Tarcísio Demite Delegado Da Cunha da Polícia Civil de SP Após Processo Administrativo por Irregularidades Graves

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Em uma decisão de alto impacto que reverberou nos corredores da política e da segurança pública, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), formalizou nesta quinta-feira, 3 de setembro de 2026, a demissão do deputado federal Carlos Alberto da Cunha (União-SP), amplamente conhecido como Delegado Da Cunha, dos quadros da Polícia Civil do estado. A medida, publicada no Diário Oficial do Estado, encerra uma série de investigações e processos administrativos que culminaram na penalidade máxima: a demissão a bem do serviço público, após o governo considerar procedentes as acusações de irregularidades graves contra o parlamentar.

A exoneração de Da Cunha não é apenas um ato administrativo, mas o desfecho de uma trajetória marcada por ascensão meteórica nas redes sociais e, concomitantemente, por uma sucessão de controvérsias que colocaram em xeque sua conduta como agente público. A decisão do governo paulista baseou-se em um parecer e despacho da Assessoria Jurídica do Governo, datados de 1º de setembro, que fundamentaram a aplicação de uma das mais severas punições previstas no Estatuto da Polícia Civil de São Paulo. As acusações que levaram à demissão incluem a prática de irregularidade grave, a revelação intencional de informações sigilosas obtidas em razão do cargo, com prejuízo ao Estado ou a particulares, e a prática de ato definido em lei como improbidade.

A Trajetória Controversa: Do YouTube à Câmara dos Deputados

Antes de sua eleição como deputado federal em 2022, Delegado Da Cunha construiu uma notável base de seguidores no YouTube, ultrapassando a marca de 3 milhões de inscritos. Sua fama foi alicerçada na publicação de vídeos de operações policiais, que, embora lhe rendessem popularidade, também atraíram a atenção da Corregedoria da Polícia Civil. Desde cedo, sua conduta foi questionada por suspeitas de usar a estrutura da corporação para autopromoção, gerando os primeiros procedimentos investigativos.

A exposição nas redes sociais, que o catapultou para a política, também o colocou no centro de diversas investigações. Em 2020, Da Cunha foi acusado de uma prática chocante: obrigar a vítima de um sequestro e um criminoso a retornarem a um cativeiro já desativado para reencenar e gravar a ação policial. Ele admitiu ter feito uma reprodução da ocorrência, embora o processo judicial relacionado a este episódio tenha sido arquivado em 2024. Este incidente, no entanto, foi um prenúncio das tensões entre sua persona pública e suas responsabilidades como delegado.

Em 2021, a situação se agravou. Da Cunha foi afastado das ruas e teve sua arma e distintivo recolhidos. Naquele período, ele respondia a múltiplos procedimentos na Corregedoria, todos relacionados ao uso indevido da estrutura da Polícia Civil para suas gravações em redes sociais. Foi nesse contexto que ele solicitou licença não remunerada da instituição, um afastamento que, agora, se torna permanente com a demissão.

Ainda em sua fase de pré-candidato a deputado federal, o Delegado da Cunha foi alvo de uma representação do Ministério Público Eleitoral (MPE) por ter pedido votos em um vídeo publicado no YouTube, evidenciando a persistência de sua estratégia de uso das plataformas digitais para fins políticos, mesmo sob escrutínio.

Acusações de Violência Doméstica e Críticas Públicas

A lista de controvérsias de Da Cunha não se limitou ao ambiente policial. Já no exercício de seu mandato como deputado federal, ele se tornou réu por violência doméstica contra sua ex-companheira, Betina Grusiecki. O Ministério Público de São Paulo (MPSP) o denunciou por lesão corporal, ameaça e dano qualificado. Embora ele negue as acusações, o caso ganhou grande repercussão e adicionou uma camada de gravidade às denúncias contra sua conduta.

A percepção pública sobre Da Cunha foi ainda mais abalada em fevereiro de 2026, quando sua participação na reinauguração de uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em São Paulo, provocou fortes críticas de entidades ligadas ao combate à violência contra mulheres. A presença de um parlamentar réu por violência doméstica em um evento tão simbólico foi vista como uma afronta e gerou indignação, levantando questionamentos sobre a adequação de sua imagem pública para tais ocasiões.

Ao longo de sua carreira, Da Cunha chegou a alegar que as investigações e o afastamento eram motivados por “ciúme em relação ao seu sucesso na corporação”, uma narrativa que buscava desqualificar as acusações como perseguição. No entanto, a decisão do governo Tarcísio de Freitas, embasada em um processo administrativo robusto e pareceres jurídicos, indica que as irregularidades foram consideradas substanciais e graves o suficiente para justificar a pena máxima.

O Impacto da Demissão

A demissão a bem do serviço público é uma das mais severas sanções administrativas, implicando não apenas a perda do cargo, mas também a impossibilidade de retorno ao serviço público em determinadas condições. Para um deputado federal que construiu sua imagem pública em torno de sua identidade como “delegado”, a decisão representa um golpe significativo em sua carreira e reputação. Embora estivesse licenciado da instituição para exercer o mandato parlamentar, a demissão o desvincula permanentemente da Polícia Civil, encerrando um capítulo de sua vida profissional que foi tanto fonte de sua ascensão quanto de suas maiores polêmicas.

A reportagem tentou contato com o deputado federal Delegado Da Cunha para comentar a decisão, mas ele não foi localizado pela coluna. O espaço segue aberto para sua manifestação. A decisão do governo de São Paulo reforça a mensagem de que a conduta de agentes públicos, mesmo aqueles com projeção nacional, está sujeita a rigorosa avaliação e que a lei deve ser aplicada com firmeza diante de irregularidades, especialmente quando envolvem o uso da máquina pública e a confiança da população.

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