A política brasileira atingiu um novo patamar de radicalização e tensão, culminando no cancelamento do último debate presidencial da TV Globo na quinta-feira, 1º de outubro, um evento que deveria anteceder o primeiro turno das eleições de 2026. Este episódio, marcado pela ausência de candidatos chave, intervenções judiciais e alegações de insegurança jurídica, serve como um espelho sombrio para a jornalista Adriana Araújo, da Band, que propôs um olhar retrospectivo para um tempo em que a civilidade ainda permeava as disputas mais acirradas, evocando o debate presidencial de 1994 entre Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola e Fernando Henrique Cardoso como um contraponto surpreendente à beligerância atual.
O cenário que levou ao cancelamento do debate da Globo foi complexo e revelador da fragilidade do diálogo político contemporâneo. Lula, um dos principais contendores, já havia comunicado sua ausência, optando por uma entrevista ao Flow Podcast no mesmo horário. Poucas horas antes do programa, Flávio Bolsonaro também anunciou que não compareceria. Paralelamente, decisões judiciais adicionaram camadas de incerteza: a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a exposição do púlpito vazio de Lula e a formulação de perguntas dirigidas ao candidato ausente, enquanto uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) assegurou a participação de Renan Santos. Diante deste emaranhado de fatores, a emissora alegou insegurança jurídica e optou por cancelar o encontro, gerando uma onda de acusações, discursos sobre censura, críticas ao Judiciário e aprofundando a tensão em uma campanha já marcada por uma polarização extrema.
É nesse ambiente de confrontação e desconfiança que a sugestão de Adriana Araújo ganha relevância. A jornalista convidou o público a revisitar o debate presidencial de 1994, transmitido pela TV Bandeirantes e mediado por Marília Gabriela, disponível no YouTube. A proposta não era apenas observar o embate em si, mas, crucialmente, o que se desenrolava após o término das discussões formais. O encontro, realizado em agosto de 1994, reuniu figuras políticas de peso como Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola e Fernando Henrique Cardoso. Naquele palco, as divergências eram duríssimas, especialmente em torno do Plano Real e dos rumos econômicos do país, refletindo profundas clivagens ideológicas e programáticas.
Contudo, é o epílogo daquele debate que Adriana Araújo destaca como um testemunho de uma era política distinta. Encerrado o confronto, enquanto jornalistas se aproximavam para as entrevistas pós-debate, Brizola, Lula e Fernando Henrique, embora adversários diretos na disputa pela Presidência e com visões radicalmente opostas sobre o futuro do Brasil, interagiam de uma forma que hoje parece pertencer a um país diferente. Eles conversavam, respondiam a perguntas, escutavam uns aos outros e conviviam no mesmo espaço com uma naturalidade surpreendente. Não se tratava de uma ausência de rivalidade ou de um abandono de suas posições e diferenças, mas sim da manifestação de um respeito intrínseco entre homens que, apesar de disputarem o comando da nação, reconheciam a legitimidade do adversário.
Essa lembrança histórica serve como um poderoso contraste para a realidade política brasileira atual, ajudando a dimensionar a profunda transformação sofrida pelo cenário nacional. Embora seja possível debater o exato momento em que esse processo de radicalização se iniciou e quais foram suas múltiplas causas, é inegável que a ascensão de Jair Bolsonaro ao centro da política nacional intensificou e levou ao limite uma linguagem baseada permanentemente na confrontação, na desqualificação sistemática do adversário e na transformação do concorrente político em um inimigo a ser aniquilado. A política deixou de ser um campo de disputa de ideias, ainda que acalorada, para se tornar um campo de batalha onde a aniquilação moral e política do outro é o objetivo primordial.
O vídeo de 1994 não retrata uma política desprovida de conflitos ou de paixões. Pelo contrário, Lula, Brizola e FHC foram protagonistas de algumas das mais significativas disputas políticas e ideológicas daquele período. A essência da mensagem, no entanto, reside em outra dimensão: a capacidade de divergir profundamente, de defender posições antagônicas com veemência, sem que isso implicasse em transformar a política em uma guerra permanente e sem quartel. A civilidade, o respeito mútuo e a capacidade de coexistência pacífica, mesmo entre adversários ferrenhos, eram elementos presentes e visíveis.
Talvez seja exatamente por essa razão que, mais de três décadas depois, aquelas imagens causem tanta surpresa e nostalgia. Elas nos remetem a um tempo em que a política, apesar de suas tensões inerentes, ainda guardava um espaço para o reconhecimento da humanidade e da legitimidade do outro, mesmo quando esse outro era um oponente implacável. A reflexão proposta por Adriana Araújo não é apenas um exercício de memória, mas um convite urgente a questionar o caminho que a política brasileira tem trilhado e a ponderar sobre o custo da perda da civilidade em um sistema democrático. A ausência de um debate em 2026 e a presença de respeito em 1994 são dois lados de uma mesma moeda que revelam a erosão de valores fundamentais para a saúde da nossa democracia.