Brasil Retorna à Posição de Devedor Internacional Após 19 Anos em Meio a Crescimento da Dívida Externa e Desafios Fiscais

O Brasil, após quase duas décadas de estabilidade como credor internacional, reverteu sua posição em junho de 2026, tornando-se novamente um devedor líquido. Dados recentes do Banco Central (BC) revelam que as reservas internacionais, que somam US$ 402 bilhões (incluindo créditos brasileiros no exterior), foram superadas pela dívida externa total do país, que alcançou US$ 407,1 bilhões. Este patamar representa o maior nível em 40 anos de estatísticas, marcando um ponto de inflexão na trajetória econômica brasileira e gerando um saldo de dívida externa líquida positiva de US$ 5,1 bilhões. Embora a situação não gere alarme imediato entre economistas e agências de classificação de risco, ela exige atenção máxima, especialmente diante de um debate presidencial acalorado e a necessidade premente de um plano fiscal crível para mitigar riscos à estabilidade macroeconômica.
A mudança de status, que encerra um período de 19 anos em que o Brasil se manteve como credor internacional, é um reflexo do crescimento da dívida externa em ritmo superior ao das reservas. Analistas consultados pelo Estadão/Broadcast consideram improvável que a dívida externa líquida retorne aos níveis de US$ 70 bilhões observados há duas décadas, mas veem como plausível uma aproximação da marca de US$ 30 bilhões nos próximos dois anos. Este cenário, embora distante de uma crise clássica de balanço de pagamentos, como avalia Felipe Tavares, economista-chefe da Monte Bravo, significa uma perda de margem de manobra para o país absorver choques econômicos mais persistentes. O “argumento retórico e técnico de ‘país credor líquido’”, utilizado por quase duas décadas junto a agências de rating e investidores estrangeiros, chegou ao fim, reduzindo a “almofada líquida” para mitigar pressões cambiais ou sobre os prêmios de risco soberano.
A Dinâmica da Dívida e das Reservas: Um Descompasso Crescente
O aumento da dívida externa é impulsionado, em parte, por investidores que buscaram diversificação fora dos Estados Unidos. No atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida externa subiu 27,4%, enquanto as reservas cresceram 15,8%. A evolução das reservas foi contida por intervenções do Banco Central e pela valorização cambial. Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos, sugere que o Brasil deveria aproveitar janelas de forte entrada de investimento direto e maior estabilidade cambial para recompor suas reservas, adotando a estratégia de “comprar na calma”, que é mais econômica.
O déficit em transações correntes tem se mostrado estruturalmente mais alto nos últimos anos, mesmo com o aumento das exportações e a desaceleração econômica que limita as importações e remessas de lucros. Fatores como o aumento de gastos com serviços de streaming, investimentos em criptoativos e o pagamento de dívidas a credores internacionais contribuem para essa elevação. Em 2025, o déficit em transações correntes atingiu US$ 67,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões registrados em 2023. Embora a entrada de investimento estrangeiro direto (IED) ainda financie esse déficit sem consumir reservas ou elevar proporcionalmente o endividamento, a folga tem diminuído. Em 2025, o IED superou o déficit em US$ 17,6 bilhões, significativamente abaixo dos US$ 38 bilhões de dois anos antes, e em 2024, essa folga foi ainda menor, inferior a US$ 9 bilhões.
A Visão dos Economistas e Agências de Risco: Foco no Fiscal
Apesar da mudança na posição de credor, as métricas externas do Brasil ainda apontam para um país relativamente protegido do risco de fuga de capitais. A dívida externa líquida representa menos de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), e as reservas cobrem mais de três vezes os vencimentos de curto prazo. No entanto, essa avaliação pode ser alterada se houver uma desaceleração do investimento direto, impulsionada por incertezas fiscais ou regulatórias, que poderia abrir uma lacuna no financiamento externo.
Felipe Kotinda, economista do Santander, reforça que o quadro atual não é motivo de preocupação imediata, pois as reservas, mesmo não cobrindo integralmente a dívida externa, permanecem elevadas e atuam como importantes amortecedores da economia. A preocupação, segundo ele, surgiria com uma tendência persistente de aumento da dívida externa líquida, acompanhada de redução de reservas, ampliação do déficit em conta corrente ou maior dependência de financiamento externo. Historicamente, o país ainda está muito distante dos níveis de vulnerabilidade observados há duas décadas.
As agências de classificação de risco, como Fitch e Moody’s, continuam a ver as contas externas do Brasil como um ponto forte do crédito soberano. O país é descrito como uma economia com reservas elevadas, baixa exposição a dívidas em moeda estrangeira e fluxos recorrentes de investimento externo. Para essas agências, o principal foco de risco permanece o fiscal: o desequilíbrio das contas públicas pressiona os juros e aumenta o custo da dívida do governo. O Tesouro Nacional, inclusive, tem mirado mais dívida em moeda estrangeira, priorizando captações em dólar.
O Alerta de 2024 e a Necessidade de um Plano Fiscal Crível
Todd Martinez, diretor sênior da Fitch Ratings, afirma que a agência não identificou uma mudança relevante na liquidez externa do Brasil nem nas métricas de solvência. Contudo, ele ressalta que o estresse de mercado no fim de 2024, que levou o Banco Central a realizar a maior intervenção da história do regime de câmbio flutuante, evidencia o potencial de deterioração desses indicadores. “O episódio ressalta a necessidade de um plano fiscal crível no próximo governo, a fim de mitigar riscos à estabilidade macroeconômica”, diz Martinez, ecoando a preocupação central que permeia o debate político e econômico atual.
A composição da dívida externa brasileira também oferece um certo alívio. Apesar do aumento nos últimos anos, 73% do total está no setor privado – bancos e empresas. Geralmente, essas companhias possuem hedge natural, seja por meio de exportações ou outras receitas em moeda estrangeira, o que reduz o risco soberano direto. A fatia do setor público, que representa aproximadamente um quarto do total, é majoritariamente composta por títulos emitidos em reais e negociados no mercado doméstico. Quando esses papéis estão nas mãos de não residentes, entram nas estatísticas do BC como dívida externa. A dívida pública emitida em moeda estrangeira, que implica exposição cambial, soma R$ 348 bilhões e representa menos de 4% do estoque da dívida pública federal.
Na avaliação da Fitch, o governo brasileiro ainda é credor externo líquido, pois as reservas internacionais superam com folga a dívida pública com o exterior. Martinez destaca que o Brasil se sobressai como um soberano com “colchões externos muito robustos” e uma “dependência muito baixa dos mercados externos em moeda estrangeira”, o que constitui o principal diferencial do país frente a outras economias com a mesma nota de crédito. Ele também observa que países com câmbio flutuante, como o Brasil, não precisam manter reservas tão elevadas quanto economias de câmbio fixo ou fortemente administrado, tornando o arcabouço macroeconômico brasileiro “particularmente robusto” devido à sua forte liquidez externa e moeda flexível.
William Foster, vice-presidente sênior da Moody’s, reforça que a posição externa do Brasil é, atualmente, uma força, e não uma fragilidade. Ele cita a baixa dependência de dívida em moeda estrangeira, o câmbio flexível, o volume de ativos externos, a base exportadora diversificada e a persistência do investimento direto estrangeiro como fatores que continuam a sustentar a resiliência externa do país. No entanto, a vigilância sobre a política fiscal e a capacidade de manter a atratividade para o investimento estrangeiro direto serão cruciais para que o Brasil não perca ainda mais sua margem de manobra em um cenário global de riscos crescentes.