**Hoje, 22 de setembro de 2026, o cenário econômico brasileiro é marcado por um alerta significativo: o programa Desenrola Brasil, concebido para aliviar o endividamento das famílias, enfrenta uma taxa de inadimplência de 30,34% nas operações de renegociação de dívidas. Diante desse quadro, o governo federal, por meio do Ministério da Fazenda, já estuda uma nova e ambiciosa versão do programa, que consistiria na “compra” de débitos antigos, predominantemente da época da pandemia de Covid-19. A iniciativa, no entanto, esbarra em um complexo debate jurídico sobre sua viabilidade em pleno ano eleitoral, levantando questões cruciais sobre o impacto nas contas públicas e a busca por recuperação da aprovação governamental.**
A Inadimplência do Novo Desenrola: Um Sinal de Alerta
Lançado em maio de 2026, o Novo Desenrola Brasil renegociou um total de 5,54 milhões de dívidas, somando R$ 28,37 bilhões em compromissos financeiros. Após a aplicação de descontos substanciais, o montante caiu para R$ 5,71 bilhões. Desse total, 2,25 milhões de operações resultaram em novos empréstimos com juros reduzidos, enquanto o restante foi quitado à vista. Contudo, os dados obtidos pelo GLOBO junto ao Fundo Garantidor de Operações (FGO), responsável por cobrir a inadimplência nessas operações, revelam que quase um terço das novas operações – precisamente 30,34% – já estão inadimplentes este mês. Em relação ao saldo da carteira, que considera apenas as parcelas ainda devidas, o percentual de não pagamento atinge 37,4%, ou R$ 1,25 bilhão de um total de R$ 3,3 bilhões.
Essa alta taxa de não pagamento é um sinal preocupante, especialmente porque o programa tinha como objetivo primordial sanear o orçamento das famílias e abrir espaço em sua renda. Embora o Desenrola tenha conseguido reduzir o custo de dívidas antigas para milhões de brasileiros, a persistência da inadimplência sugere que, para uma parcela significativa da população atendida, o alívio não foi suficiente para equilibrar todos os compromissos financeiros. O Ministério da Fazenda, em nota, afirmou que nenhuma operação foi coberta pelo FGO até o momento e que os dados estão sendo checados junto às instituições financeiras, pois o número pode incluir operações canceladas onde a primeira parcela não foi paga, mantendo a dívida original. De qualquer forma, a proporção de novas operações sem pagamento é inegável e acende um alerta sobre a sustentabilidade do alívio oferecido.
A Nova Proposta: Compra de Dívidas Antigas e o Dilema Eleitoral
Diante do cenário de inadimplência e da persistência do alto endividamento, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou nesta semana, em entrevista ao Extra, que apresentará ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma nova iniciativa. A ideia é ir além das renegociações e combater o endividamento sem que as pessoas precisem fazer novas negociações. A proposta central é que o governo “compre” dívidas de famílias, especialmente aquelas contraídas na época da pandemia de Covid-19, com um deságio significativo obtido por meio de leilões entre os credores.
O mecanismo exato ainda está em discussão, mas o desenho que estava com a área técnica previa que a dívida fosse comprada pelo Tesouro e, em seguida, cancelada – configurando um perdão do débito. O foco seriam dívidas antigas (com prazos entre dois e cinco anos), de baixo valor e com pouca perspectiva de recuperação pelos credores. Cenários otimistas preveem deságios entre 95% e 97%, o que, se confirmado, poderia reduzir em 50% o estoque de dívidas e o número de pessoas inadimplentes no país.
No entanto, a viabilidade jurídica dessa nova versão do Desenrola em um ano eleitoral (2026) é o principal entrave. A dúvida reside na aplicabilidade das restrições eleitorais que proíbem a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública em período de campanha. A ala governista que não vê impedimentos argumenta que a segunda versão do Desenrola já está em execução este ano. Contudo, a compra e eventual perdão de dívidas representaria uma nova abordagem, com o governo assumindo diretamente o débito, o que poderia ser interpretado como um benefício eleitoral.
Impacto Orçamentário e Motivações Políticas
A compra de dívidas pelo governo, seja para mantê-las como ativo a receber em seu balanço ou para o cenário favorito de cancelamento imediato, implica em despesa primária. Isso significa que a operação depende da abertura de espaço orçamentário, um desafio constante para as contas públicas. A intenção de Durigan é apresentar uma alternativa que reduza o estoque de dívidas antigas sem um impacto elevado nas finanças do Estado.
A decisão final sobre o lançamento do programa no período eleitoral dependerá do parecer da área jurídica. Se o sinal for positivo, restará a escolha estratégica de lançar antes ou depois do primeiro turno das eleições. Caso os pareceres sejam contrários, a medida pode ser transformada em promessa de campanha, a ser executada apenas em um eventual próximo mandato. De qualquer forma, a busca por uma nova medida para aliviar o endividamento reflete uma preocupação do governo em melhorar a percepção da população e recuperar pontos perdidos em aprovação e intenção de voto.
O Desenrola 2.0 em Detalhes e o Legado da Primeira Edição
O Desenrola 2.0, cujas renegociações ocorreram entre 5 de maio e 31 de agosto de 2026 (após prorrogação dos 90 dias iniciais), era elegível para pessoas com renda de até 5 salários mínimos (R$ 8.105), com parcelas vencidas de empréstimos como cheque especial, crédito pessoal sem garantia (CDC) ou fatura de cartão de crédito, com atraso entre 90 dias e dois anos. Apenas dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 foram incluídas.
Os descontos oferecidos variavam significativamente: entre 40% e 90% para cheque especial e rotativo do cartão, e entre 30% e 80% para CDC e parcelado do cartão. O novo saldo podia ser pago à vista ou parcelado em até 48 meses, com taxa de juros limitada a 1,99% ao mês. Para bancar esses descontos e garantir a atratividade do programa, os novos empréstimos resultantes das renegociações contavam com a garantia do FGO.
A primeira edição do programa, lançada em 2023, já havia renegociado R$ 53,07 bilhões em dívidas de cerca de 15 milhões de pessoas. Desse montante, R$ 25,57 bilhões eram referentes ao público-alvo de renda de até dois salários mínimos, cujas operações também tinham garantia do FGO. A comparação entre as edições e a análise da inadimplência atual são cruciais para entender os desafios persistentes do endividamento no Brasil e a busca contínua do governo por soluções eficazes, mesmo em meio a complexidades jurídicas e políticas. A decisão sobre a compra de dívidas antigas, e seu timing, será um marco importante na política econômica e social do país nos próximos meses.