Uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master, extrajudicialmente liquidado, revelou uma série de mensagens trocadas em 2024 e 2025 que colocam o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), no centro de um suposto esquema de negócios milionários. Os diálogos, encontrados no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apontam para uma relação pessoal e profissional próxima entre os dois, com Motta supostamente intermediando um empréstimo de R$ 22 milhões do Banco Master para a cunhada do parlamentar, destinado à aquisição de um terreno em João Pessoa, Paraíba, para um ambicioso projeto imobiliário. A revelação, que veio à tona em 2026, levanta sérias questões sobre a conduta de um dos mais altos representantes do Legislativo brasileiro e a influência de sua posição em transações financeiras privadas.
As conversas, inicialmente publicadas pelo jornalista Mino Pedrosa, do site Fatos Online, e posteriormente obtidas e confirmadas pelo Correio Braziliense, detalham a participação ativa de Hugo Motta na negociação. O parlamentar, que em determinado momento chega a chamar Vorcaro de “amigo”, demonstra profundo conhecimento e envolvimento nos trâmites para a aquisição de uma área em João Pessoa. O objetivo era a construção de um novo bairro no local de uma antiga fábrica de cimento, um empreendimento de grande porte que exigiria um aporte financeiro significativo.
A proximidade entre Motta e Vorcaro é evidenciada não apenas pelo tom informal das mensagens, mas também pela natureza dos assuntos tratados. Em um dos diálogos, datado de um sábado, Motta escreve: “Boa noite amigo! Td bem? (SIC) Desculpa incomodar no sábado, estou aqui reunido com o pessoal para finalizar a negociação de compra da área aqui de JP. Conforme falamos, já temos os documentos assinados passando a empresa para minha cunhada, ela iniciou a negociação com a Adriana mas acredito que ela não tá sabendo do formato de sociedade que ficou combinado. Quando puder me orienta como devemos proceder pq o prazo é curto para saldar com a Intercement. ABS! (SIC)”. A mensagem revela a urgência e a complexidade da operação, com Motta buscando orientação direta do banqueiro para resolver impasses e garantir o cumprimento de prazos.
A resposta de Vorcaro, “Vamos fazer uma operação rápida com a Adriana, em paralelo organizamos a questão da sociedade”, demonstra a prontidão e a disposição do banqueiro em atender às solicitações do deputado. No dia seguinte, Motta agradece a ajuda, confirmando o sucesso da operação: “Boa tarde amigo! Td bem? (SIC) Passando para agradecer a confiança e a parceria, deu tudo certo a tempo de cumprir o contrato. Depois vamos marcar uma conversa para traçar os próximos passos, acredito que vamos ter êxito no projeto! Forte abraço!”. Esses trechos, extraídos diretamente dos arquivos da PF, pintam um quadro de colaboração intensa e resultados rápidos, levantando suspeitas sobre a natureza da “parceria”.
O cerne da transação era um empréstimo de R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master à empresa da cunhada de Hugo Motta. Esse valor seria utilizado para a compra do terreno da antiga fábrica de cimento em João Pessoa. A participação do presidente da Câmara não se limitava a meras indicações; ele atuava diretamente na articulação, informando a Vorcaro sobre o “sucesso nas ações para passar a empresa para o nome da cunhada dele” e discutindo os “próximos passos” do projeto imobiliário. Além disso, os diálogos também mencionam uma viagem de Motta em um jatinho particular do banqueiro, partindo de São Paulo, o que reforça a percepção de uma relação que ia além do estritamente profissional.
Diante da repercussão, Hugo Motta foi procurado pelo Correio Braziliense para se manifestar sobre as acusações. Em sua defesa, o presidente da Câmara afirmou que, em seu quarto mandato como parlamentar, sempre manteve diálogo com diversos segmentos do empresariado e representantes da sociedade brasileira. Ele enfatizou que não há “nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados” e repudiou a tentativa de atribuir “conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento” por sua parte. Motta garantiu ter uma “vida limpa” e uma “atuação política limpa” ao longo de seus 15 anos de vida pública.
O deputado também buscou contextualizar o empréstimo, argumentando que o contrato entre a empresa privada de sua cunhada e o Banco Master foi firmado em um período em que “não se tinha conhecimento dos fatos e investigações que posteriormente vieram a público sobre o Master e o seu dono”. Essa declaração sugere que, à época da transação em 2024 e 2025, as irregularidades que levariam à liquidação extrajudicial do Banco Master e à investigação de Daniel Vorcaro ainda não eram de conhecimento público. No entanto, a defesa não aborda diretamente a questão da intensa intermediação de um presidente da Câmara em um negócio privado de sua família com um banco que viria a ser alvo de investigações.
A revelação desses diálogos ocorre em um momento de grande escrutínio sobre a relação entre poder político e interesses econômicos no Brasil. A liquidação do Banco Master e as investigações sobre Daniel Vorcaro já haviam gerado grande atenção, e a inclusão do nome de Hugo Motta, uma figura de proeminência no cenário político nacional, adiciona uma nova camada de complexidade e gravidade ao caso. A Polícia Federal continua a analisar o vasto material apreendido, e novas revelações podem surgir, impactando a imagem e a carreira política do presidente da Câmara dos Deputados. A sociedade brasileira aguarda por mais esclarecimentos e por uma investigação aprofundada que determine a legalidade e a ética das transações reveladas.