Acordo milionário e silêncio: Igreja Presbiteriana de Pinheiros encerra processo de assédio contra pastor titular

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A Igreja Presbiteriana de Pinheiros (IPP), uma das mais influentes instituições religiosas do Brasil, fechou um acordo judicial de R$ 106 mil com uma ex-funcionária que acusou o reverendo Arival Dias Casimiro, seu pastor titular e superior hierárquico, de assédio moral e “abuso espiritual”. O caso, que teve seu processo trabalhista encerrado em 2025, ressurgiu com força nos últimos dias, culminando na divulgação de uma nota de esclarecimento pela própria IPP na última quinta-feira, 10 de setembro de 2026, que, no entanto, gerou mais controvérsia do que clareza, ao ser desmentida pela defesa da vítima.

A denúncia de assédio, formalizada em maio de 2025, detalhava uma série de abordagens inoportunas e inadequadas por parte do reverendo Arival, ocorridas entre 2022 e 2024. As investidas, conforme os autos do processo trabalhista acessados pela reportagem, manifestaram-se tanto por meio de mensagens digitais quanto em interações presenciais, criando um ambiente de trabalho hostil e constrangedor para a colaboradora.

A nota oficial da IPP, emitida na semana passada, admitiu que “algumas mensagens foram inoportunas, inadequadas e infelizes”. Contudo, a igreja também afirmou que, por meio do acordo homologado, a funcionária teria retirado “qualquer reconhecimento de assédio”. Esta alegação foi veementemente contestada pela defesa da ex-colaboradora. “Em parte alguma do acordo a Reclamante diz não ter havido assédio ou retira as afirmações feitas no processo”, declarou o advogado da vítima. Ele acrescentou que, mesmo após o encerramento do processo judicial, a ex-funcionária “continuou sustentando em processo interno a existência do assédio”, desmentindo categoricamente a narrativa da igreja e alertando para a desinformação que circulava nas redes sociais.

As evidências apresentadas nos autos da ação trabalhista incluem capturas de tela de mensagens enviadas pelo reverendo Arival. Em diversas ocasiões, o pastor sugeriu encontros reservados com a funcionária, expressando sentimentos de forma explícita. Em uma das mensagens mais impactantes, ele escreveu: “você mexe comigo”, e manifestou o desejo de dizer a ela, reservadamente, “o que sinto por você”.

O padrão de comunicação do reverendo também chamou a atenção. As imagens revelam que Arival frequentemente enviava mensagens e as apagava em seguida, muitas vezes em horários não comerciais, inclusive após a meia-noite. O uso do recurso de mensagens temporárias em determinados momentos também foi destacado, sugerindo uma tentativa de ocultar o teor das conversas. A ex-funcionária, em um esforço para conter as investidas, chegou a responder: “Prefiro não receber essas mensagens, pastor”, antes de eventualmente pedir demissão da IPP.

Além das mensagens, a denunciante relatou episódios de constrangimento presencial. Segundo seu depoimento, o pastor Arival ia diariamente à sua mesa para abraçá-la, fazia elogios de forma exacerbada e proferia diversas piadas. Alguns comentários eram ainda mais diretos e inapropriados. O reverendo, por exemplo, sugeria “repetidamente” que ela utilizasse “maquiagem e roupas mais curtas para chamar mais atenção”. Em outro momento, em frente a outros colegas de trabalho, ele teria dito que “ainda se casaria” com ela, evidenciando a gravidade e a publicidade das investidas.

A situação escalou em agosto de 2024, quando uma reunião foi realizada para discutir o comportamento de Arival, que já perdurava por cerca de dois anos. Estavam presentes na ocasião a ex-funcionária, o reverendo, uma superior dela e um presbítero. Durante o encontro, o religioso teria pedido desculpas, atribuindo seu comportamento a um “laço do inimigo” e afirmando que via a colaboradora como “filha”. Em um gesto que a denunciante descreveu como mais uma tentativa de manipulação, ele a abraçou e pediu que ela permanecesse no cargo. No entanto, a funcionária, já exausta pela situação, optou por pedir demissão sem justa causa.

A defesa da ex-funcionária explicou que o acordo financeiro, embora não implicasse na retirada da acusação de assédio, foi uma forma de trazer “alívio à vítima, que sofre pressões externas e internas”. Este ponto é crucial para entender a complexidade de casos de assédio em ambientes de poder, onde a vítima muitas vezes enfrenta não apenas o agressor, mas também a pressão institucional e social.

A Punição Interna e a Falta de Transparência

Internamente, após a apuração dos fatos, o reverendo Arival Dias Casimiro foi punido com “censura/admoestação privada”. Contudo, a decisão de manter o episódio em sigilo, sem divulgá-lo à comunidade eclesiástica da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, levanta sérias questões sobre a transparência e a responsabilidade da instituição. Arival continua como pastor titular e presidente da IPP, uma posição de grande autoridade e influência, especialmente em uma igreja que conta com membros proeminentes como o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o renomado autor Hernandes Dias Lopes.

A permanência do reverendo em sua posição de liderança, aliada à falta de comunicação clara e honesta com os fiéis, pode minar a confiança na instituição e perpetuar um ciclo de silêncio em casos de abuso. A discrepância entre a nota pública da igreja e a realidade dos fatos, conforme revelado pela defesa da vítima, expõe uma tentativa de controle da narrativa que falha em proteger a integridade da ex-funcionária e a verdade.

O caso da Igreja Presbiteriana de Pinheiros serve como um doloroso lembrete da necessidade de rigor e transparência no tratamento de acusações de assédio, especialmente em instituições que detêm grande poder moral e espiritual. A busca por “alívio” por parte da vítima, em meio a “pressões externas e internas”, sublinha a dificuldade enfrentada por aqueles que ousam denunciar, e a responsabilidade das instituições em garantir um ambiente seguro e justo para todos os seus membros e colaboradores.

A sociedade e a comunidade eclesiástica aguardam por respostas mais claras e ações mais contundentes que reforcem os valores de justiça e ética, em vez de proteger a imagem institucional a qualquer custo. O silêncio e a falta de transparência, neste contexto, apenas aprofundam as feridas e perpetuam a impunidade.

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