Eleição em Israel: Netanyahu em Xeque, Partidos Árabes Decidem o Futuro em Disputa Histórica

A votação de hoje não é apenas mais uma eleição; é a primeira desde os devastadores ataques do Hamas que chocaram o país há três anos, transformando a campanha em um campo de batalha dominado por críticas à gestão de Netanyahu e à sua coalizão, composta por partidos religiosos e ultranacionalistas. As falhas de segurança que permitiram os ataques, a controversa isenção dos judeus ultraortodoxos do serviço militar obrigatório e a polêmica reforma judicial, vista por muitos como uma ameaça direta à democracia israelense, tornaram-se os pilares da insatisfação popular. Yaakov Katz, pesquisador do Jewish People Policy Institute (JPPI), observa que, historicamente, Netanyahu conseguia centralizar as eleições em sua própria figura. “Foi basicamente assim que atravessamos cinco eleições entre 2019 e 2022”, afirma Katz. Contudo, desta vez, o cenário é diferente, com questões como o custo de vida, a reforma judicial e o posicionamento de Israel na região ganhando proeminência, elevando as apostas para um nível sem precedentes.
Do outro lado do espectro político, a oposição é encabeçada por Gadi Eisenkot, ex-chefe das Forças Armadas, representando o partido Yashar. Seu bloco é uma amálgama de quatro partidos de centro, direita e esquerda, incluindo figuras conhecidas como o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett e Yair Lapid, do B’Yachad. A diversidade ideológica da oposição reflete a complexidade do descontentamento com o governo atual, mas também apresenta desafios para a coesão interna e a formação de uma frente unida.
As projeções mais recentes do Canal 12 pintam um quadro de paridade preocupante. Os partidos de oposição aparecem ligeiramente à frente com 56 assentos das 120 cadeiras do Parlamento, enquanto os aliados do atual premiê somam 50. Individualmente, o Yashar de Eisenkot projeta 23 cadeiras, superando o Likud de Netanyahu, que deve conquistar 21. Nenhum dos blocos, no entanto, alcança os 61 assentos necessários para formar uma maioria governamental, o que lança uma sombra de incerteza sobre o futuro político do país. Amotz Asa-El, pesquisador do Shalom Hartman Institute, em Jerusalém, resume o sentimento geral: “O resultado da eleição provavelmente será muito apertado. Não haverá uma vitória esmagadora de nenhum dos lados, embora possamos ser surpreendidos. É por isso que existe um sentimento geral de pessimismo neste momento nos dois lados do espectro político.”
Neste cenário de equilíbrio precário, a importância dos pequenos partidos que conseguem superar a cláusula de barreira de 3,25% dos votos é amplificada. E é aqui que os partidos árabes entram em cena com uma influência potencialmente decisiva. As pesquisas indicam que essas siglas podem conquistar até 14 assentos, conferindo-lhes um poder de barganha sem precedentes nas negociações pós-eleitorais. “Se a oposição realmente incluir os partidos árabes, terá uma maioria bastante clara”, explica Alon Yakter, cientista político da Universidade de Tel Aviv. No entanto, Yakter aponta para um “tabu” histórico em torno dessa possibilidade, alimentado pela estratégia de Netanyahu de deslegitimar esses partidos, uma tática que outros políticos acabaram por seguir por medo de retaliação eleitoral.
A mobilização dos cidadãos árabes, que representam cerca de 20% da população israelense, é um fator crucial nesta eleição. Impulsionados pelo desejo de afastar Netanyahu do poder, esses eleitores encontram razões concretas para votar. “Netanyahu interrompeu boa parte do financiamento destinado ao setor árabe, e os índices de criminalidade nessa população estão em níveis recordes”, destaca Yakter. Os partidos árabes também se mostram mais organizados, divididos entre a Lista Conjunta, que agrupa as siglas laicas Hadash, Balad e Ta’al, e a Ra’am, de orientação islâmica, liderada por Mansour Abbas, que já participou de uma coalizão em 2021.
Apesar da importância numérica, a inclusão dos partidos árabes em uma coalizão enfrenta resistências significativas. Eisenkot já descartou publicamente essa possibilidade, ecoando o sentimento de rejeição de boa parte da população judaica, intensificado após os ataques de 7 de outubro. Contudo, a postura mais moderada da Ra’am, que pela primeira vez tem um judeu como número dois da lista, o ex-comandante da polícia Yoav Segalovitz, pode abrir um caminho. Asa-El sugere que as negativas atuais podem ser meras táticas de campanha. “Essas declarações podem ser rapidamente esquecidas na manhã seguinte à eleição”, afirma, indicando que a necessidade de formar um governo pode superar as barreiras ideológicas e retóricas.
Mesmo que não integrem diretamente uma coalizão, os partidos árabes poderiam ser essenciais para a sobrevivência de um eventual governo minoritário. Pela lei israelense, um governo minoritário, embora frágil, pode ser difícil de derrubar, pois a oposição precisaria reunir 61 votos e apresentar um gabinete alternativo. A simples abstenção dos partidos árabes em votações cruciais no plenário já seria suficiente para permitir a aprovação de leis e a manutenção do governo. “Mas um governo assim precisaria, pelo menos implicitamente, do apoio dos partidos árabes”, ressalta Yakter. A principal vulnerabilidade de um governo minoritário reside na votação anual do orçamento; sua não aprovação resultaria na queda do governo. Assim, a presença e o apoio, mesmo que passivo, dos partidos árabes seriam vitais nesses momentos decisivos.
O cenário mais sombrio, e infelizmente plausível, é o retorno ao ciclo de impasses políticos que levou a cinco eleições entre 2019 e 2022. Se as coalizões falharem em conseguir apoio suficiente para formar um governo, Netanyahu poderia permanecer como primeiro-ministro interino até uma nova votação. Embora um governo interino tenha limites, como a impossibilidade de nomear juízes da Suprema Corte ou promover mudanças constitucionais, Yakter alerta para seus perigos: “Mas ainda pode definir a agenda política. Pode iniciar uma guerra contra o Irã e ultrapassar os limites que quiser. E tentará fazer isso.” Essa perspectiva de um governo interino com poder de decisão sobre questões de segurança nacional adiciona uma camada de apreensão ao já complexo panorama.
Com os blocos empatados e os partidos árabes no centro da equação, a eleição de hoje caminha para ser uma das mais acirradas da história de Israel. O resultado das urnas, portanto, será apenas o primeiro passo em um longo e tortuoso caminho. Max Rodenbeck, diretor do projeto Israel-Palestina do International Crisis Group, prevê um período turbulento de negociações até que um novo governo seja formado. “Acho que o próximo período será bastante turbulento para Israel, enquanto o país tenta decidir qual caminho seguir”, diz Rodenbeck. As implicações dessa instabilidade política se estendem para além das fronteiras israelenses, afetando seus vizinhos, como os palestinos, e a estabilidade regional como um todo. “Não haverá soluções para nada por algum tempo, porque acredito que Israel enfrentará uma situação de instabilidade política durante pelo menos alguns meses”, conclui Rodenbeck, sublinhando a gravidade do momento.