US Open em Crise: O “Zoológico” de Influenciadores e a Batalha pela Alma do Tênis

Capa

Nova York, 09 de setembro de 2026 – O US Open, um dos quatro torneios de Grand Slam mais prestigiados do tênis mundial, encontra-se no centro de uma intensa controvérsia nesta edição, enfrentando duras críticas de jogadores e observadores devido à escalada da indisciplina dos espectadores, ao barulho excessivo e, notavelmente, à presença massiva e disruptiva de influenciadores digitais. O torneio, conhecido por sua atmosfera vibrante e por ser o mais ruidoso entre os Grand Slams, viu sua reputação ser abalada por incidentes que vão desde o cheiro de maconha nas quadras até interrupções de jogos por flashes e anéis de luz, levantando um debate crucial sobre a busca por popularização do esporte versus a preservação de suas tradições e integridade competitiva.

A atmosfera no complexo de Flushing Meadows, em Queens, Nova York, tem sido descrita por alguns como caótica e desrespeitosa. O tenista francês Adrian Mannarino, após sua derrota na segunda rodada, não poupou palavras ao descrever o ambiente. “As coisas estão mudando, o público pode se mover durante os pontos. Cheira a maconha nas quadras. Há barulho por toda parte, na verdade está se tornando um pouco um zoológico”, lamentou o atleta, ecoando um sentimento crescente de frustração entre os competidores. A número 1 do mundo, Aryna Sabalenka, também relatou ter sentido um forte cheiro de maconha vindo para a quadra durante uma de suas partidas, evidenciando a extensão do problema.

A reputação do US Open como o Grand Slam mais barulhento não é nova, mas a presente edição parece ter levado a indisciplina a um novo patamar. O burburinho constante nas quadras principais, Arthur Ashe e Louis Armstrong, é uma característica já conhecida, frequentemente acompanhado pelo consumo do coquetel “Honey Deuce” pelos espectadores. No entanto, a novidade é a presença maciça de influenciadores, que, embora atraiam um novo público, mais acostumado ao ambiente de espetáculos americanos, parecem desconhecer ou ignorar as normas básicas de etiqueta do tênis.

Incidentes específicos têm sido amplamente reportados. Durante uma partida entre Gael Monfils e Learner Tien, um jornalista da AFP testemunhou uma influenciadora se aproximar da quadra em pleno jogo para tirar uma foto, vestindo uma camiseta com o logotipo de uma marca conhecida, antes de retornar ao seu assento. Tais ocorrências se multiplicaram desde o início da quinzena. Em outro episódio marcante, durante a partida entre a japonesa Naomi Osaka e a russa Anastasia Zakharova na primeira rodada na quadra Arthur Ashe, o árbitro francês Kader Nouni foi forçado a interromper o jogo. O motivo: espectadores em um camarote utilizavam anéis de luz e flashes para fotos e vídeos durante um ponto, um comportamento típico de influenciadores e que perturbou visivelmente as atletas.

“Normalmente não presto atenção, mas desta vez houve um momento em que essas pessoas gritavam e podiam ser ouvidas muito claramente. Acho que também incomodou minha adversária”, explicou Osaka, ex-número 1 do ranking, sublinhando o impacto direto na performance e concentração dos jogadores.

A presença de influenciadores não é acidental, mas sim uma estratégia deliberada dos organizadores do US Open. Desde o ano passado, o torneio tem colaborado ativamente com criadores de conteúdo digital, e nesta edição, cerca de cem deles foram credenciados com o objetivo explícito de popularizar o esporte nos Estados Unidos. Brendan McIntyre, porta-voz do torneio, defendeu a iniciativa à AFP, afirmando: “Queremos que todos os nossos fãs e convidados tenham um momento extraordinário quando vêm ver o torneio, mas também devemos garantir que não perturbem o andamento do jogo e a competição na pista.”

Em resposta às crescentes reclamações, os organizadores reforçaram a sinalização em todo o recinto e nos estádios, além de enviar mensagens aos portadores de ingressos e camarotes. O objetivo é lembrar a todos que se abstenham de qualquer atividade que possa perturbar a partida, com foco especial no nível de ruído, no uso do flash para fotos e, especificamente, nos anéis de luz. A medida busca mitigar os efeitos negativos sem abandonar a estratégia de engajamento com o novo público.

A comunidade do tênis está dividida quanto à abordagem. Algumas estrelas do circuito, como a número 4 do mundo Coco Gauff, campeã em Nova York no ano passado, veem com bons olhos a presença deste novo público, mas enfatizam a necessidade de adoção de normas básicas de convivência. “É como tudo, você não vai a um tapete vermelho de jeans. Simplesmente é preciso respeitar os costumes próprios deste esporte. Provavelmente já assistiram a jogos de basquete, mas às vezes é seu primeiro jogo de tênis. Nada de flash nem vídeos de TikTok durante os pontos, tentar não falar muito alto”, declarou a tenista americana de 22 anos, traçando um paralelo com a etiqueta social.

Sua compatriota Jessica Pegula, atual número 3 da WTA, oferece uma perspectiva que reflete a própria essência de Nova York. Ela assegura que o que acontece “é muito representativo de Nova York: é caótico e tudo vai em todas as direções”. Pegula, finalista do US Open em 2024, expressou otimismo de que, com o tempo, os novos fãs aprenderão as regras tácitas do esporte. “Quanto mais forem ao estádio e mais jogos assistirem, mais aprenderão esses costumes. De qualquer forma, dada a atenção que o tema recebeu, podemos esperar que a partir de agora estejam informados”, acrescentou, sugerindo que a própria polêmica servirá como um catalisador para a educação do público.

A postura do US Open contrasta drasticamente com a de Wimbledon, o torneio mais tradicional do tênis e o terceiro Grand Slam no calendário. Enquanto o evento americano abraça os influenciadores em sua busca por modernização e alcance de novas audiências, o Grand Slam britânico os rejeita veementemente. Segundo o “Yahoo!”, Wimbledon, conhecido por suas regras rígidas que incluem a exigência de que os jogadores atuem apenas com roupas brancas, já declarou que não irá criar um modelo de credenciamento específico para influenciadores. Essa distinção ressalta a tensão fundamental entre a tradição e a inovação no esporte, com cada torneio escolhendo um caminho distinto para o seu futuro.

A questão que permanece é se a estratégia do US Open de atrair um público mais jovem e digitalmente engajado compensará o custo de alienar jogadores e fãs tradicionais, que valorizam o silêncio e o respeito durante as partidas. A busca por um equilíbrio entre a popularização do tênis e a manutenção de sua essência competitiva e cultural é um desafio complexo que o US Open parece determinado a enfrentar, mesmo que isso signifique transformar temporariamente suas quadras em um “zoológico” de emoções e interrupções.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *