Alfredo Gaspar, relator da CPI do INSS no Congresso Nacional, foi o nome escolhido por Flávio Bolsonaro no início de agosto para compor a chapa do Partido Liberal (PL) como vice-presidente nas eleições de 2026. A decisão, que encerrou meses de intensas negociações e tentativas de ampliar a coligação presidencial, foi selada apenas no último dia do prazo para as convenções partidárias, revelando uma escolha estratégica e de última hora que redefiniu os planos políticos de Gaspar e o posicionou no centro da corrida eleitoral. A complexidade da escolha sublinha a busca por um perfil que agregasse experiência e representatividade, culminando na figura de um jurista com vasta atuação no Ministério Público e na segurança pública de Alagoas.
A nomeação de Gaspar para a vice-presidência não foi um caminho traçado com antecedência. Pelo contrário, a dinâmica da política eleitoral de 2026 impôs um cenário de incertezas e reviravoltas até o último momento. Um dia antes de ser oficialmente anunciado como vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar havia manifestado publicamente, através de suas redes sociais, sua intenção de concorrer a uma vaga no Senado Federal por Alagoas. Essa mudança abrupta de planos, motivada por uma convocação direta para a chapa presidencial, ilustra a fluidez e a imprevisibilidade das articulações políticas de alto nível, onde a trajetória individual pode ser reorientada em função de estratégias maiores de coligação. A escolha de Gaspar, um nome que emergiu após um longo processo de avaliação de diferentes perfis, aponta para a valorização de um histórico robusto no setor público, especialmente no campo jurídico e de segurança.
Um Jurista com Quase Três Décadas de Serviço Público
Com 55 anos de idade, Alfredo Gaspar construiu uma carreira sólida e respeitada no Judiciário antes de ingressar na política eleitoral. Sua formação acadêmica é exemplar: graduou-se em Direito em 1993 e, em 1999, obteve pós-graduação em Direito Público. Além de sua atuação prática, Gaspar dedicou mais de uma década ao ensino, trabalhando como professor universitário, o que demonstra seu compromisso com a formação e a disseminação do conhecimento jurídico. Em 1996, ele deu início à sua longa jornada no Ministério Público de Alagoas (MP-AL), instituição onde permaneceu por 24 anos, consolidando uma trajetória marcada pela dedicação e pela busca por justiça.
No MP-AL, Gaspar percorreu um caminho ascendente, atuando inicialmente em promotorias de cidades do interior alagoano, como Maravilha e Palmeira dos Índios, antes de chegar à capital, Maceió, onde assumiu a 48ª Promotoria de Justiça. Sua ascensão culminou em 2016, quando foi eleito procurador-geral de Justiça do estado, cargo de extrema relevância e responsabilidade. Sua gestão foi reconhecida, resultando em sua reeleição por dois biênios consecutivos. Somente em 2020, Gaspar decidiu pedir exoneração do órgão, um passo decisivo para se dedicar integralmente à vida política, sinalizando uma transição de carreira que o levaria a novos desafios no cenário eleitoral.
Casos Emblemáticos e Atuação na Segurança Pública
A experiência profissional de Alfredo Gaspar é pontuada por sua participação em casos de grande repercussão e por sua liderança em órgãos de segurança. Em 1998, ele trabalhou em um dos casos mais chocantes da história política de Alagoas: o assassinato da ex-deputada federal Ceci Cunha. O crime, ocorrido em 16 de dezembro daquele ano em Maceió, vitimou a parlamentar, seu marido, seu irmão e uma prima, todos mortos a tiros. As investigações, nas quais Gaspar teve papel fundamental, revelaram que o homicídio foi planejado por Talvane Albuquerque Neto, suplente de Ceci Cunha, que almejava assumir a vaga na Câmara dos Deputados. Talvane foi condenado a mais de 100 anos de prisão, e o caso permanece como um marco na luta contra a corrupção e a violência política. É importante notar que Ceci Cunha é mãe do ex-senador e atual vice-prefeito de Maceió, Rodrigo Cunha (Podemos).
Entre 2010 e 2012, Gaspar também teve atuação de destaque em outro cenário de grande comoção social em Maceió, quando a cidade enfrentou uma série alarmante de assassinatos de moradores de rua, com 73 mortes registradas. Inicialmente, as autoridades locais suspeitavam que os crimes fossem obra de grupos de extermínio. No entanto, as investigações aprofundadas, que contaram com a expertise de Gaspar, revelaram que as motivações por trás desses homicídios estavam ligadas a dívidas de drogas, desmistificando a tese inicial e direcionando os esforços para o combate ao tráfico e suas consequências sociais.
Sua experiência se estendeu à chefia da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) em dois períodos distintos: de 2015 a 2016 e, posteriormente, de 2021 a 2022. Nessas funções, Gaspar esteve à frente das políticas de segurança do estado, lidando com desafios complexos e buscando soluções para a criminalidade. Ele também presidiu o Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), um órgão vinculado ao Conselho Nacional de Procuradores-Gerais, demonstrando sua influência e reconhecimento em nível nacional no enfrentamento ao crime organizado. Além disso, participou ativamente de conselhos de segurança e direitos humanos em Alagoas, reforçando seu compromisso com a proteção da cidadania. Em reconhecimento à sua notável trajetória, em 2012, Alfredo Gaspar foi agraciado com a Medalha Mérito do Ministério Público, a maior honraria que a instituição pode conceder.
A Entrada na Política Eleitoral e o Caminho até a Vice-Presidência
A transição de Alfredo Gaspar do Ministério Público para a política eleitoral se deu de forma gradual, mas com ambições claras. Em 2020, ele se lançou como candidato à Prefeitura de Maceió (AL), em sua primeira grande disputa eleitoral. Concorrendo contra JHC, então candidato pelo PSB, Gaspar demonstrou força, mas acabou perdendo a disputa no segundo turno. Naquele pleito municipal, ele alcançou 156.704 votos, o que representou 41,36% do total. Seu rival, JHC — que já havia sido, por duas vezes consecutivas, o deputado federal mais votado de Alagoas —, conquistou 222.147 votos, ou 58,64%, consolidando sua vitória.
Apesar da derrota em 2020, a incursão de Gaspar na política eleitoral não foi interrompida. Em 2022, ele concorreu ao cargo de deputado federal e obteve um resultado expressivo, sendo eleito pela primeira vez para o Congresso Nacional com 102.039 votos. Esse desempenho o colocou como o segundo candidato mais votado do estado de Alagoas, ficando atrás apenas de Arthur Lira (PP), uma figura de peso na política nacional. A eleição para deputado federal marcou a consolidação de Gaspar como uma força política em Alagoas, pavimentando o caminho para sua ascensão à chapa presidencial em 2026. Sua trajetória, que mescla uma profunda experiência no sistema de justiça e segurança com uma entrada relativamente recente, mas bem-sucedida, na política eleitoral, o posiciona como um nome estratégico para a composição da chapa de Flávio Bolsonaro, buscando agregar credibilidade e um histórico de serviço público à campanha. A escolha de um perfil como o de Alfredo Gaspar reflete a complexidade das alianças e a busca por um vice que possa complementar a chapa com uma bagagem diversificada e um histórico de atuação pública reconhecido.