Nesta quarta-feira, 7 de outubro de 2026, Valdemar Costa Neto, presidente nacional do Partido Liberal (PL), fez uma declaração contundente que reverberou no cenário político brasileiro, admitindo publicamente o planejamento de um golpe de Estado no final do governo de Jair Bolsonaro, após a derrota nas eleições de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, o dirigente partidário minimizou a gravidade da articulação, argumentando que a discussão de uma ruptura institucional sem sua concretização não deveria ser considerada crime, ao mesmo tempo em que defendeu veementemente a anistia para os condenados pela tentativa golpista e pelos atos de 8 de janeiro de 2023, em um momento crucial onde seu partido disputa o segundo turno da eleição presidencial com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à frente de Lula.
A admissão de Valdemar Costa Neto veio em resposta direta a um questionamento do apresentador Paulo Germano, que perguntou se ele reconhecia a existência de um “planejamento” de golpe. A resposta foi afirmativa e sem rodeios: “Não tenha dúvidas. Quantos planejamentos você não faz e vê que depois que está errado e para no meio?”, declarou o presidente do PL. Ele reforçou sua tese comparando o planejamento golpista ao planejamento de um assassinato, afirmando que “a lei diz que você pode planejar um assassinato, mas se você não assassinou o camarada, e não tentou, não é crime”. Ao abordar as articulações pós-eleição de 2022, Valdemar questionou: “tudo bem, discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe, e daí?”. Essa linha de argumentação busca desqualificar a gravidade das ações, focando na não concretização do ato final.
A defesa da anistia foi um ponto central da entrevista, com Valdemar Costa Neto expressando a intenção de “soltar todos os militares que estão presos injustamente”. A pauta da anistia ganha relevância no contexto da atual disputa presidencial, onde Flávio Bolsonaro, candidato do PL, está no segundo turno e demonstrou otimismo com a possibilidade de seu pai, Jair Bolsonaro, ser beneficiado por tal medida em um eventual governo. As investigações sobre a trama golpista resultaram na condenação de 1.402 pessoas por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro e à tentativa de golpe. Dentre os 29 indivíduos que integram os principais núcleos do planejamento, destacam-se figuras como Jair Bolsonaro, os generais Walter Braga Netto, Paulo Sérgio Nogueira e Augusto Heleno, além de Alexandre Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
As apurações da Polícia Federal revelaram detalhes perturbadores, como o chamado plano “Punhal Verde e Amarelo”, que, segundo a investigação, previa o assassinato de figuras-chave como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A trama golpista, conforme a Polícia Federal, buscava criar condições para impedir a posse de Lula e reverter o resultado da eleição presidencial de 2022. Militares das Forças Especiais teriam chegado a monitorar o ministro Alexandre de Moraes e realizado uma ação em 15 de dezembro de 2022 para avaliar a possibilidade de prendê-lo ou assassiná-lo. A gravidade desses fatos contrasta diretamente com a tentativa de Valdemar Costa Neto de minimizar o planejamento como algo inofensivo por não ter sido “concretizado”.
Questionado sobre a possibilidade de uma articulação semelhante ocorrer novamente em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, Valdemar Costa Neto inicialmente respondeu com um evasivo “Sei lá, sei lá”. No entanto, ele rapidamente descartou a ideia, citando as consequências sofridas por Jair Bolsonaro. “Pode haver planejamento, não existe isso. Isso deu certo? Olha o Bolsonaro, o que tá pagando? Você acha que alguém quer fazer isso? Nunca, jamais”, afirmou, indicando que o custo político e pessoal da tentativa frustrada de golpe seria um dissuasor para futuras ações.
O papel de Jair Bolsonaro em um possível governo de seu filho, caso anistiado, também foi abordado. Valdemar esclareceu que o ex-mandatário não ocuparia um cargo formal, mas continuaria a exercer uma influência política significativa. “Bolsonaro logicamente vai dar opinião no governo, não tenho dúvida disso. Mas não vai fazer parte do governo”, declarou, sugerindo um papel de conselheiro informal, mas poderoso.
A entrevista também tocou em propostas de mudanças constitucionais defendidas por Flávio Bolsonaro durante uma agenda com Ronaldo Caiado (PSD). Valdemar Costa Neto inicialmente mencionou preocupações com a “parte tributária”, o excesso de impostos e o número de ministérios. Posteriormente, ele apontou o fim da reeleição como uma das mudanças constitucionais pretendidas pelo candidato do PL. Essas propostas sinalizam uma agenda de reformas profundas que poderiam alterar a estrutura do Estado brasileiro.
Outro tema quente da campanha, a pauta de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), defendida por integrantes do PL e pelo próprio Flávio Bolsonaro, foi tratada com cautela por Valdemar. Ele evitou garantir que eventuais pedidos de afastamento seriam levados adiante, defendendo que o assunto seja debatido no Congresso. “Isso precisa ser discutido. O ideal para nós era que o Supremo resolvesse os problemas dentro do Supremo, mas é uma pauta que vai ter uma discussão grande. Não vamos resolver nada com guerra, na minha opinião. Temos que ter habilidade de tocar o país para frente. Se brigar com Supremo, Legislativo, isso atrasa o país”, ponderou, apesar de O Globo reportar que ao menos 49 senadores apoiam a pauta de impeachment de ministros do STF.
Demonstrando otimismo com a vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno, Valdemar Costa Neto confirmou que Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal, terá uma participação ativa na campanha. Elogiando a capacidade eleitoral da ex-primeira-dama, ele afirmou que ela poderá percorrer o país em apoio ao candidato do PL. “Agora ela vai poder andar o Brasil nesse período para trabalhar para o Flávio para valer. Ela tem muito talento, faz muita falta em todo lugar. É uma craque”, concluiu, ressaltando a importância de Michelle para a mobilização do eleitorado. As declarações de Valdemar Costa Neto, em meio à efervescência do segundo turno presidencial, lançam luz sobre as intenções e estratégias do PL e de seus líderes, ao mesmo tempo em que reacendem o debate sobre a tentativa de golpe e a impunidade no Brasil.