PF Aprofunda Investigação: Rota de US$ 12 Milhões para Filme “Dark Horse” de Bolsonaro Levanta Suspeitas de Irregularidades Financeiras

Capa
A Polícia Federal (PF) intensifica a investigação sobre a complexa rota de pagamentos que viabilizou o financiamento do filme “Dark Horse”, uma produção cinematográfica sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O centro da apuração é a atuação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, que, diante de sucessivos impasses cambiais para enviar dinheiro ao exterior, alterou a estratégia de remessas. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelam que, após dificuldades persistentes, US$ 2 milhões foram transferidos em fevereiro de 2025 pela empresa Entre Investimentos e Participações Ltda. para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos, marcando o início de uma série de sete transferências que totalizaram US$ 12,33 milhões até setembro do mesmo ano. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é candidato à Presidência da República, é apontado em mensagens como solicitante de R$ 131 milhões para o projeto, dos quais cerca de R$ 60 milhões teriam sido quitados, embora ele negue qualquer irregularidade. A trama financeira, que se desenrola desde dezembro de 2024, expõe a urgência e a prioridade que Vorcaro atribuía ao projeto, inicialmente conhecido como “Capitão do Povo”. Documentos apreendidos pela PF, incluindo um acordo de financiamento e um plano de negócios, indicam um investimento total previsto de US$ 24 milhões, a ser dividido em parcelas. As conversas no celular de Vorcaro, reveladas por veículos como Carta Capital e Intercept Brasil, mostram uma saga de obstáculos burocráticos e cambiais que quase inviabilizaram os primeiros repasses. Em janeiro de 2025, a pressão por pagamentos já era evidente. No dia 20, o publicitário Thiago Miranda, envolvido no projeto, alertou Vorcaro sobre a data-limite para o primeiro repasse. Oito dias depois, Vorcaro questionou seu cunhado, Fabiano Zettel, sobre o pagamento do filme, recebendo como resposta: “irmão, Não vem 1 real tem 3 semanas… kkkkkkk Paguei foi nada…”. A reação de Vorcaro foi enfática, classificando o projeto como “o mais importante disparado” e determinando que “não pode falhar mais”. As dificuldades não se limitavam apenas à obtenção dos recursos, mas também à estrutura necessária para as operações financeiras. Em 29 de janeiro, Zettel informou a Vorcaro que uma empresa que ele havia criado não possuía o cadastro adequado para realizar as transações do filme, questionando a possibilidade de usar outra estrutura. No dia seguinte, o valor em questão foi confirmado: “2M de dólares”. O impasse persistiu, gerando frustração. Em 31 de janeiro, Vorcaro cobrou Zettel novamente, que respondeu com um desabafo: “Amigo, não faz assim que me dá dor de barriga…”, e reiterou que aguardava uma definição sobre qual empresa seria utilizada. A tensão escalou em 3 de fevereiro, quando Zettel incluiu “resolver filme” em suas pendências. Vorcaro reagiu com impaciência: “como assim”, “Nao fez sl?” e “Nem filme”. Zettel, por sua vez, defendeu-se: “amigo, não faz assim comigo!! Eu te escrevo todo dia!!”. Dois dias depois, a estratégia mudou drasticamente. Em 5 de fevereiro, Zettel informou que a operação do filme ainda estava pendente e que o envio do dinheiro estava “dando caso”. Foi então que Vorcaro sugeriu a alternativa crucial: “vamos fazer via entre”. Zettel respondeu que pediria “pro Minas”, uma referência que, segundo o SBT News, antecedeu o envolvimento da Entre Investimentos e Participações, do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Contudo, a mudança de rota não eliminou os problemas imediatamente. Em 6 de fevereiro, Thiago Miranda procurou Vorcaro para informar que o pagamento continuava travado. “Estamos com problema pra fazer o cambio e olha que estou fazendo interno”, explicou Vorcaro, prometendo solucionar a questão no mesmo dia. Cinco dias depois, em 11 de fevereiro, o problema ainda persistia. Zettel, questionado por Vorcaro, afirmou ter encaminhado a questão a “Mineiro”, que também enfrentava dificuldades. “O câmbio não quer fazer…”, escreveu Zettel, citando problemas de cadastro e informações consideradas “meio estranhas”. A primeira transferência que a investigação da PF conseguiu rastrear ocorreu em 13 de fevereiro de 2025. No dia seguinte, Zettel enviou a Vorcaro o comprovante de uma operação internacional de US$ 2 milhões, realizada pela Entre Investimentos e Participações Ltda. em favor do Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, acompanhado da palavra “filme!”. Esta foi a primeira de sete remessas identificadas pela PF, que ocorreram entre fevereiro e setembro de 2025, totalizando US$ 12,33 milhões. Os valores se aproximam das parcelas previstas no acordo de financiamento encontrado no celular de Vorcaro, que estipulava duas parcelas iniciais de US$ 2 milhões e pagamentos subsequentes de aproximadamente US$ 1,67 milhão. Mesmo após o início dos pagamentos, as cobranças não cessaram. Em 12 de março, Miranda informou a Vorcaro que “sobre o filme só foi pago a primeira de janeiro”. Vorcaro, então, cobrou Zettel, pedindo ajuda para “controlar isso” e afirmando que “tem que pagar a segunda e a terceira”. Zettel respondeu que cobraria “Mineiro” e expressou sua crença de que os pagamentos estavam sendo realizados. As mensagens revelam novas cobranças nos meses seguintes. Em agosto, Miranda enviou a Vorcaro uma tabela indicando que, dos quase US$ 24 milhões previstos, apenas cerca de US$ 10,67 milhões haviam sido recebidos até então. Em outubro, a situação continuava crítica. No dia 22, Miranda alertou Vorcaro que a produção poderia parar caso as parcelas não fossem liberadas. Vorcaro respondeu afirmativamente, dizendo que havia liberado “mais uma hoje”, e pediu a Miranda que transmitisse um recado: “pede desculpas os atrasos meu esforço tem sido máximo possível e prioridade total. Apesar de qq tempestade vou ate o fim com isso”. Contudo, documentos da investigação divulgados posteriormente indicam que o pagamento mencionado nessa ocasião não chegou a ser efetivado. Em 31 de outubro, Miranda informou que os documentos haviam chegado, mas o dinheiro não. Vorcaro respondeu que a operação havia “voltado” e seria refeita. A Polícia Federal continua a aprofundar a investigação para esclarecer o percurso exato dos recursos, a natureza das dificuldades cambiais e, principalmente, a destinação final do dinheiro, buscando determinar se houve irregularidades nas operações que envolveram o financiamento do filme “Dark Horse”.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *