Nina de Pádua Retorna à Globo Após 21 Anos para Julgamento Crucial em Novela e Lança Alerta Social às Vésperas das Eleições

A notícia do retorno de Nina de Pádua à emissora carioca, após mais de duas décadas, reverberou como uma surpresa bem-vinda no cenário artístico. Sua última participação em uma produção da Globo, a bem-sucedida “Alma Gêmea”, também de autoria de Walcyr Carrasco, deixou uma marca duradoura na memória do público. O reencontro com o texto do autor, que agora divide a autoria de “Quem Ama Cuida” com Claudia Souto, é um dos pontos de grande satisfação para a atriz, que se declara fã incondicional da trama e acompanha seus capítulos diariamente. A oportunidade de voltar a um ambiente que ela define como sua vida, ao lado de colegas e pares, é um dos motores dessa participação especial.
O papel que Nina de Pádua assume em “Quem Ama Cuida” é de uma magistrada, figura central em um dos arcos mais sensíveis e urgentes da novela: o julgamento de Ademir, interpretado por Dan Stulbach, por assédio sexual. A atriz não escondeu a satisfação em encarnar uma personagem com tal poder de decisão. “É uma alegria enorme, uma surpresa, estou muito feliz de poder ferrar o Ademir”, brincou Nina, com um riso que, no entanto, não diminui a seriedade de sua intenção. Ela revelou um detalhe de seu passado que adiciona uma camada pessoal à sua performance: “Ainda mais que eu era tenista, então, tenho dupla vontade hoje de acabar com a raça dele”, comentou, sugerindo uma conexão com a força e a determinação exigidas tanto nas quadras quanto na sala de audiências.
Para a construção da personagem, Nina buscou inspiração em figuras proeminentes do Supremo Tribunal Federal (STF), mulheres que se destacaram por sua postura e rigor jurídico. Ao ser comparada à ministra Cármen Lúcia, a atriz, com seu habitual bom humor, retificou a analogia: “Até me compararam à ministra Cármen Lúcia, mas acredito que não. Estou mais para Rosa Weber”. Essa escolha não é aleatória; a ministra Rosa Weber é conhecida por sua discrição, rigor técnico e postura firme e implacável em seus julgamentos, características que Nina de Pádua pretende imprimir à sua magistrada. “Pretendo ser implacável, pretendo que Ademir vá para o lugar que merece”, declarou, sinalizando a seriedade com que abordará a questão do assédio na tela.
Embora o julgamento de Ademir tenha uma duração menor e não ocupe tanto espaço na narrativa quanto o de Adriana, personagem de Leticia Colin, a relevância de sua abordagem no horário nobre é inegável, especialmente no contexto atual. Nina de Pádua fez questão de sublinhar a importância do tema, que transcende a ficção e se conecta diretamente com a realidade social brasileira. Sua fala se tornou um alerta contundente, especialmente por ocorrer às vésperas das eleições de 2026, com o dia 4 de outubro sendo uma data crucial mencionada pela atriz.
“A gente não pode brincar com isso, porque tem muita gente dizendo que não é verdade, que não existe”, afirmou Nina, referindo-se à persistente negação e minimização do assédio sexual e da violência de gênero na sociedade. Sua declaração é um chamado à responsabilidade coletiva, especialmente das mulheres, em um momento político decisivo. “Nós, mulheres, temos que nos colocar muito seriamente e temos que ter muita responsabilidade no dia 4 de outubro. Não podemos permitir que determinados estados de inconsciência dominem”, enfatizou. Essa fala transforma sua participação na novela em um manifesto, utilizando a plataforma da teledramaturgia para incitar a reflexão e a ação cívica, reforçando a necessidade de combater narrativas que descredibilizam as vítimas e perpetuam a impunidade. A arte, nesse sentido, assume um papel de conscientização e mobilização social, especialmente em um ano eleitoral onde pautas como os direitos das mulheres e o combate à violência de gênero ganham ainda mais destaque.
A trajetória de Nina de Pádua é marcada por uma dedicação ininterrupta à arte. Após nove anos na Record, onde participou de produções de sucesso como “Chamas da Vida” (2008), “Balacobaco” (2012) e a aclamada “Os Dez Mandamentos” (2016), a atriz tem mantido uma forte ligação com o teatro, ambiente onde se sente plenamente realizada. Ela se define como uma artista “underground”, uma denominação que reflete sua preferência por trabalhos que, muitas vezes, fogem do mainstream televisivo, mas que não a impedem de abraçar oportunidades como esta na Globo. “Eu adoro estar na minha profissão, estar com meus pares, meus colegas, esse ambiente é minha vida. Faço teatro desde os três anos, nunca fiz outra coisa”, explicou, evidenciando uma paixão que a acompanha desde a infância e que moldou sua identidade profissional.
Apesar de sua forte conexão com o teatro, Nina de Pádua não descarta a possibilidade de um retorno definitivo às novelas, desde que os projetos a inspirem e ofereçam papéis desafiadores e relevantes. Sua volta à Globo, mesmo que para uma participação especial, reacende a discussão sobre a importância de valorizar e acolher profissionais veteranos na televisão. A atriz é uma defensora ferrenha da presença de atores experientes nas produções. “A gente se forma vendo esses atores trabalhando. Quando você tem cinco anos, já sabe quem é bom e quem não é. Porque tem verdade naquele que é bom”, argumentou. Para ela, a exclusão de artistas com longa estrada é um empobrecimento para a própria arte. “É empobrecedor para os trabalhos que não acolhem os veteranos”, concluiu, ressaltando que a experiência e a verdade cênica desses profissionais são insubstituíveis e essenciais para a qualidade e profundidade das narrativas televisivas, contribuindo para a formação de novas gerações de atores e para a educação do olhar do público.
A participação de Nina de Pádua em “Quem Ama Cuida” não é apenas um retorno de uma grande atriz à cena televisiva; é um lembrete do poder da arte em refletir e influenciar a sociedade, especialmente quando aborda temas tão sensíveis e necessários como o combate ao assédio sexual e a responsabilidade cívica em tempos de decisão política. Sua voz, agora amplificada pela tela, ressoa como um chamado à consciência e à ação.