Escândalo Master: R$ 1,4 Bilhão em Precatórios Transferidos Antes da Liquidação Expõe Teia de Conexões e Suspeitas de Ocultação Patrimonial

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O Banco Master, que teve sua liquidação determinada pelo Banco Central em novembro de 2025 em decorrência de uma série de fraudes, realizou a transferência de R$ 1,44 bilhão em créditos de precatórios para a Entre Investimentos, uma empresa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro e controlada pelo hoje delator Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. A operação, concretizada entre 7 e 9 de outubro de 2025, apenas um mês antes do encerramento das atividades do banco, está agora sob o escrutínio da Justiça. A liquidante do Master, em ação apresentada há uma semana, afirma não haver comprovação de que os pagamentos correspondentes tenham sido efetivamente realizados ao banco, levantando sérias suspeitas de que a transação possa ter integrado um complexo mecanismo de circulação e ocultação patrimonial em benefício de Vorcaro. A investigação aponta que o Banco Master, em sua tentativa de capitalização e enfrentamento da crise, repassou os direitos sobre esses precatórios à Entre Investimentos, que se comprometeu a pagar R$ 1,28 bilhão pelo acervo, um desconto de 10,8% sobre o valor total. Precatórios são dívidas do poder público reconhecidas pela Justiça, e o Master havia se especializado na aquisição desses ativos, inflando seu patrimônio por meio dessa estratégia. A liquidante, no entanto, não conseguiu identificar a origem dos recursos ou ativos que supostamente teriam sido entregues como contrapartida, intensificando a gravidade das acusações. A ação judicial busca impedir que a Entre Investimentos transfira ou dê outra destinação a esses ativos enquanto as investigações prosseguem, visando proteger o patrimônio do banco liquidado.

A Teia dos Precatórios e as Conexões Judiciais

Os precatórios em questão são indenizações reivindicadas por usinas de açúcar contra a União, decorrentes do antigo controle de preços exercido pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool. Como tais ações podem levar décadas para serem julgadas, os detentores originais frequentemente vendem seus direitos a esses créditos com desconto, enquanto o comprador assume o risco e o tempo das disputas judiciais, esperando receber valores superiores ao desembolsado. Os seis contratos transferidos à Entre Investimentos estavam associados às companhias Açucareira Central Sumaúma, Usina Catende, Usina São João, Açucareira Paraíso, Usina Outeiro e Agrícola Baixa Grande. A atuação em alguns desses processos judiciais, que tramitam na primeira e segunda instâncias da Justiça Federal no Rio e no Distrito Federal, envolve o escritório da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro revelam que pessoas próximas ao banqueiro se referiam ao casal como integrantes da “Turma do KN”, expressão que a Polícia Federal interpreta como uma possível referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). Esses diálogos, inicialmente publicados pelo portal “Metrópoles”, foram confirmados pelo GLOBO. Uma minuta de contrato, datada de março de 2024, previa o pagamento de honorários de êxito equivalentes a 5% líquidos dos valores recebidos pelo Master em 12 processos de precatórios, incluindo os seis repassados à Entre. Em junho de 2025, a advogada Camilla Ramos celebrou uma decisão da Segunda Turma do STF sobre uma tese jurídica que poderia influenciar os processos das usinas, destacando o voto do Ministro Nunes Marques. Procurado, Nunes Marques negou veementemente qualquer envolvimento, afirmando que nunca votou a favor de Vorcaro ou do Master, não trocou mensagens com o banqueiro e nunca autorizou ninguém a falar em seu nome. O ministro acrescentou que seu voto no STF refletiu sua posição anterior como desembargador e que a tese se aplicaria a “diversas empresas”, não especificamente ao Banco Master. O escritório de Camilla Ramos, por sua vez, declarou ter contrato com o Master há quase três anos, mas que não recebeu honorários do banco e que nenhum dos casos em que atua tramita no STF ou tem vínculo com seus ministros.

Outras Conexões e o Acordo de Delação

Outro nome que emerge na investigação é o da advogada Dalide Corrêa, ex-diretora-geral do IDP, instituto que tem o ministro Gilmar Mendes como sócio. Dalide atuou no processo judicial relacionado à Usina Catende. Em dezembro de 2024, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, cobrou de Vorcaro a autorização de um pagamento à advogada, mencionando uma suposta relação dela com o ministro Gilmar Mendes. Meses antes, Rennó já havia pedido prioridade para uma fatura de R$ 15 milhões, justificando a cobrança com uma “vitória importante no caso da Catende”. Gilmar Mendes, também procurado, afirmou que Dalide Corrêa nunca foi sócia do IDP, ocupou um cargo técnico até novembro de 2016 e que ele não tem conhecimento de sua atuação em processos de precatórios do setor sucroalcooleiro. O ministro ressaltou que Dalide nunca tratou desse assunto com ele. Na última terça-feira, o ministro Gilmar Mendes apresentou uma questão de ordem na 2ª Turma do STF defendendo que os casos relacionados às disputas das usinas com a União fossem julgados em plenário, com a participação de todos os magistrados. O escritório de Dalide Corrêa informou que atuou no processo da Usina Catende nas primeiras e segundas instâncias, mas jamais no STF, e que não manteve contato com ministros do tribunal para tratar desses assuntos.

Ocultação de Ativos e o Financiamento de Filme

A relação entre Daniel Vorcaro e a Entre Investimentos se estende por diversos negócios que estão sob investigação da Polícia Federal. A liquidante do Banco Master, em sua petição à Justiça, afirmou que a cadeia de empresas formada pela Entre e outras sociedades era utilizada para circular e ocultar ativos ligados a Vorcaro, incluindo bens de alto padrão, aeronaves, barcos e participações em hotéis de luxo. De forma ainda mais inusitada, a Entre Investimentos também foi a empresa utilizada por Vorcaro para enviar recursos para os Estados Unidos com o objetivo de financiar o filme “Dark Horse”, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A complexidade do caso ganhou um novo capítulo no início de setembro, quando Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, firmou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República, posteriormente homologado pelo ministro André Mendonça, do STF. Embora os detalhes completos de sua delação ainda não tenham sido integralmente divulgados, a colunista do GLOBO Malu Gaspar adiantou que Freixo Júnior forneceu informações sobre pagamentos, prometendo desvendar ainda mais a intrincada rede de operações financeiras e conexões políticas e judiciais que permeiam o escândalo do Banco Master. Em um desdobramento recente, o ministro Zanin negou o pedido de instalação de uma CPI do Master no Senado, mantendo o foco das investigações nos canais já estabelecidos.

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