Nesta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, uma operação da Polícia Federal (PF) abalou o cenário político brasileiro ao mirar o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). A ação, que cumpre mandados de busca e apreensão, investiga suspeitas graves de tráfico de influência em tribunais superiores, exploração de prestígio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O parlamentar, conhecido por sua influência na bancada evangélica e por sua trajetória ligada à Assembleia de Deus Ministério de Madureira, é uma figura central na articulação política, com notáveis laços com o ex-presidente Jair Bolsonaro e, em especial, com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, em um caso que levanta questionamentos sobre a integridade do sistema judicial.
A investigação da PF aponta que integrantes do grupo sob escrutínio teriam negociado com terceiros o pagamento de valores expressivos, condicionados ao resultado de processos em curso, sob o pretexto de influenciar decisões judiciais. Embora a corporação tenha ressaltado que não há elementos que indiquem a participação de membros do Poder Judiciário nos fatos investigados, a complexidade das acusações e a proeminência dos nomes envolvidos conferem à operação um peso considerável, prometendo desdobramentos significativos nos próximos dias.
A Ascensão de um Articulador Evangélico
Cezinha de Madureira, em seu segundo mandato como deputado federal por São Paulo, é um dos nomes mais antigos e influentes na articulação política da Assembleia de Deus no Congresso Nacional. Nascido em Ipiaú, na Bahia, ele construiu sua trajetória política em São Paulo a partir da década de 1990, alicerçada em sua profunda ligação com a Assembleia de Deus Ministério de Madureira, uma das maiores denominações pentecostais do país. Antes de chegar à Câmara dos Deputados em 2019, já havia atuado como deputado estadual, consolidando sua base eleitoral e seu poder de influência.
Sua proximidade com o bispo Samuel Ferreira, presidente executivo da igreja, é notória, e Cezinha se tornou um dos principais representantes da denominação no meio político, a ponto de incorporar a ligação religiosa ao seu próprio nome de urna. A Assembleia de Deus foi, segundo o próprio deputado, fundamental para sua eleição, demonstrando a força do apoio evangélico em sua carreira. Essa base sólida o catapultou para a presidência da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2021, durante o governo Bolsonaro, um período crucial para a bancada. Mesmo após deixar o comando formal do grupo, ele continuou a desempenhar um papel ativo nas principais articulações internas, sendo um interlocutor chave nas negociações para a presidência da frente no biênio 2025-2026.
A Conexão com André Mendonça e o Caso Master
Foi durante sua passagem pela liderança da bancada evangélica que Cezinha de Madureira atuou intensamente na articulação pela aprovação de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal (STF). Indicado por Bolsonaro em 2021, Mendonça enfrentou uma longa espera até ter sua sabatina marcada no Senado. Nesse período, Cezinha procurou o então presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para defender o avanço da indicação e mobilizou lideranças evangélicas em prol da aprovação do nome, referindo-se a Mendonça como amigo.
A relação entre os dois voltou aos holofotes recentemente por causa do chamado “caso Master”. Em março de 2025, Cezinha intermediou um encontro entre o ministro André Mendonça e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em São Paulo. O próprio ministro confirmou a reunião, afirmando que o contato foi articulado pelo deputado a pedido de pessoas próximas à Igreja Batista da Lagoinha. Posteriormente, Mendonça assumiu a relatoria do caso Master no STF, um fato que, embora a PF não aponte envolvimento judicial nos fatos *investigados*, adiciona uma camada de complexidade e questionamento à atuação do deputado.
Laços com o Bolsonarismo e a Migração para o PL
A trajetória política de Cezinha de Madureira também se entrelaça com o bolsonarismo. Durante o governo Jair Bolsonaro, ele integrou a base do então presidente, sendo escolhido vice-líder do governo na Câmara em 2022. Naquele ano, apoiou a tentativa de reeleição de Bolsonaro e participou ativamente das articulações políticas em torno da candidatura de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo, demonstrando seu engajamento com o projeto político da direita.
Apesar de ter sido eleito para seus dois mandatos na Câmara pelo PSD, partido de Gilberto Kassab, o parlamentar deixou a legenda e se filiou ao PL neste ano de 2026, passando a integrar formalmente o partido de Jair e Flávio Bolsonaro. A expectativa era de que essa mudança partidária resultasse em maior espaço na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. No entanto, Cezinha foi um dos nomes preteridos na montagem da chapa ao Senado em São Paulo, mesmo após um acordo costurado anteriormente por Jair Bolsonaro com o bispo Samuel Ferreira, que previa a Assembleia de Deus Ministério de Madureira com espaço na disputa, seja com Cezinha ou Marco Feliciano.
Com outras candidaturas ganhando prioridade, o compromisso não avançou, gerando insatisfação entre lideranças evangélicas. O escolhido do partido acabou sendo o presidente da Alesp, André do Prado, um aliado do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Esse episódio reduziu significativamente o engajamento de Cezinha no projeto presidencial de Flávio. Aliados apontavam que o deputado havia migrado para o PL atraído pelo acordo com Bolsonaro, e a perda de espaço na chapa paulista o afastaria da pré-campanha. O desgaste também atingiu Marco Feliciano, que chegou a cobrar Flávio publicamente durante um culto sobre a falta de “reciprocidade” da família Bolsonaro com os evangélicos.
Diálogo com o Governo Lula e as Implicações da Operação
Apesar de sua forte ligação com o governo anterior, Cezinha de Madureira também manteve canais de diálogo com o campo governista após a vitória de Lula. Durante a transição, participou de conversas com integrantes do novo governo e buscou se colocar como uma ponte com o segmento evangélico, demonstrando sua habilidade em transitar por diferentes espectros políticos.
A operação da PF desta segunda-feira, no entanto, lança uma sombra sobre toda a sua trajetória. As suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro são acusações graves que podem ter profundas implicações não apenas para o deputado, mas para a imagem da bancada evangélica e para a percepção pública sobre a influência religiosa na política e no judiciário. A investigação, que busca desvendar a negociação de “valores expressivos” para influenciar decisões judiciais, coloca em xeque a ética e a legalidade das articulações nos tribunais superiores. O desenrolar deste caso será acompanhado de perto, com o potencial de redefinir carreiras políticas e aprofundar o debate sobre a transparência e a integridade das instituições brasileiras.