Em um desdobramento crucial para o cenário político brasileiro, o ex-candidato à Presidência da República pelo Avante, Augusto Cury, declarou na noite de domingo, 4 de outubro de 2026, que não manifestará apoio a nenhum dos dois postulantes que disputarão o segundo turno das eleições presidenciais: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A decisão, comunicada a jornalistas, marca um “silêncio” deliberado do terceiro colocado na corrida eleitoral e sinaliza sua intenção de se afastar definitivamente da vida político-partidária, deixando uma parcela significativa do eleitorado sem uma orientação direta na reta final da disputa, agendada para 25 de outubro.
A postura de neutralidade de Cury, que obteve expressivos 3,44 milhões de votos (2,89% dos votos válidos) no primeiro turno, ressoa com a principal bandeira de sua campanha: o combate à polarização política. Ao optar por não endossar nem Lula nem Flávio Bolsonaro, o psiquiatra e escritor mantém-se fiel ao seu discurso de buscar uma via de diálogo e moderação, evitando associar-se a um dos lados da intensa dicotomia que tem caracterizado o embate eleitoral. Sua declaração foi enfática: “Eu me silencio completamente em relação àqueles que estarão no segundo turno. Ninguém está autorizado em meu nome e nem em nome do Júlio Delgado, coordenador da campanha, a pedir ou dizer que vai apoiar qualquer um dos candidatos.” Essa proibição explícita visa blindar sua imagem e a de sua equipe contra qualquer tentativa de vinculação ou especulação sobre um eventual apoio velado.
A decisão de Cury de se manter neutro não é apenas um ato de coerência, mas também um movimento estratégico que pode ter múltiplas interpretações e impactos. Para os milhões de eleitores que depositaram sua confiança em sua proposta de uma “terceira via”, a ausência de um direcionamento oficial pode gerar um dilema. Parte desse eleitorado pode se sentir desamparada, enquanto outra parcela pode ver na neutralidade de Cury um incentivo para seguir sua própria consciência, seja votando em um dos candidatos, anulando o voto ou se abstendo. A imprevisibilidade sobre como esses votos se redistribuirão adiciona uma camada de complexidade a um segundo turno já apertado, onde Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno em primeiro lugar com 47,03% dos votos válidos, e Lula em segundo, com 45,16%. A margem estreita entre os dois líderes torna cada voto, e a influência de figuras como Cury, potencialmente decisiva.
Além da neutralidade no segundo turno, Augusto Cury aproveitou o momento para anunciar uma decisão ainda mais contundente: seu afastamento da vida político-partidária. “Hoje eu tenho claro dentro de mim 100% de convicção que eu não vou continuar na política. Amanhã ninguém sabe, mas eu costumo não mudar de opinião quando eu tenho uma convicção muito grande, até porque nós temos vários projetos”, afirmou. Embora deixe uma pequena porta aberta para o futuro, a convicção expressa por Cury sugere um retorno às suas atividades como escritor, psiquiatra e desenvolvedor de projetos na área da educação e inteligência emocional, campos nos quais já possui reconhecimento internacional. Sua incursão na política, embora breve, foi marcada por uma tentativa de humanizar o debate e trazer pautas ligadas à saúde mental e ao desenvolvimento socioemocional para o centro da agenda pública.
A saída de Cury da política partidária levanta questões sobre o espaço para candidaturas que buscam transcender a polarização no Brasil. Sua campanha, focada em propostas de diálogo e na construção de pontes entre diferentes ideologias, representou um anseio de parte da sociedade por alternativas aos extremos. O fato de ter conquistado milhões de votos, mesmo sem o apoio de grandes estruturas partidárias ou tempo de televisão massivo, demonstra que há um eleitorado receptivo a mensagens que fogem do confronto direto. No entanto, a dificuldade de converter essa receptividade em uma vitória eleitoral no atual cenário político brasileiro, profundamente dividido, é um desafio que Cury experimentou em primeira mão.
Após a apuração do primeiro turno, Cury divulgou uma carta aberta na qual agradeceu aos seus eleitores e cumprimentou Lula e Flávio Bolsonaro pela classificação. Mais do que um gesto protocolar, a carta continha um apelo veemente aos dois presidenciáveis para que considerassem suas propostas durante o próximo governo e, acima de tudo, defendessem um diálogo maior entre diferentes posições políticas. A essência de sua mensagem foi encapsulada em um trecho que se tornou um manifesto contra a intolerância: “Quero que um conservador consiga ouvir um progressista sem odiá-lo; que um progressista consiga conversar com um conservador sem desumanizá-lo; que possamos criticar ideias sem destruir pessoas. Quem ganhar torço para que governe pensando em um Brasil de esperança.”
Essa visão de um Brasil onde a crítica de ideias não se confunde com a destruição de pessoas é um legado que Augusto Cury tenta deixar para o debate público, independentemente de sua permanência na política partidária. Em um país onde a retórica política frequentemente descamba para ataques pessoais e desumanização do adversário, a voz de Cury ecoa como um lembrete da importância da civilidade e do respeito às diferenças. Sua decisão de se silenciar sobre apoios no segundo turno, portanto, pode ser vista não como uma omissão, mas como uma última e poderosa declaração de princípios, reforçando a ideia de que a verdadeira vitória reside na capacidade de construir pontes, e não de aprofundar abismos. O segundo turno, que se avizinha, será um teste não apenas para os candidatos, mas para a própria capacidade do país de absorver e praticar a mensagem de diálogo e tolerância que Cury tanto defendeu.