Paulo Guedes Sob Investigação da PF por Suspeita de Crimes Financeiros Envolvendo Criptomoedas

O ex-ministro da Economia Paulo Guedes, figura central do governo Jair Bolsonaro, encontra-se sob investigação da Polícia Federal (PF) desde fevereiro de 2026 por suspeita de envolvimento em crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. O inquérito, que tramita sob sigilo na 9ª Vara Federal de Curitiba, Paraná, apura sua relação com a OnilX, uma plataforma de investimentos em criptomoedas que prometia rendimentos expressivos e agora é alvo de uma enxurrada de ações judiciais de clientes que relatam dificuldades para resgatar seus recursos.
A apuração, que também tem como investigado o empresário Fábio Lino de Almeida, proprietário da OnilX, foi instaurada em 10 de fevereiro e é conduzida pela Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal (MPF). O foco principal é a verificação de possíveis infrações à Lei nº 7.492/1986, que tipifica os delitos contra o Sistema Financeiro Nacional. Embora os documentos identifiquem Guedes e Lino como investigados, as condutas específicas atribuídas a cada um não foram detalhadas publicamente, mantendo o processo sob estrito sigilo judicial. Contudo, registros processuais obtidos pelo jornalista Tácio Lorran, do Metrópoles, indicam que o inquérito tem apresentado movimentações contínuas. Em 21 de setembro, a Justiça Federal registrou um despacho com determinações para expedição de intimações a Fábio Lino, à PF e ao MPF. Ao longo de outubro, o procedimento seguiu ativo, com a apresentação de petições e a realização de diligências policiais, cujo conteúdo permanece confidencial.
A Influência de Guedes na OnilX e a Atração de Investidores
A associação do ex-ministro com a OnilX veio à tona em 24 de setembro, quando o Metrópoles revelou que Guedes atuou como consultor para a empresa. Suas atividades incluíam a participação em reuniões estratégicas, encontros com potenciais investidores e a utilização de sua imagem na divulgação dos negócios da plataforma. Em eventos destinados a investidores e assessores comerciais, Guedes chegou a elogiar publicamente a companhia, destacando seu potencial no desenvolvimento do mercado digital para uma plateia de aproximadamente 500 pessoas. Uma publicação institucional da OnilX chegou a exibir uma fotografia de Guedes ao lado de Fábio Lino e executivos da Visa, descrevendo o encontro como de “alta relevância estratégica”, no qual o ex-ministro teria oferecido “suporte e visão” ao empreendimento.
A presença de Guedes nas atividades da OnilX não passou despercebida e começou a ser citada em processos judiciais movidos por investidores que buscam reaver seus valores. Em uma dessas ações, um casal cobra R$ 876,5 mil da companhia, alegando que decidiu manter e até ampliar seus investimentos após participar de uma reunião com Paulo Guedes na sede da empresa, em abril. Quatro meses depois desse encontro, os investidores relatam que tentaram, sem sucesso, realizar o resgate dos recursos. Outro processo judicial trouxe à tona mensagens atribuídas a uma assessora da OnilX que utilizava a proximidade com o ex-ministro como um argumento de venda para atrair novos clientes. Em uma conversa anexada aos autos, a representante afirmava que Guedes “tá dentro da empresa” e que investidores interessados em aplicar entre R$ 3 milhões e R$ 5 milhões poderiam ter uma reunião direta com o ex-ministro para discutir estratégias de investimento. Esses episódios evidenciam como a imagem de Guedes foi estrategicamente associada à plataforma em negociações comerciais e como essa associação foi percebida e mencionada por clientes em suas disputas judiciais. É fundamental ressaltar, contudo, que a participação do ex-ministro nessas atividades, por si só, não constitui uma comprovação de envolvimento em eventuais irregularidades financeiras, conforme destacado na própria reportagem inicial.
Promessas de Altos Rendimentos e a Crise dos Resgates
A OnilX, controlada por Fábio Lino, prometia rentabilidades atrativas de até 2,8% ao mês em investimentos relacionados a criptomoedas. No entanto, nos últimos meses, a promessa se transformou em pesadelo para muitos clientes, que passaram a recorrer à Justiça após enfrentarem dificuldades intransponíveis para reaver o dinheiro aplicado. Um levantamento do Metrópoles identificou um total de 108 ações judiciais contra o grupo entre 12 de junho e 10 de setembro, todas com reclamações semelhantes sobre a impossibilidade de resgatar recursos investidos em operações envolvendo criptomoedas e stablecoins – ativos digitais projetados para manter um valor relativamente estável. Em algumas dessas ações, investidores chegaram a levantar suspeitas de que a OnilX estaria operando um esquema de pirâmide financeira, acusação que a empresa veementemente rejeita, sustentando a regularidade de suas operações no mercado de ativos virtuais.
Intervenção da CVM e a Distinção de Ativos
Paralelamente às disputas judiciais dos clientes, a OnilX também se tornou alvo de medidas administrativas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o órgão regulador do mercado de capitais brasileiro. Em janeiro de 2026, a autarquia determinou a suspensão de ofertas públicas de serviços de intermediação de valores mobiliários realizadas pelo grupo. Essa decisão foi posteriormente mantida pelo colegiado da CVM em abril do mesmo ano, acompanhada de um esclarecimento crucial sobre seu alcance. A CVM especificou que a restrição não se aplica à simples intermediação de criptoativos como Bitcoin, Ethereum e USDT, desde que não haja promessa de rendimento ou a caracterização de um contrato de investimento. Essa distinção é vital, pois certas operações com ativos virtuais podem ser enquadradas como valores mobiliários, dependendo das características da oferta e dos direitos prometidos aos investidores, o que as sujeitaria à regulamentação da CVM.
O inquérito que envolve Paulo Guedes e Fábio Lino permanece em andamento, na esfera criminal, com o objetivo de apurar possíveis infrações à legislação que protege o Sistema Financeiro Nacional. É importante reiterar que, até o momento, as informações divulgadas não indicam a existência de condenação ou permitem concluir que os investigados tenham cometido os crimes sob apuração. Ambos os investigados contam com representação legal de peso: Paulo Guedes é defendido pelos advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso, que também atuam na defesa de Fábio Lino. A complexidade do caso, envolvendo um ex-ministro de alta patente, o mercado volátil de criptomoedas e alegações de fraude financeira, garante que a investigação continuará sob os holofotes, com desdobramentos aguardados pela opinião pública e pelo mercado financeiro.