Karina Zeviani: A Voz Que Ecoou do Interior Paulista aos Palcos Globais e Lutou Até o Fim

Anos mais tarde, a efervescência cultural de Nova York a acolheu. Na metrópole americana, Karina encontrou no clube Nublu, no East Village, um palco para sua expressão artística. Esse circuito vibrante foi crucial para seu desenvolvimento e para a formação de conexões significativas. Foi ali que conheceu o percussionista brasileiro Mauro Refosco, uma ponte para novas oportunidades. Sua performance e talento não passaram despercebidos, chegando aos ouvidos de David Byrne, ex-líder da icônica banda Talking Heads. Essa conexão abriu as portas para um dos capítulos mais importantes de sua carreira internacional: a entrada no grupo norte-americano Thievery Corporation em 2005.
Durante aproximadamente seis anos, Karina Zeviani foi uma figura central no Thievery Corporation, um coletivo conhecido por sua fusão de trip-hop, dub e lounge music. Com a banda, ela percorreu inúmeros países, levando sua voz a audiências globais e consolidando sua reputação como uma artista de alcance internacional. A experiência com o Thievery Corporation não apenas expandiu seu repertório e sua vivência de palco, mas também a inseriu em um circuito de colaborações de alto nível. Em 2008, sua versatilidade a levou a integrar outro projeto de renome: o Nouvelle Vague, um grupo francês célebre por suas releituras de clássicos do pós-punk e da new wave, com uma distintiva influência da bossa nova. Com o Nouvelle Vague, Karina participou do álbum “NV3” e realizou diversas apresentações internacionais, demonstrando sua capacidade de transitar entre diferentes estéticas musicais com maestria.
O retorno de Karina Zeviani ao Brasil marcou uma nova fase em sua carreira, focada na produção autoral. No início da década de 2010, ela lançou seu primeiro álbum solo, “Amor Inventado”, um trabalho que reuniu 12 faixas e refletiu a riqueza de suas experiências globais e suas raízes brasileiras. O processo de gravação do álbum foi tão cosmopolita quanto sua própria vida, ocorrendo em cidades como Paris, Nova York, São Paulo e Salvador. As composições de “Amor Inventado” traziam referências profundas à sua infância em Jaboticabal, criando uma ponte entre suas origens e sua jornada artística internacional. Este álbum representou um mergulho em sua própria identidade musical, consolidando-a como uma compositora e intérprete com voz própria.
Além de sua carreira solo e das colaborações internacionais, Karina Zeviani também dedicou seu talento a projetos de homenagem a grandes nomes da música brasileira. Em 2011, ela interpretou a canção “Confessional” no disco “Literalmente Loucas – As Canções de Marina Lima”, um tributo à icônica artista. No ano seguinte, gravou “Alguém Cantando” para um álbum em homenagem a Caetano Veloso, demonstrando sua reverência e habilidade em reinterpretar obras de mestres. Essas participações reforçaram seu lugar no panteão da música brasileira, mostrando sua capacidade de honrar o legado de outros artistas enquanto imprimia sua marca pessoal.
Em 2017, Karina Zeviani lançou o projeto “Flor de Sal” ao lado de Micael Amarante, uma colaboração que explorou novas sonoridades e direções artísticas. No entanto, foi em 2020 que ela voltou aos holofotes nacionais de forma mais intensa, ao disputar a nona temporada do The Voice Brasil, da TV Globo. Sua participação no programa foi um momento de grande visibilidade e reconhecimento público. Nas Audições às Cegas, Karina interpretou “Sonhos”, de Peninha, uma performance emocionante que fez com que dois dos jurados, Lulu Santos e Carlinhos Brown, virassem suas cadeiras. A cantora escolheu seguir no time de Carlinhos Brown, um mentor conhecido por sua sensibilidade e inovação musical.
A jornada de Karina no The Voice Brasil, embora breve, foi marcante. Na fase das Batalhas, ela dividiu o palco com Carla Sceno, em uma interpretação poderosa de “Human”, de Rag’n’Bone Man. Apesar da performance elogiada, Carlinhos Brown optou por manter Carla na competição, e Karina deixou o programa. Mesmo com a eliminação, sua passagem pelo The Voice Brasil reafirmou seu talento e a apresentou a uma nova geração de fãs, que puderam testemunhar a força e a emoção de sua voz.
Nos últimos anos de sua vida, Karina Zeviani enfrentou uma batalha árdua e silenciosa contra o câncer. O diagnóstico veio há dois anos, e a doença se agravou significativamente desde janeiro deste ano. Em meio à luta, a artista demonstrou uma coragem inabalável, buscando tratamentos e, em um gesto de transparência e esperança, arrecadando fundos para custear as despesas médicas. Sua resiliência diante da adversidade inspirou muitos, e a comunidade artística e seus fãs se mobilizaram em apoio. A notícia de sua morte, nessa quinta-feira, 1º de outubro, encerra uma trajetória de vida e arte marcada por talento, dedicação e uma força interior que a impulsionou a superar desafios, tanto nos palcos quanto na vida pessoal. Seu legado musical, que atravessou continentes e gêneros, permanecerá como um testemunho de sua paixão inextinguível pela música e pela vida.