Zuenir Ventura: O Legado Imortal do Mestre que Contou e Viveu a História do Brasil

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O jornalismo brasileiro perdeu um de seus maiores ícones. Zuenir Ventura, o renomado jornalista, escritor e observador perspicaz das transformações sociais e políticas do país, faleceu nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, aos 95 anos. Sua vasta e influente carreira, que se estendeu por cerca de seis décadas, é agora celebrada e revisitada no documentário “Mestre Zu”, dirigido pelo cineasta Zelito Viana, amigo de longa data do jornalista. Exibido em abril deste ano no Festival “É Tudo Verdade”, o filme é uma imersão profunda na trajetória de Ventura, reunindo memórias de familiares, amigos e colegas que testemunharam sua onipresença nos acontecimentos mais marcantes do Brasil. A ideia de eternizar a vida e obra de Zuenir Ventura em um documentário partiu inicialmente de sua filha, Elisa Ventura. O projeto, que começou sob a direção do cineasta Marcos Vinicius, enfrentou um revés com sua morte durante a pandemia. Contudo, o destino da produção foi redefinido após uma conversa entre Elisa e Vera de Paula, esposa e produtora de Zelito Viana. O cineasta, então com 87 anos, abraçou a direção com uma motivação profundamente pessoal. Zelito expressou que, em sua fase atual da vida, dedicava-se a filmes que somente ele poderia fazer, e a amizade com Zuenir era o elo insubstituível que tornava “Mestre Zu” uma obra única em suas mãos. Elisa Ventura, por sua vez, buscava no documentário a oportunidade de evidenciar a presença constante e atuante de seu pai nos eventos que moldaram o Brasil. Durante a pesquisa para o filme, ela percebeu que Zuenir não apenas observava, mas participava ativamente de momentos cruciais, muitas vezes extrapolando o papel de mero cronista. A sensibilidade de Zelito Viana foi fundamental para tecer essa narrativa, unindo o peso histórico da atuação de Zuenir com os relatos bem-humorados e as histórias compartilhadas entre os dois amigos, revelando a complexidade e a riqueza de uma vida dedicada à reportagem e à reflexão. A produção de “Mestre Zu” é um mosaico de conversas informais, imagens de arquivo e entrevistas que reconstroem a trajetória de Ventura. Nomes como Flávio Pinheiro, Arthur Dapieve, Guguta Brandão, Paulinho da Viola, Tina Correia, Mauro Ventura e Elisa Ventura contribuem com seus depoimentos. Colunistas de O GLOBO, como Ancelmo Gois, Joaquim Ferreira dos Santos e Míriam Leitão, também compartilham suas perspectivas sobre o colega. O próprio Zuenir Ventura aparece em entrevistas e registros de diferentes fases de sua vida, oferecendo um olhar íntimo sobre sua própria jornada. O documentário mergulha nas origens de Zuenir, recuperando sua infância em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, marcada por dificuldades econômicas. Crescendo em um lar sem livros ou jornais, sua sede por conhecimento o levou a estudar o curso primário em uma escola de padres, graças à sua mãe, que lavava batinas em troca de uma bolsa. Na juventude, chegou a cogitar a vida religiosa e trabalhou desde cedo, ajudando o pai como pintor de paredes, e depois como contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Sua entrada no jornalismo, quase por acaso, é um dos episódios mais cativantes do filme. Durante a faculdade, Zuenir conseguiu um emprego noturno como arquivista na Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda. Em 1956, Lacerda buscava alguém para escrever um artigo sobre o escritor francês Albert Camus. Como Camus era um de seus ídolos, Zuenir se candidatou, e o texto resultante fez tanto sucesso que alimentou a lenda de que o funcionário do arquivo seria um gênio. Com seu humor característico, Zuenir brincou em uma entrevista dos anos 1980, recuperada no documentário: “Não era verdade: eu não era nem contínuo, nem gênio”. Após esse episódio, o convite para a redação da Tribuna da Imprensa foi inevitável. Dali em diante, Zuenir Ventura construiu uma carreira brilhante, passando por veículos de grande prestígio como Correio da Manhã, Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão e IstoÉ. Na revista Visão, teve a oportunidade de trabalhar ao lado de Vladimir Herzog, jornalista que seria torturado e morto pela ditadura militar em 1975, um evento que marcou profundamente a história do jornalismo brasileiro. Em 1985, Zuenir foi convidado para reformular o caderno de cultura do Jornal do Brasil, onde também participou da criação do inovador caderno literário Ideias. Heloísa Teixeira, em seu depoimento no documentário, afirma que ele se tornou o grande jornalista cultural do Rio de Janeiro. Entre as inovações que introduziu, destacam-se a publicação anual de balanços da cena cultural e a apresentação ao público brasileiro de nomes então pouco conhecidos, como a ensaísta Susan Sontag e o filósofo Edgar Morin, conforme relembra a produtora Guguta Brandão. Zuenir Ventura também se destacou por renovar a abordagem de temas relacionados ao comportamento, criando ou popularizando expressões que se tornaram parte do vocabulário nacional. Termos como “vazio cultural”, usado para descrever o ataque à expressão artística após o AI-5, e “amizade colorida”, para definir relações amorosas sem compromisso afetivo, são exemplos de sua capacidade de captar e nomear fenômenos sociais. Joaquim Ferreira dos Santos, que trabalhou com Zuenir na Veja e no Jornal do Brasil, ressalta no documentário a rara habilidade do jornalista em conciliar erudição e sofisticação com um humor e irreverência contagiantes. “Zuenir é um raro mestre capaz da arte de equilibrar o homem culto e sofisticado com um eterno jovem de muito humor e irreverência. Aprendi e me diverti muito com ele”, afirma Joaquim. Ele também destaca a preferência de Zuenir por áreas como cultura e comportamento, em detrimento de editorias de maior status como a política, e sua notável capacidade de criar pautas, encontrando assuntos nas “miudezas da cidade”, além de sua generosidade e dedicação ao ofício. “Mestre Zu” percorre os diferentes momentos históricos que Zuenir Ventura acompanhou e registrou ao longo de sua carreira. A ditadura militar, a efervescência da contracultura dos anos 1960 e 1970, o processo de redemocratização, as chacinas que assolaram o Rio de Janeiro nos anos 1990 e o assassinato de Chico Mendes são alguns dos eventos que ganham vida através de sua lente. Entre seus trabalhos mais emblemáticos, destacam-se “1968: o ano que não terminou”, obra que registrou o período de maior intensidade da repressão ditatorial e os movimentos de resistência e rebeldia de uma geração, e “Cidade partida”, no qual Zuenir revisitou o tema da violência no Rio de Janeiro após a chacina de Vigário Geral, que vitimou 21 pessoas. Este último livro também abordou a ascensão do funk carioca como expressão cultural e os movimentos pela paz ligados ao Viva Rio, demonstrando sua sensibilidade para as manifestações culturais das periferias. O documentário apresenta Zuenir Ventura como um jornalista profundamente atento às fraturas sociais e políticas do país, sempre interessado em compreender os personagens e as complexidades por trás dos acontecimentos. Zelito Viana recupera no filme um comentário final do jornalista Gerson Camarotti, que sublinha a relevância da trajetória de Zuenir e a inspiração de sua atuação em um período em que a democracia brasileira continuava sob ataque. Para o diretor, uma das razões primordiais para a realização do filme é permitir que as novas gerações conheçam esse percurso singular. “As novas gerações precisam conhecer o trabalho de Zuenir, entender tudo que o jornalismo pode ser”, conclui Zelito, reforçando o legado de um mestre que, mesmo após sua partida, continua a iluminar o caminho do jornalismo e da compreensão do Brasil.

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