaro foi o então capitão da PM Ronald Paulo Alves Pereira. Em março de 2004, Flávio aprovou na Alerj uma moção de louvor e congratulações a Pereira, apenas três meses após o oficial passar a ser investigado como um dos suspeitos da Chacina da Via Show, ocorrida em dezembro de 2003, na Baixada Fluminense, que resultou na execução de cinco jovens. O texto da moção, assinado por Flávio, elogiava serviços prestados em uma operação no Complexo da Maré que deixou três mortos. Anos depois, as investigações do caso Marielle Franco apontaram o já major Ronald como líder do Escritório do Crime, ao lado de Adriano da Nóbrega. Em março de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Ronald Pereira a 56 anos de prisão por planejar o monitoramento e a execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
A Conexão com o Caso Marielle Franco
O vínculo de Flávio Bolsonaro com condenados pelo homicídio de Marielle Franco não se limitou a Ronald Pereira. Já no exercício de seu mandato no Senado Federal, em 2023, o gabinete de Flávio direcionou R$ 200 mil em emenda parlamentar federal (Emenda 92190012-2023) para um projeto esportivo na Taquara, uma região conhecida como reduto de milícias na zona oeste do Rio de Janeiro. O recurso foi solicitado diretamente por Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, sargento reformado da PM e assessor de Domingos Brazão. “Peixe”, que se referia a Flávio como “nosso Senador” em mensagens obtidas pela Polícia Federal, foi condenado a nove anos de prisão como integrante da organização criminosa armada que assassinou Marielle.
Declarações Polêmicas e Oposição à Investigação
O posicionamento público de Flávio Bolsonaro em relação à letalidade policial também gerou controvérsia. Após o assassinato da magistrada Patrícia Acioli, titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, executada com 21 tiros em 11 de agosto de 2011 por policiais militares que ela havia mandado prender, Flávio publicou nas redes sociais: “Que Deus tenha essa juíza, mas a forma absurda e gratuita com que ela humilhava policiais nas sessões contribuiu p ter mts inimigos”. A declaração provocou protestos de entidades da magistratura, mas a publicação original nunca foi apagada pelo parlamentar.
Na esfera política da Alerj, Flávio Bolsonaro também exerceu oposição solitária à abertura e aos desdobramentos da CPI das Milícias, instalada em 2008 após o sequestro e tortura de jornalistas na favela do Batan. Essa resistência à investigação de grupos paramilitares reforça o padrão de sua trajetória em relação à segurança pública e à responsabilização de agentes do Estado.
A análise do histórico de Flávio Bolsonaro revela uma série de ações e posicionamentos que, ao longo dos anos, o conectaram a temas sensíveis como a violência policial, a atuação de milícias e a defesa de indivíduos acusados de crimes graves. Essa trajetória contínua, marcada por escolhas legislativas, defesas jurídicas e homenagens a figuras controversas, permanece um ponto central no debate sobre sua atuação política e seu papel na segurança pública do Rio de Janeiro e do Brasil.