Acusações Bombásticas: Delação Rejeitada Aponta Cobrança de 10% por ACM Neto e Rueda em Negócios do Banco Master

Uma proposta de delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, à qual colunistas do UOL tiveram acesso, sacode o cenário político e financeiro brasileiro ao acusar os dirigentes do União Brasil, ACM Neto e Antônio Rueda, de orquestrar um esquema de cobrança de comissões de 10% para viabilizar investimentos de fundos de previdência estaduais e do Banco de Brasília (BRB) no Banco Master. As alegações, que datam de um período entre 2022 e 2025, detalham como os políticos teriam supostamente aberto portas em instituições do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) e o BRB, em troca de valores que poderiam somar centenas de milhões de reais, embora os pagamentos efetivos sejam contestados e a delação tenha sido rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de informações inéditas e garantias.
O cerne das acusações de Vorcaro reside na suposta intermediação de ACM Neto e Rueda para que o Banco Master captasse recursos de institutos de previdência estaduais. Segundo o ex-banqueiro, essa atuação teria resultado na captação de aproximadamente R$ 2 bilhões. Sobre esse montante, a comissão de 10% acordada representaria uma obrigação de cerca de R$ 200 milhões a serem pagos aos dois políticos. O modelo de repasse, conforme Vorcaro, previa 10% do valor de cada aplicação ou 1% ao ano enquanto os recursos permanecessem investidos no Banco Master. As instituições citadas na proposta que teriam investido no Banco Master após a atuação dos políticos somam R$ 3,62 bilhões, um valor superior aos R$ 2 bilhões inicialmente mencionados por Vorcaro, uma discrepância que a própria proposta não esclarece.
Os pagamentos a ACM Neto, segundo o relato, ocorreriam de diversas formas. Entre elas, estariam repasses em dinheiro por meio de empresas ou pessoas ligadas a Augusto Lima, sócio e executivo do Banco Master, e Antônio Carlos Freixo Júnior, empresário do setor financeiro. Além disso, contratos de consultoria seriam utilizados para justificar os valores. A proposta cita especificamente contratos entre a A&M Consultoria Ltda., ligada a ACM Neto, e o Banco Master, bem como acordos com a Reag e com a B6 Capital, outra empresa de gestão associada ao político. Para Rueda, Vorcaro afirmou que parte dos valores teria sido repassada em dinheiro por empresas ou pessoas ligadas a Augusto Lima e Freixo, além de contratos entre empresas do conglomerado Master e o escritório Rueda & Rueda Advogados, que, segundo o ex-banqueiro, teriam movimentado cerca de R$ 3 milhões por mês.
A complexidade do esquema, conforme Vorcaro, era tamanha que o Banco Master manteria uma espécie de “conta corrente” interna para registrar os valores supostamente devidos aos grupos políticos. A proposta de delação também menciona evidências como mensagens trocadas entre os envolvidos e encontros na sede do Banco Master. Uma dessas mensagens, de novembro de 2023, teria sido de Rueda marcando uma reunião com Vorcaro. Outra mensagem intrigante citada é um questionamento do ex-banqueiro sobre a disponibilidade de um helicóptero para ACM Neto e Rueda, sugerindo uma proximidade e logística compartilhada entre os acusados e o delator.
Um episódio adicional e de grande vulto envolve o Banco de Brasília (BRB). Em junho de 2024, Rueda teria convidado Vorcaro para uma reunião em Brasília com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, na residência de Rueda. Na ocasião, o BRB precisava de aproximadamente R$ 1 bilhão para um aumento de capital. Vorcaro afirmou que Rueda e Paulo Henrique teriam solicitado que ele disponibilizasse o dinheiro em dois ou três dias. Em contrapartida, o BRB compraria ativos do Banco Master em valor que poderia chegar a dez vezes o montante investido. O ex-banqueiro disse que o grupo colocou cerca de R$ 750 milhões no BRB e que, no mesmo período, o banco estatal comprou aproximadamente R$ 6 bilhões em carteiras do Master. Rueda e Paulo Henrique teriam cobrado uma comissão de 10% sobre os valores que o BRB efetivamente pagasse para adquirir os ativos do Master, com ACM Neto também participando da divisão dos valores, segundo Vorcaro.
A investigação sobre os fundos de previdência também aponta para possíveis irregularidades em outras esferas. No Rioprevidência, o ex-presidente Deivis Marcon Antunes foi preso pela Polícia Federal em fevereiro de 2026, acusado de ter sido indicado ao cargo por Rueda em articulação com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. No Amapá, o investimento de R$ 400 milhões no Master foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre e indicado pelo senador. No Amazonas, os R$ 50 milhões foram autorizados por um presidente que havia assumido o posto 28 dias antes e que era ex-contador de campanha do governador Wilson Lima. Esses detalhes sugerem um padrão de indicações políticas em posições-chave que poderiam facilitar tais operações.
Apesar da riqueza de detalhes na proposta de delação de Vorcaro, há inconsistências e lacunas significativas. Os valores apontados pelo ex-banqueiro como comissões potenciais são muito superiores aos pagamentos efetivamente identificados por dados do Coaf e quebras de sigilo bancário e fiscal. Entre 2022 e 2025, escritórios ligados a Rueda teriam recebido aproximadamente R$ 6,4 milhões, enquanto a empresa de consultoria de ACM Neto teria recebido cerca de R$ 5,4 milhões entre 2023 e 2025. A proposta não detalha quanto cada político teria recebido individualmente, nem apresenta, para cada investimento, qual teria sido a atuação concreta de ACM Neto ou Rueda, apenas afirmando que os dois teriam “intermediado” os aportes. A própria proposta não esclarece a diferença entre os R$ 2 bilhões citados por Vorcaro e os R$ 3,62 bilhões de investimentos mencionados na documentação.
Essas inconsistências foram cruciais para a rejeição da proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. As autoridades consideraram que não havia informações inéditas suficientes e, mais importante, faltavam garantias para a devolução de valores relacionados às fraudes investigadas. Atualmente, o ex-banqueiro tenta reabrir as negociações para uma colaboração premiada, buscando oferecer novos elementos ou garantias que possam viabilizar o acordo. O conteúdo da proposta veio a público em um momento de intensa investigação envolvendo o Banco Master e a divulgação, pelo ministro Alexandre de Moraes, de um relatório da Polícia Federal que mencionava uma suposta demora do ministro André Mendonça para autorizar uma operação contra Rueda, o que Mendonça afirmou ter prejudicado a investigação.
Diante das graves acusações, os políticos envolvidos negam veementemente qualquer irregularidade. Procurado pelo UOL, Antônio Rueda afirmou ter dificuldade para se pronunciar sobre um documento ao qual não teve acesso, mas negou qualquer conduta imprópria. ACM Neto classificou as acusações como “absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas”. Ambos reiteram que as alegações de Vorcaro carecem de provas concretas sobre pagamentos efetivos e ações detalhadas que justifiquem as comissões milionárias. A situação permanece em aberto, com a tentativa de Vorcaro de reabrir a delação e as investigações em curso prometendo novos desdobramentos sobre este complexo emaranhado de acusações financeiras e políticas.