Hopi Hari Sob Investigação: Jovem Perde Movimentos Após Acidente Grave na Montezum, MP Apura Casos de Lesões Sérias

A história de Júlia e seu namorado, João Pedro Bossoni, começou como a de muitos casais em busca de diversão. Em abril de 2026, eles viajaram de Londrina, no Paraná, até Vinhedo, com a expectativa de um dia inesquecível no Hopi Hari. A Montezum, a maior montanha-russa de madeira da América Latina, inaugurada em 1999, com seus 42 metros de altura e velocidade de até 103 km/h, era uma parada obrigatória. Na primeira vez, o casal se divertiu sem intercorrências, inclusive ganhando um passaporte VIP para um novo passeio.
No entanto, a segunda viagem na Montezum, no fim da tarde daquele mesmo dia, transformaria a vida de Júlia para sempre. Câmeras do parque registraram o casal sentando-se em um dos bancos de trás. Na subida, Júlia parecia consciente e tranquila. Dois minutos depois, quando o carrinho retornou à plataforma, ela estava desacordada e convulsionando. “Ela já estava inconsciente, já estava convulsionando e nesse momento você fica desesperado, não sabe o que fazer”, relatou João Pedro, em choque.
Apesar do desespero, a resposta inicial do parque foi questionável. Funcionários se aproximaram, mas Júlia só foi colocada em uma maca e removida após seis minutos. Chocantemente, a montanha-russa voltou a funcionar logo em seguida. Júlia foi levada às pressas para a Santa Casa de Vinhedo, a cerca de 15 quilômetros do parque, e encaminhada diretamente para a UTI devido à gravidade de seu estado.
Os exames iniciais revelaram uma hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral, exigindo uma cirurgia de emergência. “Foi uma craniectomia descompressiva. Essa cirurgia visa a retirada de uma grande porção da calota craniana para permitir o cérebro fazer esse processo de inchaço”, explicou o neurocirurgião Victor Batistela. O diagnóstico foi traumatismo cranioencefálico (TCE), causado, segundo o laudo médico, por um mecanismo de contragolpe durante o passeio na montanha-russa. “Apenas um movimento brusco de aceleração e desaceleração e rotação do crânio pode fazer a ruptura de vasos sanguíneos cerebrais, causando uma hemorragia intracraniana e levando a um edema cerebral, que foi o caso da Júlia em especial”, detalhou o especialista.
A família de Júlia, que não tinha doenças pré-existentes, vive um drama. Após 57 dias internada em Vinhedo e sete cirurgias, Júlia ainda luta para recuperar os movimentos. “Ela perdeu o movimento do lado esquerdo completamente. O braço e a perna, ela não movimenta. Ela tem dificuldade de fala, memórias turvas”, conta João Pedro. A mãe, Danielle Rimolli, e João Pedro se revezam nos cuidados intensivos, que incluem fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia diárias. A família entrou na Justiça para exigir uma perícia que esclareça as circunstâncias exatas do acidente, enquanto Júlia busca, cinco meses depois, sua independência e felicidade novamente.
Um Padrão de Acidentes e Vítimas Anteriores
O caso de Júlia não é isolado. A Montezum já foi palco de outros acidentes graves. Em 2018, Nathalia Assenjo Motta sofreu um deslocamento de vértebras que a fez precisar de 12 pinos e duas hastes na região cervical. “Conforme a montanha-russa desceu e subiu para fazer a curva, o meu pescoço fez o mecanismo de chicote, deu aquele estalo. Meu corpo desligou totalmente”, relembra Nathalia. Embora tenha recuperado os movimentos do corpo três dias depois, ela perdeu a mobilidade do pescoço e hoje lida com uma rotina de dores e fisioterapias particulares, tendo recebido indenização do Hopi Hari por danos materiais.
Ainda mais trágico foi o caso de Márcio, um motoboy que, em 2014, após andar na Montezum, ficou tetraplégico devido ao rompimento de duas vértebras e um movimento de chicote, conforme laudo médico. Márcio faleceu em 2023 por complicações decorrentes de uma infecção urinária, nove anos após o acidente que o deixou em uma cadeira de rodas. Seu advogado, João Erhardt, confirmou a relação entre o acidente na atração e a tetraplegia.
Além dos casos mais graves, uma plataforma de avaliação de consumidores registra ao menos 40 relatos nos últimos dois anos de pessoas que alegam ter sofrido lesões na Montezum, incluindo dores no pescoço, lesões no joelho e até costelas quebradas. Esses números, embora contestados pelo parque, apontam para uma preocupação crescente entre os visitantes.
A Resposta do Hopi Hari e a Posição do Ministério Público
Procurado pelo programa Fantástico, o Hopi Hari se manifestou por meio de nota, afirmando que a Montezum possui certificação internacional emitida pelo grupo TÜV Nord, uma das maiores organizações de inspeção e testes de atrações do mundo, e que as inspeções são realizadas anualmente. O parque também declarou seguir rigorosamente as normas nacionais para parques de diversões, a ABNT NBR 15926-2023. A assessoria do parque ressaltou que placas e avisos sonoros alertam sobre as restrições da atração, classificando-a como “radical” e contraindicando-a para pessoas com problemas na coluna, gestantes e portadores de condições clínicas específicas. No momento do embarque, os operadores também reforçam essas informações.
Sobre o caso de Júlia, o Hopi Hari afirmou que a jovem recebeu pronto atendimento, respeitando os protocolos de segurança, e que o parque acompanhou de perto todo o processo de internação, custeando as despesas e franqueando um seguro à família. Em relação a Nathalia e Márcio, a assessoria informou que os casos ocorreram antes de 2019, sob a gestão da administração anterior, buscando distanciar a atual gestão dos incidentes passados. As reclamações em sites de avaliação foram minimizadas pelo parque, que as classificou como um “índice estatístico irrisório” diante do expressivo número de visitantes, que superou um milhão no período.
Curiosamente, a nota do parque destacou um parecer do Ministério Público de São Paulo, emitido em agosto de 2026 – o mesmo mês em que a investigação sobre o caso de Júlia foi aberta – que descarta o risco coletivo da montanha-russa. Este documento foi emitido após uma mulher ser levada à enfermaria com dores no pescoço em julho. A coexistência de uma investigação em andamento sobre um caso grave e um parecer que descarta risco coletivo levanta questões sobre a abrangência e o foco das análises do MP.
Em janeiro de 2026, o Hopi Hari já havia anunciado uma reforma na Montezum, prevista para ocorrer no final deste ano. A expectativa é que essa reforma possa trazer melhorias na segurança e na experiência dos visitantes, mas para Júlia e sua família, a luta por justiça e recuperação continua, com a esperança de que a perícia judicial traga as respostas necessárias e que outros acidentes possam ser evitados no futuro.