O Ministério Público Federal (MPF) no Rio Grande do Sul abriu, em 30 de setembro de 2026, uma investigação formal para apurar se o renomado apresentador Luciano Huck e a TV Globo infringiram a legislação eleitoral brasileira. O foco da apuração é a divulgação da plataforma digital “TemMeuVoto”, realizada ao vivo durante o programa “Domingão com Huck” no último domingo, 27 de setembro de 2026. A iniciativa do MPF surge após a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) acionar a Procuradoria-Geral Eleitoral, levantando sérias questões sobre a imparcialidade e a conformidade da ferramenta com as normas que regem o período eleitoral, a poucos dias do pleito.
A controvérsia central gira em torno da natureza e do impacto da plataforma “TemMeuVoto”, descrita pelo próprio Luciano Huck como um “tinder eleitoral”. Durante a transmissão, o apresentador explicou o funcionamento da ferramenta: “O eleitor responde a um questionário sobre oito temas, o que ele acha mais importante, o que ele considera fundamental, e o sistema calcula o percentual de alinhamento com cada candidatura, a deputado estadual, federal e senador”. Huck enfatizou a abrangência da plataforma, afirmando que ela conta com “quase 20 mil candidaturas na base”, e reiterou sua suposta neutralidade: “é apartidário, não indica candidato, não indica voto, a decisão é do eleitor, mas ajuda a encontrar quem tem ideias parecidas com as suas”.
No entanto, a denúncia que motivou a ação do MPF baseia-se em uma enxurrada de comentários e alegações de eleitores, internautas e figuras políticas nas redes sociais. Essas manifestações apontam para um suposto viés da plataforma, afirmando que o “match” – o alinhamento de ideias – ocorreria predominantemente, ou mesmo exclusivamente, com candidatos da direita e extrema-direita. Essa percepção de parcialidade, se comprovada, contradiria diretamente as declarações de Huck e a premissa de neutralidade da ferramenta, levantando preocupações sobre a manipulação da opinião pública em um momento crucial do calendário eleitoral.
A investigação do MPF, instaurada em um período tão próximo das eleições, adquire uma relevância particular. O órgão deverá analisar minuciosamente se a divulgação da ferramenta em um programa de televisão de grande alcance nacional, como o “Domingão com Huck”, pode ter caracterizado alguma irregularidade sob a legislação eleitoral vigente. As leis eleitorais são rigorosas quanto à propaganda e à influência sobre o eleitorado, buscando garantir a equidade e a lisura do processo democrático. A exposição massiva de uma plataforma com um suposto viés político, mesmo que indiretamente, poderia ser interpretada como uma forma de propaganda eleitoral velada ou de desequilíbrio na disputa.
A TV Globo, como emissora responsável pela veiculação do programa, e Luciano Huck, como apresentador e figura pública de grande influência, encontram-se agora sob o escrutínio das autoridades. A apuração não visa apenas a plataforma em si, mas a conduta da emissora e do apresentador em relação à sua divulgação. A legislação eleitoral brasileira impõe limites estritos à participação de veículos de comunicação e de seus profissionais em campanhas políticas, especialmente no que tange à promoção de candidaturas ou ideologias políticas específicas, mesmo que de forma sutil.
Em resposta às acusações e à investigação, a plataforma “TemMeuVoto” emitiu uma nota oficial. No comunicado, a empresa reiterou sua posição de que “não recomenda voto e nem favorece partido”. A nota enfatiza a transparência de sua metodologia, afirmando que “o site permite ao eleitor comparar suas posições com as das candidaturas, com metodologia pública, disponível para consulta, e critérios iguais para todos”. Essa defesa busca desqualificar as alegações de viés, argumentando que a ferramenta opera com base em princípios objetivos e acessíveis, permitindo que qualquer pessoa verifique sua imparcialidade.
A Procuradoria-Geral Eleitoral, acionada pela deputada Fernanda Melchionna, desempenha um papel crucial na fiscalização das eleições e na garantia da conformidade com a legislação. A ação da parlamentar do PSOL-RS reflete a crescente vigilância sobre a influência da mídia e das plataformas digitais no processo eleitoral, especialmente em um cenário onde a desinformação e os vieses algorítmicos podem ter um impacto significativo na formação da opinião do eleitor. A proximidade do pleito intensifica a urgência da investigação, pois qualquer decisão ou esclarecimento pode ter repercussões diretas no comportamento dos eleitores.
O desdobramento desta investigação será acompanhado de perto por toda a sociedade, não apenas pela sua implicação para Luciano Huck e a TV Globo, mas também pelas discussões mais amplas que levanta sobre a ética na comunicação, a responsabilidade das grandes mídias e a regulamentação de ferramentas digitais em contextos eleitorais. A transparência e a imparcialidade são pilares fundamentais para a credibilidade do processo democrático, e a apuração do MPF visa justamente salvaguardar esses princípios, garantindo que a informação disponibilizada ao eleitor seja livre de influências indevidas. O resultado da investigação poderá estabelecer precedentes importantes para a atuação de veículos de comunicação e personalidades públicas em futuras eleições.