Tesouro Direto: Taxas Despencam em Meio a Cenário Eleitoral Acirrado e Novas Pesquisas

As taxas dos títulos do Tesouro Direto registraram uma queda acentuada nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026, revertendo os ganhos observados no pregão anterior. O movimento de recuo, que se aprofundou ao longo do dia, foi impulsionado pela divulgação de novas pesquisas eleitorais que indicam uma vantagem numérica para Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) na corrida presidencial, a apenas cinco dias do segundo turno. Este cenário de volatilidade política e econômica continua a ser o principal direcionador das expectativas do mercado financeiro brasileiro, com investidores reagindo intensamente a cada novo dado.
A dinâmica de queda foi particularmente notável nos títulos prefixados. O Tesouro Prefixado 2029, por exemplo, viu sua taxa anual cair de 12,83% no fechamento de segunda-feira (19) para 12,63% na atualização das 15h33 desta terça-feira, uma redução expressiva de 20 pontos-base. Este patamar representa a menor taxa para este título desde a quarta-feira passada (14). O recuo começou logo na abertura do mercado, com o Prefixado 2029 já operando a 12,69% às 9h30, e se intensificou ao longo do dia, sinalizando uma forte reação do mercado à percepção de um cenário político mais definido ou, ao menos, com uma direção clara nas pesquisas.
Outros títulos prefixados seguiram a mesma tendência. O Tesouro Prefixado 2032, que havia fechado a 13,04% na véspera, abriu a 12,91% e chegou à tarde a 12,81%, registrando a maior queda do dia, de 23 pontos-base. Da mesma forma, o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037, que iniciou o dia a 12,94%, recuou para 12,84%, uma baixa de 20 pontos-base em relação aos 13,04% de segunda-feira. Com essas quedas, os três títulos prefixados terminaram o dia abaixo dos níveis de fechamento de sexta-feira (16), que eram de 12,79%, 12,98% e 13,01%, respectivamente. Na segunda-feira, as taxas haviam aberto em queda, mas subiram ao longo da sessão, fechando nos maiores níveis desde o primeiro turno, o que torna a reversão desta terça-feira ainda mais significativa para os investidores de renda fixa.
O cenário de incerteza eleitoral também impactou os títulos atrelados à inflação, embora com menor intensidade. O Tesouro IPCA+ 2032 registrou a maior queda entre eles, de 11 pontos-base, passando de IPCA + 6,86% para IPCA + 6,75%. A maioria dos demais papéis IPCA+ recuou entre 6 e 8 pontos-base, refletindo uma percepção de menor prêmio de risco inflacionário. A única exceção notável foi o IPCA+ 2050, que, após uma queda inicial de 4 pontos-base na abertura, voltou a subir à tarde, fechando a IPCA + 6,73%, ligeiramente abaixo dos IPCA + 6,74% registrados na segunda-feira. Essa variação pontual no título de prazo mais longo pode indicar uma cautela residual ou uma busca por proteção contra a inflação em horizontes mais distantes, apesar do movimento geral de queda.
A principal explicação para essa movimentação do mercado reside na divulgação de novas pesquisas eleitorais, que adicionam mais elementos à complexa reta final da corrida presidencial. A Real Time Big Data, publicada na manhã desta terça-feira, mostrou Flávio Bolsonaro com 52% dos votos válidos e Lula com 48%. Nos votos totais, o placar foi de 48% a 45%. Esta pesquisa foi realizada entre 15 e 19 de outubro, já após o primeiro debate do segundo turno, o que sugere que o desempenho dos candidatos no confronto direto pode ter influenciado o eleitorado. Complementando o quadro, a Alfa Inteligência, também divulgada hoje, apontou Flávio com 48,8% dos votos totais e Lula com 45,9%. A expectativa agora se volta para as próximas pesquisas da Quaest, prevista para quarta-feira (21), e do Datafolha, na quinta-feira (22), que podem trazer novas nuances e potencialmente intensificar a volatilidade do mercado.
Rebecca Nossig, estrategista da Nomad, reforça a centralidade do pleito para o comportamento dos ativos financeiros: “No Brasil, o grande direcionador das expectativas continua sendo a corrida eleitoral presidencial, com os agentes econômicos reagindo de forma bastante atenta às recentes pesquisas de intenção de voto e às perspectivas sobre o controle das contas públicas”. A analista Fernanda Schahin, do Goldman Sachs, corrobora a visão de uma disputa acirrada, mesmo com Flávio liderando a maioria das pesquisas. Schahin destaca que várias pesquisas apontam um empate técnico e, em nota a clientes, ressaltou a notícia da CNN Brasil sobre uma investigação da Polícia Federal envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz por supostos crimes financeiros. Este elemento adiciona uma camada de complexidade e incerteza ao cenário político, podendo gerar ruídos e influenciar a percepção de risco dos investidores nos últimos dias antes do pleito.
A mesa de trading do Goldman Sachs observou um movimento de investidores locais voltando a assumir um pouco mais de risco após o debate presidencial, o que sugere uma leitura mais otimista ou, ao menos, uma redução do pessimismo imediato. No entanto, os fluxos para o EWZ (ETF que replica o Ibovespa) permaneceram contidos, indicando que investidores estrangeiros ainda mantêm uma postura mais cautelosa diante do cenário brasileiro. As atenções do mercado agora se voltam para o próximo e último debate do segundo turno, que será transmitido pela TV Globo na sexta-feira (23), evento que pode influenciar decisivamente o humor dos investidores e a percepção de risco, sendo a última grande oportunidade para os candidatos apresentarem suas propostas e argumentos ao eleitorado.
No cenário internacional, o mercado de petróleo apresentou volatilidade ao longo do dia, adicionando uma camada de complexidade ao ambiente de investimentos. O barril de Brent chegou a ser negociado a US$ 111 pela manhã, atingindo o maior nível em cinco meses. Essa alta foi impulsionada pela notícia de que os rebeldes houthis teriam atacado instalações de energia, aeroportos e alvos militares na Arábia Saudita, gerando preocupações sobre a oferta global e a estabilidade geopolítica no Oriente Médio. Contudo, à tarde, o preço do Brent reverteu a tendência, fechando em queda de 0,69%, a US$ 108,79, em um movimento de ajuste. Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX, comenta sobre a situação: “Não há novos canais oficiais de comunicação entre Teerã e Washington, e isso acaba alimentando a percepção de que o mercado deve trabalhar com uma oferta menor vinda de países do Oriente Médio ao longo das próximas semanas”, indicando que a tensão geopolítica continua a ser um fator relevante para a commodity e para as expectativas inflacionárias globais.
Apesar da volatilidade e das incertezas, o mercado doméstico registrou um desempenho positivo em outros indicadores. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, fechou em alta de 1,57%, alcançando 208.295,98 pontos, impulsionado principalmente pelo avanço dos setores bancário e de varejo. O dólar, por sua vez, recuou 0,58%, sendo negociado a R$ 5,019. Essa resiliência em alguns segmentos do mercado, mesmo em um contexto de taxas de juros em queda no Tesouro Direto e um cenário político e global complexo, reflete a seletividade dos investidores e a busca por oportunidades em meio à expectativa de desfecho eleitoral. A valorização do Ibovespa e a queda do dólar podem ser interpretadas como uma reação positiva à percepção de um menor risco político ou à antecipação de políticas econômicas mais favoráveis ao ambiente de negócios, dependendo do resultado das urnas.
Com apenas quatro dias úteis para o segundo turno das eleições, a recomendação de analistas é para que os investidores ajustem os pesos de suas carteiras, sem a necessidade de girar toda a posição, em meio à expectativa de alta volatilidade até o dia 25. A cautela e a atenção aos próximos desdobramentos políticos e econômicos, incluindo as pesquisas restantes e o debate final, serão cruciais para a tomada de decisões nos próximos dias e para a navegação em um mercado que se mostra cada vez mais sensível aos ventos da política.