Hoje, 29 de setembro de 2026, a TV Globo marca um ponto de virada na teledramaturgia brasileira com a aguardada estreia do filme “90 decibéis”. A produção, que coloca em foco a experiência da surdez e a vida de pessoas com deficiência, é protagonizada por Benedita Casé Zerbini, 37 anos, filha da renomada apresentadora e atriz Regina Casé e do artista plástico Luiz Zerbini. A carioca, que perdeu a audição aos quatro anos de idade, assume o papel central de Ana, uma advogada que enfrenta a progressão da surdez, em uma narrativa que espelha sua própria jornada e desafia percepções sobre a deficiência oculta. Sua ascensão ao estrelato, motivada justamente por sua condição auditiva, não apenas a consolida como atriz, mas também impulsiona um debate crucial sobre a importância da representatividade no audiovisual brasileiro.
A trajetória de Benedita é um testemunho da capacidade de transformar desafios em propósitos. Antes de brilhar nas telas, ela atuava nos bastidores como diretora audiovisual, uma função que a mantinha longe dos holofotes. No entanto, sua surdez, que poderia ser vista como um impedimento, tornou-se o catalisador para sua transição para a atuação. “Eu me tornei atriz porque sou surda”, afirma Benedita, em uma declaração que resume a essência de sua jornada. Essa condição, que a acompanha desde a infância, moldou sua percepção de mundo e a preparou para dar vida a personagens que compartilham experiências semelhantes. A atriz, que desenvolveu a fala e se comunica por meio da voz e da leitura labial, enfrentou e superou inúmeras barreiras, incluindo questões de dicção e intensas sessões de fonoaudiologia, que a fizeram duvidar de sua própria capacidade de se expressar.
O filme “90 decibéis” mergulha na vida de Ana, uma advogada que, ao perceber uma perda auditiva progressiva, se vê diante da perspectiva da surdez profunda. A trama acompanha seu longo e complexo processo de adaptação, tanto na esfera pessoal quanto profissional, e sua redescoberta de identidade. Benedita Casé Zerbini encontra profundas ressonâncias entre a história de Ana e sua própria vivência. Ela descreve um sentimento comum de deslocamento e a aversão a ser vista como vítima ou merecedora de parabéns por feitos que, para ela, são apenas parte da vida. “A gente tem em comum esse sentimento de se sentir deslocada. Não querer que ninguém fique com pena ou te dê parabéns por alguma coisa que você está fazendo de extraordinário que, na verdade, não é extraordinário. É uma coisa comum”, compara. Para Benedita, a luta é simplesmente viver a vida, driblando os obstáculos que surgem.
A autenticidade é um pilar fundamental de “90 decibéis”. O diretor Felipe Barbosa adotou uma estratégia de filmagem que busca a máxima proximidade e honestidade com os personagens. Ele filmou os atores na altura do olhar e em closes intensos, com o objetivo de permitir que o público enxergasse cada indivíduo em sua complexidade, sem reduzi-lo à sua deficiência. A ideia era “trazer a realidade para dentro da ficção”. Barbosa pediu a Benedita que fosse “muito honesta em cena com aquilo que ouvia ou não, e que reagisse de verdade sempre que não compreendesse alguma coisa”. Essa abordagem ressaltou a habilidade da atriz em ler lábios, que exige um olhar atento e profundo, resultando em uma performance cinematográfica singular. “Nunca filmei tanto close na vida”, comenta o diretor, evidenciando a intensidade da experiência.
Um dos aspectos mais revolucionários do filme é a composição de seu elenco: cerca de 70% dos atores são pessoas com diferentes condições de deficiência, incluindo nomes como Stefano Carta, Pedro Neschling e Cleber Tolini. Essa escolha não é apenas um gesto de inclusão, mas uma decisão artística que enriquece a narrativa e confere uma camada de autenticidade inigualável. Ao apresentar um elenco tão diverso, “90 decibéis” não apenas oferece oportunidades para artistas historicamente marginalizados, mas também educa o público, desmistificando a deficiência e mostrando a pluralidade de experiências humanas.
A roteirista de “90 decibéis”, Julia Spadaccini, também é uma voz importante nesse movimento. Com perda auditiva bilateral neurossensorial progressiva, diagnosticada na fase adulta, Julia teve uma trajetória oposta à de Benedita. Ela deixou de ser atriz devido ao diagnóstico e encontrou na escrita uma forma de se manter “mais reclusa” e, ao mesmo tempo, criar a representatividade que não via nas telas ou nos palcos. Foi Julia quem convidou Benedita para estrelar o monólogo “Surda”, que encerrou sua temporada no mês passado, após ver o trabalho da atriz no longa. A peça, desenvolvida por Julia seis anos antes, é outro exemplo do poder da arte em dar voz a experiências silenciadas. A dicotomia entre as duas artistas – Julia desistindo da atuação por sua condição e Benedita abraçando-a pela mesma razão – ilustra as múltiplas formas de lidar e se expressar diante da deficiência.
A importância de “90 decibéis” e do trabalho de Benedita e Julia transcende o entretenimento. O filme tem o potencial de criar um “novo imaginário” sobre as pessoas com deficiência, desafiando estereótipos e promovendo uma visão mais humana e complexa. Benedita enfatiza que a representação é fundamental para a existência e o reconhecimento social. “Isso muda completamente o olhar das pessoas. Essa é a importância de se ter representações. Porque, se a gente não se vê na tela, a gente não existe simplesmente, a gente não é considerado”, aponta a atriz. Essa afirmação ressoa profundamente em um país onde a inclusão ainda é um desafio diário para milhões de pessoas.
A equipe por trás de “90 decibéis” e “Surda” compartilha a esperança de que o sucesso dessas produções abra mais e mais portas para artistas com deficiência. A visibilidade de Benedita Casé Zerbini na TV Globo, em um papel de tamanha relevância, é um marco que pode inspirar uma nova geração de talentos e transformar a paisagem do audiovisual brasileiro. É um convite à sociedade para olhar além das limitações e reconhecer o valor, a arte e a humanidade em todas as suas formas. A estreia de “90 decibéis” não é apenas o lançamento de um filme; é a celebração de uma voz que se recusa a ser silenciada e um passo significativo em direção a um futuro mais inclusivo e representativo.