EUA Reabrem Cofres da ONU Sob Condições Rígidas, Exigindo Reformas e Freio à Influência Chinesa

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Às vésperas do Debate de Alto Nível da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, agendado para 22 de setembro em Nova York, o governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, realizou nesta semana pagamentos substanciais de suas obrigações financeiras com a entidade, totalizando mais de 800 milhões de dólares. Essa movimentação, que põe fim a um período de quase dois anos de calote, não veio sem um preço: Washington condiciona futuros aportes a uma série de reformas estruturais profundas na ONU e exige um recuo da crescente influência da China dentro da organização, sinalizando uma ofensiva diplomática e financeira americana que promete dominar a pauta da próxima Assembleia Geral.

A injeção de capital americano na ONU ocorreu em duas etapas cruciais. Na terça-feira, 16 de setembro, os Estados Unidos depositaram 725 milhões de dólares, referentes à sua cota do orçamento regular da entidade para 2025. Dias antes, na sexta-feira, 12 de setembro, o governo já havia repassado outros 102 milhões de dólares para cobrir parte de suas obrigações com operações de manutenção da paz. Esses pagamentos, que somam 827 milhões de dólares, têm um efeito prático imediato e vital: evitam que os Estados Unidos percam o direito de voto na Assembleia Geral, uma punição severa prevista no Artigo 19 da Carta da ONU para países com dois anos ou mais de atraso nas contribuições. A medida, portanto, garante a voz americana no principal fórum multilateral do mundo, ao mesmo tempo em que reafirma a estratégia de usar a dívida como instrumento de pressão.

Desde a primavera, a Casa Branca tem sido explícita em sua intenção de utilizar os recursos represados como alavanca para promover mudanças significativas no sistema da ONU. Em abril deste ano, o portal Devex, uma publicação americana especializada em cooperação internacional, obteve acesso exclusivo a dois memorandos internos do governo americano, distribuídos a diplomatas em Genebra e Nova York. Os documentos revelaram a condicionante imposta por Washington: o pagamento de “uma parcela significativa” das cotas de 2026 dependeria do cumprimento de nove reformas consideradas prioritárias pelos EUA.

As Exigências de Washington: Reformas Estruturais e Cortes

Entre as exigências mais notáveis, destacam-se a reformulação do sistema de previdência dos servidores da ONU, que atualmente se baseia em benefício definido, para um modelo híbrido nos moldes de um plano de aposentadoria privada americano. A medida visa alinhar os benefícios dos funcionários da ONU a padrões mais próximos do setor privado e do funcionalismo público americano. Outras demandas incluem o fim das viagens em classe executiva para funcionários de nível médio e sênior, uma clara tentativa de reduzir custos e combater o que Washington percebe como gastos excessivos, além de novos cortes em cargos de alto escalão.

Os memorandos também pedem uma redução adicional de 10% nas missões de paz consideradas “ineficazes”. Essa pauta já vinha sendo defendida publicamente pelo embaixador americano na ONU, Mike Waltz, em audiências no Congresso. Waltz chegou a classificar os benefícios do funcionalismo da entidade como “exorbitantes”, gerando controvérsia. Em entrevista ao Devex, Ian Richards, presidente do sindicato dos funcionários da ONU em Genebra, rebateu a comparação, argumentando que a Casa Branca teria selecionado apenas parte dos números, ignorando que diplomatas dos EUA no exterior recebem benefícios mais generosos em moradia e educação.

O Foco na Influência Chinesa: O Fundo de Paz e Desenvolvimento

Uma das medidas que mais chama atenção e revela a dimensão geopolítica da pressão americana é a exigência para que o secretário-geral deixe de aceitar fundos fiduciários de doador único dentro de seu próprio gabinete. Essa é uma referência direta ao Fundo de Paz e Desenvolvimento, criado pela China em 2016 com 200 milhões de dólares e renovado pelo presidente Xi Jinping até 2030. O fundo já financiou mais de 200 projetos ligados à Iniciativa Cinturão e Rota, incluindo treinamento de tropas de paz e apoio a mediações em países como Libéria e Nigéria, expandindo a presença e a influência chinesa em diversas regiões do globo.

A preocupação americana com a ascensão chinesa na ONU não é nova. Antes mesmo de assumir o cargo de embaixador, durante sua sabatina no Senado americano para confirmação, em julho de 2025, Mike Waltz já defendia abertamente a necessidade de “conter a China”, afirmando que o país “empurra seu pessoal para cargos em todos os níveis” dentro da ONU. Sob reserva, uma fonte diplomática confirmou ao Devex que a medida de Washington mira especificamente o fundo chinês, buscando frear o que os EUA veem como uma estratégia de Pequim para moldar a agenda multilateral em seu favor.

Apesar dos recentes pagamentos, a dívida dos Estados Unidos com a organização permanece bilionária. Segundo dados da própria ONU, o país acumula cerca de 5 bilhões de dólares em atrasos, sendo mais de 2 bilhões referentes ao orçamento regular e aproximadamente 3 bilhões a operações de manutenção da paz. Parte dessa dívida tem origem em uma regra própria dos Estados Unidos: uma lei aprovada pelo Congresso americano nos anos 1990 limita a contribuição dos EUA ao orçamento de peacekeeping a no máximo 25% do total, ainda que a ONU calcule a cota americana com base em sua capacidade econômica, hoje acima desse porcentual. Na prática, isso significa que uma parte da dívida se acumula automaticamente todo ano, mesmo quando Washington paga o que classifica como “sua parte”.

A Ascensão de Luke Lindberg e a Reafirmação da Liderança Americana

A movimentação financeira e as exigências de reforma coincidem com outro capítulo da influência americana dentro do sistema ONU. Na última sexta-feira, 11 de setembro, o portal Devex noticiou com exclusividade que o secretário-geral da ONU, António Guterres, e o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Qu Dongyu, haviam escolhido Luke Lindberg, subsecretário do Departamento de Agricultura dos EUA, para comandar o Programa Mundial de Alimentos (PMA) por um mandato de cinco anos. A informação, que partiu de uma carta interna da ONU obtida pela reportagem, foi confirmada nos dias seguintes pelo Departamento de Estado americano.

Indicado por Donald Trump e genro do senador republicano John Thune, Lindberg se torna o nome mais graduado do governo americano a assumir a liderança de um órgão da ONU, substituindo Cindy McCain, que deixou o cargo por motivos de saúde. A nomeação de um alto funcionário americano para uma posição de tamanha relevância em uma agência humanitária crucial é vista como mais um indício da estratégia de Washington de reafirmar sua liderança e influência em todos os níveis da estrutura da ONU. Coincidência ou não, a nomeação e os pagamentos andaram lado a lado, reforçando a percepção de uma ofensiva coordenada.

Os recentes desenvolvimentos financeiros e diplomáticos preparam o terreno para uma 81ª Assembleia Geral da ONU carregada de tensões e expectativas. Com Donald Trump esperado para discursar novamente na sede da entidade, como fez em setembro de 2025, a pauta americana de reformas e contenção da China deve ser central nos debates. A comunidade internacional observará atentamente como a ONU, sob a liderança de António Guterres, responderá à pressão de seu maior contribuinte e como o equilíbrio de poder será reconfigurado em meio a essas exigências.

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