Pressão Sem Precedentes: Bernie Sanders e Congressistas dos EUA Exigem Explicações de Trump sobre Interferência nas Eleições Brasileiras de Outubro

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Em um movimento diplomático de alta voltagem, o senador independente Bernie Sanders e um grupo de 30 deputados democratas dos Estados Unidos formalizaram nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, uma cobrança veemente ao governo Donald Trump, exigindo explicações detalhadas sobre uma série de ações que, segundo eles, configuram uma tentativa de interferência nas iminentes eleições presidenciais brasileiras de outubro. A carta, endereçada ao secretário de Estado Marco Rubio, solicita um compromisso explícito de Washington com o respeito ao processo eleitoral do Brasil e o reconhecimento irrestrito dos resultados das urnas, independentemente do candidato vencedor, em meio a crescentes preocupações sobre a postura de Washington.

O documento, obtido pela Folha de São Paulo, é um testemunho da crescente apreensão no Congresso norte-americano sobre a política externa da administração Trump em relação ao Brasil. Os parlamentares, incluindo figuras proeminentes como Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), Pramila Jayapal e Delia Ramirez, que articulou a iniciativa, apontam para uma “aparente tentativa de interferir e potencialmente minar as eleições gerais do Brasil em outubro”. A lista de signatários é robusta, incluindo membros de comissões estratégicas da Câmara dos Representantes, como a de Relações Exteriores e a de Supervisão, encarregada de fiscalizar o Executivo.

A gravidade da situação é sublinhada pela exigência de respostas do Departamento de Estado sobre sete pontos cruciais até o dia 30 de setembro. Entre as principais cobranças estão os critérios utilizados para sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com base na Lei Global Magnitsky, uma medida que gerou profundo desconforto em Brasília. Os congressistas também questionam os fundamentos para a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, e a justificativa para a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti. Além disso, a carta busca clareza sobre a metodologia de avaliação de pedidos de sanções apresentados por estrangeiros e sobre as medidas comerciais e diplomáticas adotadas por Washington contra o Brasil.

Para os signatários, esses episódios, ocorridos desde o início do segundo mandato de Trump, indicam uma escalada preocupante de pressão diplomática, econômica e política sobre o Brasil às vésperas de sua eleição presidencial. Um dos pontos mais destacados é o encontro entre o presidente Donald Trump e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, na Casa Branca. Segundo a carta, Flávio Bolsonaro teria solicitado durante a reunião que os Estados Unidos classificassem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. Apenas dois dias depois, o Departamento de Estado anunciou a inclusão das facções na lista norte-americana, gerando temores no Brasil sobre possíveis consequências extraterritoriais da medida, como sanções financeiras e outras punições contra pessoas e instituições do país, além de receios sobre um eventual uso da força pelos EUA na região.

Outro incidente que acendeu o alerta foi a tentativa de visita ao Brasil de integrantes do Departamento de Estado. Relatos mencionados pelos congressistas indicam que a delegação pretendia levantar dúvidas sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro. A entrada do grupo foi barrada pelas autoridades brasileiras, e, em agosto, o governo Trump respondeu com a revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Viotti. Os parlamentares classificam essa revogação como uma “escalada incomum” nas relações bilaterais, apesar de o Departamento de Estado ter afirmado, após a medida, que respeitaria a escolha do povo brasileiro por meio de eleições “livres e justas”.

A porta-voz do Departamento de Estado, Amanda Roberson, reiterou a posição oficial à Folha, após os discursos de Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, afirmando que “o Brasil é um país independente e democrático” e que a decisão sobre o próximo presidente “é decisão dos brasileiros”. Ela garantiu que os EUA “vão estar sempre trabalhando com o Brasil, independente de quem seja o próximo presidente”, e que desejam ver “eleições livres e justas”.

No entanto, a cobrança dos congressistas surge em um contexto de ampliação das preocupações internas no Brasil. A Folha revelou que um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” elevou a possibilidade de influência e interferência externa norte-americana a um “nível de criticidade”. Em resposta a esse cenário, a campanha do presidente Lula acionou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral nesta quarta-feira, 22 de setembro de 2026, buscando medidas contra possíveis interferências dos Estados Unidos na eleição brasileira.

Os parlamentares norte-americanos traçam um contraste marcante entre a postura atual de Washington e a adotada durante a eleição brasileira de 2022, quando o governo dos EUA reconheceu prontamente a vitória de Lula. Eles também recordam o apoio dos Estados Unidos às instituições brasileiras após os ataques de 8 de janeiro de 2023. Agora, contudo, os signatários afirmam que Washington vive uma “realidade fundamentalmente diferente” e acusam o governo Trump de agir como um “agente de interferência e desestabilização” por meio de pressão diplomática, econômica e política sobre o Brasil.

O documento vai além do caso brasileiro, sustentando que ele faria parte de um “padrão mais amplo e profundamente preocupante de interferência” em processos eleitorais na América Latina, com o risco de “erodir progressivamente a confiança” nas instituições democráticas da região. A preocupação é palpável entre os democratas.

Bernie Sanders, um dos principais articuladores da carta, teve um encontro com o presidente Lula nesta semana, à margem da Assembleia Geral da ONU. Segundo auxiliares, Sanders questionou o presidente brasileiro sobre a possibilidade real de interferência nas eleições no Brasil. Lula teria respondido que o governo está vigilante, mas que não acredita que haverá interferência. Pramila Jayapal já havia declarado à Folha, em agosto, que via uma tentativa de Trump de interferir na eleição brasileira e afirmou que os democratas agiriam. Caso o partido conquiste a maioria da Câmara nas eleições legislativas de novembro, integrantes das comissões citadas na carta poderiam ampliar a fiscalização sobre a política do governo Trump para o Brasil, inclusive por meio de audiências, investigações e condicionamentos orçamentários relacionados à política externa.

A situação, portanto, permanece tensa e em evolução, com o Congresso norte-americano e as instituições brasileiras em alerta máximo. A demanda por transparência e respeito à soberania eleitoral brasileira ecoa não apenas em Brasília, mas agora também nos corredores do poder em Washington, prometendo um desdobramento crítico nas relações entre os dois países nas próximas semanas.

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