Roberto Razuk, figura outrora proeminente na política de Mato Grosso do Sul, faleceu aos 85 anos nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Sua morte ocorre em um momento de profunda complexidade, enquanto o ex-deputado cumpria prisão domiciliar com monitoramento eletrônico, uma medida imposta desde novembro de 2025 no contexto da Operação Successione. Razuk era investigado por sua suposta ligação com uma organização criminosa de grande porte, acusada de exploração de jogos ilegais, corrupção e outros crimes graves, incluindo roubos com uso de arma de fogo. O falecimento de Razuk, que pediu para ser cremado sem velório, encerra um capítulo de sua vida marcado tanto pela atuação pública quanto pelas sombras de acusações criminais que pairavam sobre ele.
A notícia do óbito foi confirmada pela esposa, Délia Razuk, que informou que o ex-parlamentar estava internado e recebia cuidados paliativos devido a problemas de saúde severos. A decisão de não realizar velório ou cerimônias fúnebres, conforme desejo expresso por Razuk, adiciona um tom de discrição ao desfecho de uma vida que, em grande parte, foi vivida sob os holofotes. Nascido em Campo Grande, Roberto Razuk construiu sua trajetória política na cidade de Dourados, onde se tornou uma figura influente.
A Operação Successione, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), foi o epicentro das últimas controvérsias envolvendo Roberto Razuk. Ele era um dos principais alvos da quarta fase da operação, que desvendou uma rede complexa e violenta dedicada à exploração do jogo do bicho e outras atividades ilícitas. As acusações contra Razuk eram de integrar uma organização criminosa armada, com ramificações em corrupção e a prática de roubos. A gravidade das imputações contrastava drasticamente com sua imagem de ex-parlamentar e constituinte.
A prisão domiciliar, com monitoramento por tornozeleira eletrônica, foi concedida em novembro de 2025 após um pedido da defesa que alegava o estado de saúde extremamente frágil do ex-deputado. Os advogados argumentaram que Razuk necessitava de uso contínuo de oxigênio, fazia tratamento com múltiplos medicamentos e enfrentava um “risco iminente de óbito” caso permanecesse em ambiente carcerário, considerado incompatível com sua condição clínica. O Ministério Público, após análise, manifestou-se favorável à prisão domiciliar, desde que fossem cumpridas rigorosas medidas cautelares, como o controle estrito de suas saídas e a proibição de contato com outros investigados, exceto seus filhos, que também eram alvos da mesma operação. Essa condição sublinha a dimensão familiar do envolvimento nas atividades criminosas investigadas.
A carreira política de Roberto Razuk foi marcada por dois mandatos como deputado estadual em Mato Grosso do Sul, exercidos entre 1987 e 1995. Durante esse período, ele participou ativamente dos trabalhos constituintes que culminaram na promulgação da Constituição do estado em 1989, um marco fundamental para a organização política e jurídica sul-mato-grossense. Sua atuação no legislativo o consolidou como uma figura de relevância no cenário político regional, contribuindo para a formulação de leis e para os debates que moldaram o estado.
A Operação Successione, da qual Razuk era alvo, revelou a complexidade e a abrangência das atividades criminosas ligadas ao jogo do bicho em Mato Grosso do Sul. A investigação do Gaeco não se limitou a um único indivíduo, mas desmantelou uma estrutura que envolvia diversas pessoas, incluindo figuras públicas e familiares. O caso de Razuk, em particular, levantou questões sobre a infiltração do crime organizado em esferas de poder e a dualidade entre a vida pública e as atividades ilícitas. A operação, com suas múltiplas fases e mandados de prisão, expôs a persistência e a sofisticação de grupos criminosos que operam na região, desafiando as autoridades e corroendo a confiança nas instituições.
O falecimento de Roberto Razuk, portanto, não é apenas o fim de uma vida, mas também o encerramento de um processo judicial que, embora não tenha chegado a uma sentença final para ele, já havia exposto a fragilidade de sua imagem pública. A Operação Successione continua a reverberar, com outros desdobramentos e investigações em curso, buscando desarticular completamente a rede criminosa. A trajetória de Razuk, que ascendeu na política e terminou seus dias sob a sombra de graves acusações, serve como um lembrete contundente dos desafios enfrentados pelo Brasil na luta contra a corrupção e o crime organizado, especialmente quando estes se entrelaçam com o poder. Seu legado será, inevitavelmente, analisado sob a lente dessas contradições, entre o serviço público e as suspeitas de envolvimento com o submundo do crime. A complexidade de sua figura e o impacto das investigações permanecem como um ponto de reflexão sobre a ética e a responsabilidade na vida pública brasileira.