Flávio Bolsonaro Ataca Lula como “Pai do Tigrinho” em Meio a Crise das Apostas e Acusações de Aparelhamento Estatal

Em um cenário político e eleitoral cada vez mais polarizado, o candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), lançou nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, uma ofensiva contundente contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante um evento de campanha no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), em Jardim Sulacap, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Bolsonaro reagiu à iminente Medida Provisória do governo federal que visa proibir as apostas online no Brasil, acusando Lula de hipocrisia eleitoreira e de ser o “pai do Tigrinho”, em uma referência direta ao popular e controverso jogo de cassino online. A declaração ocorre a apenas nove dias das eleições gerais, marcadas para 4 de outubro, intensificando o debate sobre a regulamentação do setor de apostas e as acusações de aparelhamento da máquina pública.
A crítica de Flávio Bolsonaro surge no momento em que o governo Lula se prepara para anunciar a proibição de diversas modalidades de apostas, incluindo jogos de cassino online como o “Jogo do Tigrinho”, caça-níqueis e roletas, além das apostas esportivas. Bolsonaro não poupou palavras, afirmando que Lula tem “dois filhos que fizeram muito mal ao Brasil: o Lulinha e o Tigrinho”, e classificou a medida como uma “atitude populista, hipócrita, eleitoreira”, sugerindo que a proibição poderia ser revertida após as eleições. A acusação central de Bolsonaro é que Lula teria permitido a expansão descontrolada do setor de apostas online e agora tenta reverter a situação às vésperas do pleito, em uma manobra política.
Apesar de sua postura crítica, Flávio Bolsonaro fez uma distinção crucial entre os jogos de cassino online e as apostas esportivas. Enquanto prometeu “acabar com o Tigrinho”, o candidato não se comprometeu a vetar as apostas em resultados de jogos de futebol e suas variantes, como placar da partida ou número de cartões. “Sempre fui contra os jogos. Uma coisa é você permitir que brasileiros, por livre e espontânea vontade, possam apostar em jogos que são reais, em jogo de futebol. E mesmo assim tem questionamento. O que Lula permitiu foi a legalização do cassino on-line, do ‘Jogo do Tigrinho'”, declarou. Essa diferenciação levanta questões sobre a consistência de sua posição e a viabilidade de uma regulamentação que separe tão claramente as modalidades de apostas.
O histórico legislativo das apostas no Brasil é complexo e serve de pano de fundo para as acusações. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas em 2018, durante o governo de Michel Temer. No entanto, o setor experimentou um crescimento exponencial e sem qualquer regulamentação efetiva durante a gestão Bolsonaro. Foi apenas em 2023, sob o governo Lula, que os jogos online, incluindo os cassinos virtuais, foram formalmente incluídos na legislação. Curiosamente, durante a tramitação no Senado, houve uma tentativa de excluir os cassinos online do texto final, mas essa restrição não prevaleceu, resultando na inclusão que agora o governo Lula tenta reverter. Essa cronologia contradiz diretamente a narrativa de Flávio Bolsonaro de que Lula seria o único responsável pela “legalização do cassino online”.
A jornalista Míriam Leitão, em sua análise, já havia desmentido as alegações de Flávio Bolsonaro sobre as apostas online, apontando as “mentiras” em sua argumentação. A complexidade da legislação e a participação de diferentes governos na formação do arcabouço legal das apostas sugerem que a questão é muito mais multifacetada do que a simplificação apresentada pelo candidato. Além disso, a proibição das bets, que movimenta mais de R$ 1 bilhão em patrocínios no futebol brasileiro, ameaça o rompimento de contratos e gera incerteza econômica em um setor que se tornou vital para a sustentabilidade financeira de muitos clubes.
Flávio Bolsonaro também aproveitou a ocasião para acusar o governo de omissão diante das plataformas clandestinas, afirmando que “Lula não faz porque não quer, ele não fiscaliza. Grande parte desses sites é ilegal. Lula não faz absolutamente nada para coibir.” Essa crítica, no entanto, é feita no contexto de um governo que agora propõe uma proibição total, o que levanta a questão se a fiscalização seria a solução ou se a proibição é a única via para o controle. A proximidade da medida com as eleições gerais, em 4 de outubro, também gerou preocupação nos bastidores, com fontes anônimas sugerindo que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia ser questionado sobre a legalidade de tal anúncio em período eleitoral.
Durante o evento de campanha, onde foi apresentado como senador, Flávio Bolsonaro esteve acompanhado de importantes figuras do PL, como o candidato ao governo do Rio e presidente da Alerj, Douglas Ruas, o senador e candidato à reeleição Carlos Portinho, e o deputado federal e candidato ao senado Carlos Jordy. A presença desses aliados reforça a dimensão da agenda eleitoral do candidato, que se mostra confiante. Ele afirmou que pesquisas internas de sua campanha já o colocam à frente do presidente no primeiro turno e previu uma vitória em 4 de outubro. “Lula virou um produto vencido, uma mercadoria vencida, um material fatigado que ninguém aguenta mais. Manda Lula andar aqui no meio do povo, no meio da rua, como eu estou fazendo, arrastando multidões. Daqui a nove dias, vocês verão Flávio Bolsonaro presidente da República no primeiro turno”, declarou, em um tom de desafio direto ao atual presidente.
Além das questões sobre apostas, Flávio Bolsonaro aproveitou a plataforma para defender-se de outras controvérsias. Ele abordou a viagem que fez com a família em janeiro de 2025 em um jato particular, que tinha entre seus proprietários uma empresa ligada a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Bolsonaro afirmou ter voado a convite de seu amigo, o advogado Willer Tomaz, um dos cotistas da aeronave, e negou qualquer irregularidade. “Foi uma viagem em família, a convite dele. Estavam minha esposa e minhas filhas. Eu viajei com um dono do avião. Não tenho absolutamente nada de errado. Não dá para querer criminalizar a amizade agora”, disse. A viagem, revelada pelo GLOBO e investigada pela revista Piauí, ganhou contornos mais complexos com a informação de que Tomaz é investigado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de fraudes em benefícios do INSS. Em uma ironia nas redes sociais, Bolsonaro havia postado: “Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes”, insinuando perseguição.
A defesa de Flávio Bolsonaro se estendeu a acusações de perseguição a pessoas de seu entorno, sem, contudo, apresentar provas. “Que mundo vocês vivem que não estão vendo o aparelhamento que Lula fez na máquina do Estado? É Supremo aparelhado, Ministério Público aparelhado, Polícia Federal aparelhada, até Defensoria Pública aparelhada. Todo mundo mobilizado para perseguir qualquer pessoa no meu entorno”, afirmou. Essa retórica de “aparelhamento” ecoa a manchete do NYT sobre um “escândalo explosivo” envolvendo um juiz que prendeu Bolsonaro (referindo-se ao ex-presidente, não ao candidato Flávio), que “redesenha a eleição e energiza a direita”, sugerindo um clima de desconfiança generalizada nas instituições por parte de setores políticos. A dureza de algumas dessas manifestações, inclusive, gerou surpresa nos bastidores da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Outra alegação que Flávio Bolsonaro fez questão de desmentir foi a de que teria apoiado uma proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, uma acusação que circulou nas redes sociais. “É mentira que eu tenha apoiado algum projeto para retirar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Jamais faria isso”, garantiu, antes de contra-atacar Lula, afirmando que “a cada quatro anos, ele vira cristão e frequenta igreja”, em uma clara tentativa de descreditar a fé do adversário em período eleitoral. A série de declarações de Flávio Bolsonaro, que vão desde a crítica à política de apostas até a defesa pessoal e acusações de aparelhamento, desenha um quadro de intensa disputa política e eleitoral, com os candidatos utilizando todos os recursos disponíveis para moldar a percepção pública a poucos dias do pleito.
Enquanto o governo federal, por meio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, anuncia a proibição das bets e prevê gastar R$ 15 bilhões com um novo programa, o cenário eleitoral se adensa. A campanha de Flávio Bolsonaro, com suas declarações incisivas e a promessa de uma vitória no primeiro turno, busca consolidar seu eleitorado e desestabilizar a base do governo. A questão das apostas online, com suas implicações econômicas e sociais, torna-se mais um campo de batalha em uma eleição já marcada por acusações e contra-acusações, onde a verdade dos fatos muitas vezes se mistura com a retórica política.