Guerra Bilionária: Vorcaro Temia “Maior Conflito da História” Contra Joesley Batista em Disputa por Ativos e Influência

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Em maio de 2025, o empresário Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master, revelou ao advogado Walfrido Warde a urgente necessidade de “frear” Joesley Batista para evitar o que ele descreveu como a “maior guerra que já houve na história”. A dramática escalada de tensão ocorreu no auge das tentativas do Banco Master de obter a aprovação do Banco Central para uma crucial negociação de R$ 12 bilhões com o Banco de Brasília (BRB). Os irmãos Joesley e Wesley Batista, figuras centrais do conglomerado J&F, estariam orquestrando uma ofensiva para sabotar o acordo, visando, segundo fontes, fragilizar o Master para uma futura aquisição de seus ativos, um cenário que se desenrolou até a liquidação do Banco Master em novembro do mesmo ano.

As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, obtidas com exclusividade, pintam um quadro de intensa disputa nos bastidores do poder financeiro e político brasileiro. Em 13 de maio de 2025, Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, alertou Vorcaro sobre a ofensiva dos Batista. Segundo Costa, “os goianos” teriam procurado o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), para dissuadi-lo da operação, alegando que “não ia dar certo” e que “quebraria o BRB”. Tais temores, como a subsequente liquidação do Master demonstrou, se revelaram, de fato, justificados.

A interpretação de Costa na época era que os movimentos dos Batista visavam enfraquecer o Banco Master para, em seguida, retomar uma negociação de compra de ativos que havia sido interrompida semanas antes. Contudo, ao envolver o governador, os Batista teriam “colocado tudo em risco”, elevando o patamar do confronto para além das mesas de negociação financeiras e adentrando o campo da articulação política de alto nível.

Foi nesse contexto de pressões e manobras que, em 15 de maio de 2025, Vorcaro desabafou com Warde: “Tenho que frear esse joesley senao vai entrar numa guerra. [A] Maior que ja houve na historia.” A magnitude da preocupação de Vorcaro com a capacidade de mobilização e o poder de fogo dos Batista é evidente na sua descrição de um conflito sem precedentes. Warde, por sua vez, questionou: “Que loucura. Como quer fazer? Posso ajudar?”. Vorcaro, buscando uma saída estratégica, respondeu: “Sim, me ajuda [a] pensar [numa] estrategia. Pq ele [Joesley] vai pra cima”. O advogado então aconselhou o banqueiro a buscar Joesley para uma “conversa abertamente”, sugerindo uma tentativa de desescalada direta.

A preocupação de Vorcaro não se limitava apenas ao embate corporativo. As mensagens revelam uma dimensão política crucial, com o banqueiro afirmando a Warde: “Temos que blindar pr”. A sigla “PR” era uma clara referência ao Presidente da República, com quem Vorcaro havia se reunido no Palácio do Planalto cinco meses antes (por volta de dezembro de 2024). Embora o presidente Lula não tenha tomado nenhuma medida para favorecer o Banco Master, Vorcaro e Warde continuaram seus esforços de lobby junto a aliados do petista e integrantes do governo, demonstrando a percepção de que a disputa com os Batista tinha ramificações que poderiam alcançar o mais alto escalão do poder.

Após a troca de mensagens, Vorcaro e Warde realizaram duas rápidas chamadas de voz, de 1 minuto e 57 segundos e 1 minuto e 2 segundos, respectivamente, indicando a urgência e a complexidade da estratégia que precisava ser elaborada. No dia seguinte, Warde voltou a contatar Vorcaro com uma proposta intrigante: “Tenho uma coisa aqui muito importante pra falar com vc pra alvejarmos os inimigos. Oportunidade única. Pessoalmente na segunda. Você vai amar.”. Vorcaro prontamente aceitou: “Ok. Vamos.”, sinalizando a disposição para explorar qualquer caminho que pudesse reverter a situação.

Uma fonte próxima aos bastidores das negociações revelou que o verdadeiro interesse de Joesley Batista não era o Banco Master em si, mas sim a Kovr Participações, uma seguradora que pertencia a Vorcaro. A Kovr foi negociada antes que o Banco Central decretasse a liquidação do Master em novembro. “O Joesley nunca quis comprar letras do Master. Ele queria aquela seguradora”, afirmou a fonte, adicionando uma camada de complexidade e um alvo específico à suposta “guerra” corporativa.

Em nota enviada à equipe de reportagem, a J&F negou categoricamente qualquer interesse em adquirir o Banco Master. A empresa informou que “analisou ativos do Banco Master oferecidos em 2025 e não seguiu adiante na negociação após seus assessores jurídicos entenderem, antes da data mencionada pela reportagem, que os ativos não tinham o valor esperado pelos vendedores. A J&F não possuía qualquer interesse nas negociações entre o Banco Master e o BRB”, buscando desvincular-se da narrativa de sabotagem e guerra.

Os irmãos Batista são mencionados em outro diálogo de Vorcaro, de julho de 2024, em um contexto menos beligerante, mas igualmente revelador sobre as percepções de influência política. Fernando Mascarenhas, então diretor comercial do Master, comentou sobre uma conversa a respeito do banco: “Unica coisa que falaram que somos proximos do governo, igual irmaos batista sao. O que é verdade rsrs.” A resposta de Vorcaro foi elucidativa: “kkkk. Isso ai e mkt [marketing] pra nos. Manda pro Lula e pra base aliada.” Essa troca de mensagens sugere que a percepção de proximidade com o governo era vista como um ativo estratégico, uma ferramenta de marketing e influência, ecoando a notória capacidade dos Batista de navegar pelos corredores do poder.

Os paralelos entre Daniel Vorcaro e os irmãos Batista não se limitam apenas à percepção de influência política. Assim como os executivos da J&F, Vorcaro também foi alvo de prisão no âmbito de investigações sobre um esquema bilionário de corrupção que envolvia lideranças de diversas matizes políticas. No entanto, uma diferença crucial emerge: ao contrário dos Batista, que firmaram acordos de colaboração premiada, o dono do Banco Master não tem demonstrado sinais de que pretende seguir o mesmo caminho, o que pode indicar uma estratégia de defesa distinta ou uma aposta em outros desfechos jurídicos.

A saga do Banco Master e o embate com os Batista, permeados por negociações bilionárias, lobby político e acusações de sabotagem, revelam a intrincada teia de relações entre o poder econômico e o poder político no Brasil. A liquidação do Master e as mensagens de Vorcaro servem como um lembrete contundente dos riscos e das estratégias agressivas que podem ser empregadas em disputas de alto calibre, onde a “guerra” pode ser travada tanto nos gabinetes do Banco Central quanto nos corredores do Palácio do Planalto, com consequências que reverberam por todo o sistema financeiro e político do país.

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