Nívea Maria: A Trajetória de 62 Anos Entre Palcos, Perdas e o Desejo de um Novo Capítulo

No palco, Nívea Maria encarna uma mãe conservadora e rígida, em constante embate com uma filha que anseia por liberdade. Essa representação, embora desafiadora, serve como um espelho invertido para a própria vida da atriz. Mãe de três filhos – Edson e Viviane, frutos de seu casamento com o ator Edson França, e Vanessa, de sua união com o diretor de TV Herval Rossano –, Nívea se distancia do conservadorismo de sua personagem, afirmando ter sido uma mãe mais liberal. “Sempre fui uma mãe que ouvia, e, mesmo que não aceitasse, deixava que meus filhos descobrissem o que estava certo e o que estava errado”, explica, atribuindo essa postura, em parte, à sua profissão.
Apesar das diferenças, a atriz reconhece pontos de convergência com a personagem, especialmente na representatividade da mulher na sociedade e na família. Contudo, a rigidez e os preconceitos da mãe fictícia são os elementos que mais a afastam de sua essência. Essa dualidade entre a figura pública e a mulher real é um tema recorrente em sua trajetória, que começou com o apoio fundamental de sua mãe, uma mulher sensível e pianista, que incentivou a vocação artística da filha contra a vontade de um pai advogado, rígido e moralista, e de grande parte da família. A escolha por uma carreira pública, como a de atriz, foi um ato de coragem e determinação em uma época onde a profissão não gozava do mesmo prestígio de hoje.
A maternidade, conciliada com uma carreira frenética, impôs sacrifícios. Nívea Maria recorda a ajuda inestimável de sua mãe nesse período e a responsabilidade que assumiu, muitas vezes, sozinha. “Nunca faltei nas coisas mais importantes deles, eu sempre fui muito responsável, mais do que os pais, porque a figura masculina na minha geração era realmente da porta para fora”, pontua. A atriz revela ter sido cobrada por uma das filhas na adolescência por mais presença, um momento que a fez refletir sobre possíveis ausências. Hoje, porém, ela afirma ter a “consciência limpa”, acreditando que os erros cometidos foram compensados pela relevância de sua carreira para a cultura do país. “Acho que cumpri minha vida aqui. Vou fazer 80 anos, então tenho uma história e estou na estrada para o final”, declara, com uma serenidade que denota a aceitação de sua jornada.
A vida de Nívea Maria, no entanto, não foi isenta de dores profundas, muitas delas vividas em silêncio e com um profissionalismo admirável. Durante as gravações da novela “Maria, Maria”, a atriz enfrentou uma gravidez tubária e a subsequente perda gestacional. “Eu saí de uma gravação, fui direto para o hospital e fiquei internada. Lá me disseram que eu estava grávida. Eu falei: ‘Grávida, como assim?’. Em uma semana eu perdi. Fiquei duas semanas fora”, relata. O retorno ao trabalho foi um divisor de águas, onde a personagem se fundiu com a experiência pessoal. “Quando a gente voltou [a gravar], eu falei: ‘Meu Deus, essa aqui é outra Nívia e outras Marias. Não são só duas, é uma terceira Maria que eu estou fazendo aqui’. Tinha vivido uma situação que nunca na minha vida tinha vivido, que foi perder um filho, e não foi de forma natural, fiz uma cirurgia. E, depois, estava lá gravando com um corte”, confessa, revelando a força necessária para seguir em frente sem que o público soubesse de seu sofrimento.
Outro período de grande dificuldade foi a depressão que a acometeu por quase um ano durante as gravações de “Caminho das Índias”. A atriz não soube explicar a causa, mas sua filha foi quem percebeu a mudança. Ao rever seu trabalho na novela, Nívea Maria identifica os reflexos da doença em sua fisionomia, que se mostrava sem muita expressão. A sorte, segundo ela, foi a personagem ser “meio robótica” no início, o que disfarçou seu estado. No decorrer da trama, já recuperada, a atriz se sentiu mais solta e ágil, demonstrando a superação de mais um obstáculo pessoal em meio às exigências da vida artística.
Em uma nova fase, Nívea Maria expressa o desejo de se aposentar e dedicar mais tempo à família, um anseio que esbarra na falta de apoio governamental aos artistas. “Não há interesse nem na educação, imagina na arte. Eles precisam entender que arte não é só divertimento. No meio, tem ensinamentos e exemplos de pessoas”, critica, ressaltando a importância cultural e social da arte. Quanto à vida amorosa, a atriz é categórica: não busca um novo relacionamento. “Minha companhia agora é minha família. Claro que pode acontecer. De repente posso conhecer alguém, um amigo, e começar a ver estrelinha no céu. Mas não tenho essa pretensão. Tive três casamentos. Já casei muito, já namorei muito, agora deixa eu ficar quietinha”, brinca, com um sorriso que revela a satisfação com sua vida atual.
A atualidade do texto de “Querida Mamãe” é um dos pontos que mais atraíram Nívea Maria para a peça. Os diálogos sobre as diferenças geracionais, os conflitos familiares e a importância do diálogo ressoam profundamente com o público, especialmente com pais e filhos adolescentes. A atriz enfatiza a mensagem da peça sobre a finitude da vida e a necessidade de abrir os olhos para os sentimentos, sofrimentos e alegrias, respeitando as diferentes visões. Essa perspectiva sobre a vida e a arte é um reflexo de sua própria trajetória, onde o diálogo sempre esteve presente em sua casa, impulsionado pela sensibilidade de sua mãe, que a incentivou a seguir seu sonho, mesmo diante da rigidez paterna.
Nívea Maria recorda com carinho a influência de sua mãe, a quem homenageou em sua carreira, especialmente na novela “Anos Dourados”, de Gilberto Braga. Na trama, ela interpretou uma personagem que espelhava a vida de sua mãe: filha de militar, de família rígida, que suportou um casamento com infidelidade até decidir se libertar e ingressar na faculdade em uma época em que isso era incomum para mulheres. “De repente, vi um pouco a vida da minha mãe, reprimida, mas muito sensível”, comenta, conectando sua arte à sua história familiar.
A atriz também reflete sobre a transformação da profissão de atriz ao longo das décadas. Se antes o foco era o trabalho e a valorização vinha dos jornalistas e repórteres que divulgavam a arte, hoje há uma busca por glamour e, por vezes, por notícias sensacionalistas. Nívea Maria não critica quem adere a essa nova dinâmica, mas acredita que “isso não leva a nada”, podendo gerar frustrações ao lidar com a opinião pública, que muitas vezes se mostra crítica mesmo diante de coisas boas. Sua longevidade e relevância no cenário artístico brasileiro são a prova de que a autenticidade e o foco na arte são caminhos mais duradouros e gratificantes. Aos 79 anos, Nívea Maria não apenas celebra uma vida de realizações, mas também nos convida a refletir sobre o tempo, as escolhas e o legado que construímos.