Em 23 de setembro de 2026, a Netflix reacende um dos mais enigmáticos e brutais casos criminais da história americana com “Monstro: A História de Lizzie Borden”, a mais recente temporada de sua aclamada antologia. A série mergulha nos hediondos assassinatos de Andrew e Abby Borden, ocorridos em 1892 em Fall River, Massachusetts, pelos quais a jovem Lizzie foi indiciada e, surpreendentemente, absolvida, explorando a complexa e muitas vezes distorcida linha entre a verdade histórica e a licença dramática. A produção, assinada por Ryan Murphy e Ian Brennan, promete desvendar os segredos mais profundos do crime, ao mesmo tempo em que tece uma narrativa que se estende até a década de 1990, conectando o destino de Lizzie à figura de Aileen Wuornos, a primeira mulher a ser catalogada como serial killer pelo FBI.
A história original, um marco na historiografia criminal americana, remonta a 4 de agosto de 1892, quando Lizzie Borden, então com 32 anos, encontrou o corpo de seu pai, Andrew Borden, um proeminente e abastado empresário local, brutalmente assassinado no sofá da sala, com o rosto e a cabeça desfigurados. Minutos depois, no cômodo ao lado, o corpo de sua madrasta, Abby Borden, foi descoberto em circunstâncias igualmente macabras. A brutalidade dos crimes chocou a pequena comunidade de Fall River e rapidamente transformou Lizzie na principal suspeita. Uma semana após as mortes, ela foi indiciada. Contudo, dez meses depois, em um julgamento que capturou a atenção nacional, um júri composto exclusivamente por homens a declarou inocente, deixando o caso sem uma resolução oficial e perpetuando o mistério sobre quem realmente empunhou o machado.
A antologia “Monstro”, conhecida por suas abordagens impactantes de casos reais como os de Jeffrey Dahmer e os irmãos Menendez, utiliza a história de Lizzie Borden para explorar temas de fúria feminina e as “jaulas” sociais impostas às mulheres. Para isso, os criadores Ryan Murphy e Ian Brennan não hesitaram em preencher as lacunas históricas com elementos de ficção, criando uma narrativa que, embora envolvente, se distancia significativamente dos registros oficiais em diversos pontos cruciais. A série apresenta Ella Beatty no papel de Lizzie Borden, Vicky Krieps como a empregada Bridget “Maggie” Sullivan, e Charlie Hunnam como Andrew Borden, entre outros. Personagens como Stephen, um aprendiz do patriarca, e Nance O’Neil, uma atriz que se torna amiga de Lizzie, são introduzidos ou expandidos, alguns com base em figuras reais, outros puramente ficcionais.
### O Limite Entre o Fato e a Fantasia na Releitura de “Monstro”
A série “Monstro” toma liberdades criativas que alteram substancialmente a percepção de eventos e personagens históricos. Uma das primeiras divergências notáveis reside na representação da profissão de Andrew Borden. Embora seja um fato que ele era um homem abastado que construiu sua fortuna com móveis de madeira e serviços funerários em Fall River, a série adiciona um detalhe grotesco: Andrew é mostrado desmembrando corpos para que coubessem nos caixões que ele próprio talhava. Não há, na historiografia criminal ou em qualquer registro da época, qualquer evidência que sustente essa prática macabra. A ficção aqui serve para pintar um quadro mais sombrio e perturbador do patriarca, talvez justificando, na narrativa, a violência que se seguiria.
Outro ponto de ficção central na série é a representação de Lizzie Borden como uma mulher que sofria de dores e sangramentos menstruais intensos, algo que supostamente incomodava profundamente sua madrasta, Abby. A historiografia oficial não contém menção a tais problemas de saúde. Curiosamente, após os assassinatos, a polícia encontrou panos ensanguentados em um balde no porão da casa. Lizzie, questionada, alegou que estava menstruada e utilizava os panos para higiene pessoal, uma versão que foi corroborada por um médico da família, que confirmou seu calendário menstrual. A série, ao dramatizar essa condição, pode buscar adicionar uma camada de sofrimento e tensão à personagem de Lizzie, possivelmente como um catalisador para a suposta fúria feminina que a trama explora.
A cronologia dos eventos familiares também é alterada. “Monstro” sugere que Andrew e Abby se casaram poucas semanas após a morte da mãe de Lizzie, Sarah Morse. No entanto, os registros históricos, como os citados pelo jornal The Herald News e pela revista People, indicam que Sarah Morse faleceu em 26 de março de 1863, e o casamento de Andrew com Abby ocorreu dois anos depois, em 6 de junho de 1865. Essa mudança temporal na série pode ter o objetivo de intensificar a percepção de uma substituição rápida e, talvez, insensível da figura materna, aumentando o ressentimento de Lizzie.
### Conspirações e Relações Fictícias
Um dos elementos mais ousados da série é a representação de uma tentativa de envenenamento prévia aos assassinatos. “Monstro” mostra Lizzie e a empregada, Bridget Sullivan, conspirando para envenenar o casal Borden com ostras no jantar, resultando apenas em mal-estar. Embora seja verdade que o casal Borden, Bridget e outros moradores da casa tenham se sentido indispostos antes das mortes, a cobertura jornalística da época atribuiu isso a um armazenamento inadequado de alimentos, e não a uma tentativa de assassinato. No julgamento de Lizzie, um farmacêutico de fato testemunhou que ela tentou comprar veneno um dia antes dos crimes, mas seu depoimento não convenceu o júri. A série, ao transformar essa suspeita em uma ação concreta e conjunta, constrói um cenário de premeditação e cumplicidade que não encontra respaldo histórico.
Ainda mais impactante é a insinuação de um caso amoroso entre Lizzie e Bridget, e a ideia de que elas teriam planejado juntas tanto o envenenamento frustrado quanto os brutais ataques de machado. Não existe qualquer evidência histórica que sugira um relacionamento romântico ou uma conspiração criminosa entre as duas mulheres. O testemunho de Bridget à polícia, um dos pilares da investigação, descreve-a lavando janelas e depois descansando em seu quarto no sótão, onde estava quando Lizzie a chamou após encontrar o corpo do pai. A série, ao criar essa relação íntima e cúmplice, explora a ideia de uma aliança feminina contra a opressão patriarcal, mas o faz à custa da precisão histórica.
### A Absolvição e a Conexão com Aileen Wuornos
Apesar das muitas liberdades criativas, a série acerta em um ponto crucial: Lizzie Borden foi, de fato, absolvida. Ela enfrentou um júri de doze homens (mulheres eram proibidas de participar na época) e foi declarada inocente. Os jurados desconsideraram seu testemunho à polícia, dado ao longo de três dias, no qual ela apresentou versões conflitantes sobre seus passos antes e durante os assassinatos. O motivo para a dispensa dessas provas foi que Lizzie não teve direito a um advogado e não foi avisada de que suas declarações poderiam incriminá-la. Além disso, a enciclopédia Britannica aponta que o médico da família administrou morfina a ela após a descoberta dos corpos, e argumentou que a droga poderia ter afetado sua cognição durante o depoimento.
A conexão mais controversa e puramente ficcional de “Monstro” é a que estabelece entre Lizzie Borden e Aileen Wuornos (interpretada por Sarah Paulson), a primeira mulher a ser registrada como serial killer nos arquivos do FBI. Wuornos confessou o assassinato de sete homens na Flórida a partir de 1989, foi presa em 1991 e executada por injeção letal em 2002. Não há, no entanto, qualquer prova de que Aileen tenha se inspirado ou sequer tido contato com a história de Lizzie Borden. Os criadores da série justificaram essa conexão como uma forma de explorar o tema da “fúria feminina” ao longo do tempo. Ian Brennan, em entrevista à The Hollywood Reporter, afirmou que a intenção era “olhar para mulheres que matam ao longo do tempo, menos como uma aberração, e mais como um fio condutor e um aspecto da nossa espécie e da nossa existência em sociedade”, focando nas “jaulas em que colocamos as mulheres, e as coisas que elas fazem para sair dessas jaulas”. Essa conexão, embora historicamente infundada, serve como um dispositivo narrativo para aprofundar a tese dos criadores sobre a violência feminina como resposta a pressões sociais.
“Monstro: A História de Lizzie Borden” se estabelece, portanto, não como um documentário histórico, mas como uma reinterpretação dramática que utiliza um dos mais famosos mistérios criminais para tecer uma complexa tapeçaria sobre gênero, violência e justiça. Ao misturar fatos com ficção, a série convida o público a revisitar o caso de Lizzie Borden sob uma nova ótica, questionando não apenas o que realmente aconteceu em 1892, mas também como a sociedade percebe e julga as mulheres que desafiam as normas, mesmo que essa releitura exija uma considerável dose de licença poética.