Sobrevivência ao Câncer: O Guia Inovador da SBOC Que Redefine o “Novo Normal” Pós-Tratamento

A expectativa social e, muitas vezes, do próprio paciente, é que o fim do tratamento oncológico signifique uma volta integral à vida de antes. Familiares, amigos e colegas de trabalho frequentemente esperam que a rotina seja retomada do ponto onde foi interrompida pelo diagnóstico. Contudo, a realidade é bem diferente. O câncer, ao contrário de outras enfermidades, deixa marcas profundas – físicas, psicológicas e sociais – que impedem essa retomada completa. A pressão para “virar a página” pode, paradoxalmente, agravar o sofrimento, negligenciando dores e problemas que persistem mesmo após a remissão da doença. “A pessoa que sobrevive ao câncer não tem como virar a chave e voltar ao que ela era antes. Não existe mais aquela outra pessoa, é uma transformação”, enfatiza a oncologista Daniele Assad, uma das vozes por trás da elaboração do guia e presidente da Comissão Científica do congresso da SBOC 2026.
O Guia de Cuidados aos Sobreviventes do Câncer da SBOC surge, portanto, como uma ferramenta essencial para orientar o atendimento a essas necessidades específicas. A publicação detalha como a equipe de saúde deve acompanhar esses pacientes, manejar os diversos tipos de sequelas e organizar equipes multidisciplinares capazes de cuidar das múltiplas dimensões da vida pós-tratamento. A relevância do tema é global: o cuidado aos sobreviventes tem ganhado destaque nas discussões médicas internacionais, impulsionado pelo aumento do número de pessoas que superam a doença. No Brasil, no entanto, a formação dos profissionais nem sempre contempla essa área, um ponto crítico levantado por Daniele Assad.
Um Cenário de Crescimento e Desafios
“Como temos melhores tratamentos e diagnósticos mais precoces, temos também um número cada vez maior de sobreviventes. Na Europa e nos Estados Unidos, você tem um movimento forte para organizar esse cuidado, porque as necessidades são específicas, o paciente é obrigado a voltar para um novo normal. E isso muitas vezes não é ensinado numa formação médica tradicional”, explica a especialista. A urgência dessa abordagem é corroborada pelas estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que apontam que mais de 780 mil brasileiros receberam ou receberão um diagnóstico de câncer em 2026, evidenciando a vasta população que necessitará desse suporte.
Entre os efeitos tardios e crônicos descritos no guia, destacam-se a fadiga persistente que não melhora com repouso, alterações de memória e concentração, neuropatia (que pode causar dor e alterações de sensibilidade), menopausa precoce e perda óssea. É fundamental compreender que a natureza e a intensidade dessas necessidades variam significativamente conforme o tipo de tumor e os tratamentos específicos recebidos por cada paciente, exigindo uma abordagem altamente individualizada.
Dimensões Negligenciadas: Sexualidade e Saúde Mental
A sexualidade é uma das dimensões que Daniele Assad considera mais negligenciadas no acompanhamento dos sobreviventes. Ela observa que o assunto já recebe pouca atenção no atendimento às mulheres de modo geral, e quando há um diagnóstico de câncer, essa questão é relegada a um plano ainda mais secundário. “A questão da saúde sexual é uma coisa que precisa ser mais falada”, defende a oncologista. O guia, nesse sentido, orienta os médicos a abordar ativamente a sexualidade nas consultas, sem esperar que o paciente relate dificuldades. Queixas comuns incluem dor nas relações, redução do desejo e disfunção erétil, que demandam intervenção e apoio.
Outro aspecto crucial e frequentemente negligenciado é a saúde mental dos sobreviventes. A coordenadora do Comitê de Cuidados aos Sobreviventes da SBOC e também autora do guia, oncologista Sabrina Chagas, destaca a ansiedade associada aos exames de acompanhamento e ao medo constante da recidiva da doença. O guia recomenda acolher esse medo e investigá-lo ativamente nas consultas. Quando persistente e incapacitante, o temor da volta do câncer requer atenção clínica e acompanhamento médico e psicológico, reconhecendo-o como uma sequela legítima que impacta profundamente a qualidade de vida.
Os Quatro Pilares do Cuidado Integral
Sabrina Chagas descreve quatro pilares fundamentais que devem guiar os cuidados aos sobreviventes, promovendo uma abordagem holística e integrada:
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Hábitos de Vida Saudáveis:
Adoção de hábitos saudáveis não apenas reduz o risco de câncer, mas também diminui a probabilidade de a doença retornar. A orientação envolve incentivar mudanças possíveis no cotidiano, como a prática regular de exercício físico. A recomendação geral é buscar 150 minutos semanais de exercício aeróbico moderado e fortalecimento muscular em dois ou mais dias, sempre respeitando as condições clínicas individuais de cada paciente.
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Exames de Acompanhamento:
A preocupação vai além do monitoramento oncológico. “Sabemos que pessoas que tiveram câncer muitas vezes deixam de fazer seus exames de rotina ginecológicos ou cardiológicos”, ressalta Sabrina Chagas. O guia enfatiza a importância de manter um acompanhamento médico completo, garantindo que outras condições de saúde não sejam negligenciadas.
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Manejo dos Efeitos Colaterais Crônicos:
O foco é melhorar a qualidade de vida e recuperar a funcionalidade. Para a fadiga persistente, o guia recomenda priorizar exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular, adaptados à condição clínica, além de intervenções psicossociais. Alterações de memória e atenção podem ser abordadas com reabilitação cognitiva. Dificuldades sexuais podem exigir acompanhamento com ginecologistas, urologistas, fisioterapeutas pélvicos e terapeutas sexuais. No caso de ansiedade e depressão, o cuidado pode incluir psicoterapia e, conforme a gravidade, medicamentos. A proposta é identificar as necessidades de cada paciente e oferecer tratamento específico, em vez de considerar essas consequências como inevitáveis ou secundárias.
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Integração da Equipe de Saúde:
Este pilar propõe um plano de cuidados compartilhado, que inclua o diagnóstico, os tratamentos recebidos, os possíveis efeitos tardios, os exames e consultas previstos, e as responsabilidades dos diferentes profissionais envolvidos. A integração entre nutricionistas, fisioterapeutas, profissionais de educação física, psicólogos e outros especialistas é essencial para que esse acompanhamento funcione de forma eficaz. “É muita gente que precisa estar trabalhando de forma integrada”, afirma Daniele Assad, sublinhando a complexidade e a necessidade de coordenação para um cuidado verdadeiramente abrangente.
O lançamento do Guia de Cuidados aos Sobreviventes do Câncer pela SBOC representa um avanço significativo na oncologia brasileira. Ele não apenas valida as experiências e desafios dos pacientes que superam a doença, mas também oferece um roteiro prático para que os profissionais de saúde possam oferecer um suporte mais humano, completo e eficaz, garantindo que a sobrevivência ao câncer seja sinônimo de uma vida com a melhor qualidade possível, dentro de um “novo normal” que é, acima de tudo, digno e acolhedor.
*A repórter viajou a convite da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC)