A cena musical brasileira e internacional perdeu uma de suas vozes mais singulares. Karina Zeviani, cantora que emprestou seu talento a projetos de renome global como o americano Thievery Corporation e o francês Nouvelle Vague, faleceu nesta quinta-feira, 1º de outubro de 2026, aos 51 anos, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Sua morte encerra uma batalha de dois anos contra um câncer de mama que, nos últimos meses, progrediu agressivamente para o fígado, levando-a a buscar apoio em uma vaquinha online para custear o tratamento. O velório da artista será realizado nesta sexta-feira, 2 de outubro, no Complexo Terra Nossa, em Jaboticabal, sua cidade natal, com cerimônia aberta ao público das 9h às 17h.
### Das Raízes Paulistas aos Palcos Globais: A Formação de uma Artista
Nascida em Jaboticabal, no interior paulista, Karina Zeviani teve sua musicalidade moldada desde a infância. Sua primeira experiência com a música foi como a “menina da batuta” em uma fanfarra de 80 integrantes, regida por seu próprio pai, uma imagem que evoca a disciplina e a paixão pela arte desde cedo. A influência familiar se estendeu à música popular brasileira e às melodias tradicionais que seu avô habilmente extraía do acordeão, criando um repertório sonoro rico e diversificado em sua memória afetiva.
Na adolescência, Karina enveredou pelo mundo da moda, iniciando uma carreira como modelo fotográfico. Foi esse trabalho que a levou à Alemanha, um ponto de virada inesperado onde, em um karaokê, ela descobriu e abraçou sua verdadeira vocação: o canto. O que começou como uma brincadeira entre amigos rapidamente se transformou em um compromisso sério, com apresentações semanais que lapidaram sua performance e a prepararam para voos mais altos.
### A Conquista de Nova York e a Ascensão Internacional
O ano de 2003 marcou a chegada de Karina Zeviani a Nova York, onde rapidamente fez seu nome no renomado Nublu, um clube no Lower East Side conhecido por ser um berço de talentos. Foi nesse cenário efervescente que ela cruzou caminho com o percussionista brasileiro Mauro Refosco, uma conexão que se provaria fundamental. Refosco, impressionado com o trabalho de Karina, entregou uma cópia de seu disco ao brasilianista emérito David Byrne, o icônico líder dos Talking Heads.
Byrne, que na época estava envolvido com o Thievery Corporation em um projeto de trip-hop com nuances brasileiras, viu em Karina a voz ideal para o grupo. A oportunidade surgiu em um momento delicado para a banda, após o suicídio de Pam Bricker, vocalista de seus maiores sucessos. Em 2005, Karina Zeviani mergulhou no “turbilhão de gravações e shows” com o Thievery Corporation, consolidando sua presença no cenário internacional. No entanto, após três anos, a repetição das mesmas músicas trouxe um “enfado” natural à artista, que buscava novos desafios.
A resposta veio na forma de um convite para integrar o Nouvelle Vague, a aclamada banda francesa que se especializou em criar versões bossa nova de clássicos do pós-punk e da new wave. Com o Nouvelle Vague, Karina encontrou um novo palco para sua versatilidade, interpretando com sua voz suave e marcante canções que ganhavam uma nova roupagem e alma.
### O Retorno ao Brasil e a Carreira Solo: “Pop Artesanal” e Colaborações
Em fevereiro de 2011, Karina Zeviani decidiu retornar ao Rio de Janeiro para dar início à sua carreira solo. Incentivada por Marc Collin, um dos líderes do Nouvelle Vague, ela lançou seu primeiro disco solo, “Amor Inventado”, no ano seguinte. O álbum foi uma verdadeira jornada musical, com gravações que se estenderam por Paris, Nova York, São Paulo e Salvador, refletindo a amplitude de suas experiências e influências.
“Amor Inventado” reuniu canções nascidas de diversas inspirações, desde a circense “Buiu” até o quase-fado “Carta”, demonstrando a capacidade de Karina de transitar por diferentes estilos com autenticidade. Em entrevista ao GLOBO em 2012, ela descreveu o trabalho como tendo “uma pegada quase infantil”, onde sua “musicalidade instintiva e rudimentar foi preservada”. Ela cunhou o termo “pop artesanal” para definir sua sonoridade, uma expressão que encapsulava a originalidade e o cuidado em cada nota. “Já fiz o que tinha que fazer lá fora”, afirmou, indicando um novo foco em sua expressão artística pessoal.
Cinco anos depois, em 2017, Karina Zeviani voltou à cena musical com “Flor de Sal”, álbum de estreia da dupla de mesmo nome, formada com o talentoso músico e cantor Micael Amarante. A colaboração evidenciou sua constante busca por novas formas de expressão e parcerias criativas. Em 2020, sua voz e carisma foram novamente destaque ao participar da nona temporada do “The Voice Brasil”, levando sua arte a um público ainda mais amplo no país.
### A Luta Contra o Câncer: Coragem e Resiliência em Palco e Redes Sociais
A vida de Karina Zeviani, no entanto, foi marcada nos últimos dois anos por uma batalha árdua e pública contra um câncer de mama. Em 2024, durante um show do Nouvelle Vague no Circo Voador, no Rio de Janeiro, ela subiu ao palco e, comoventemente, falou sobre sua luta contra a doença, revelando a gravidade de seu quadro. Em abril deste ano, com o agravamento da condição desde janeiro, a cantora recorreu às redes sociais para abrir uma vaquinha online, buscando ajuda para custear o tratamento.
Em um vídeo emocionante, Karina compartilhou sua experiência: “Há pouco tempo, eu realmente tive uma crise sistêmica gravíssima, em que eu cheguei muito perto de perder minha vida, mas agora eu já estou num novo protocolo de quimioterapia. A gente teve que trocar o protocolo e eu estou em recuperação, e eu estou, obviamente, me sentindo muito melhor”. Sua franqueza e vulnerabilidade tocaram milhares de fãs e admiradores.
Ela descreveu a fragilidade física que a doença impôs: “Mas é verdade que eu saí de lá e não conseguia nem me levantar sem ajuda, nem me levantar de uma cadeira. Eu saí muito fraquinha e eu estou, portanto, muito grata por estar viva, e eu estou muito disposta e pronta para vencer, sabe, essa doença, para controlar essa doença, e eu já me considero uma vencedora.” Acompanhada pela equipe do oncologista Antonio Carlos Buzaid nos últimos dias, Karina Zeviani demonstrou até o fim uma força inabalável e uma esperança contagiante, transformando sua dor em um testemunho de resiliência.
Sua partida deixa um vazio na música, mas seu legado de talento, coragem e a capacidade de reinventar-se e inspirar, seja nos palcos internacionais ou na luta pessoal, permanecerá vivo na memória de todos que foram tocados por sua voz e sua história.